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CAIS DO SODRÉ

Não é segredo nenhum, mas o Cais do Sodré continua a ser uma surpresa para muita gente. Entre concertos, discaria, casas de alterne e shows de striptease, convivem os sítios do costume e uma série de outros que, outrora à porta fechada, revelam uma nova, despretensiosa e efervescente, noite lisboeta. A Rua de Baixo foi conhecer os protagonistas deste Cais.

Lounge

Quando o número um da Rua da Moeda chegou ao Cais “a zona era um deserto em termos de propostas nocturnas, era uma zona de tascas, lojas de bairro e meninas da noite”, conta Mário Valente, programador e DJ residente do Lounge. Abriu portas em 1999, e é uma incontornável referência da vida nocturna lisboeta, não só enquanto bar, onde acolhe uma grande diversidade de DJ sets – desde a electrónica, passando pelo indie e a world music –, mas também enquanto sala de concertos.

Segundo o programador, os concertos são “um bónus que gostamos de oferecer aos clientes”. A programação assenta na partilha de “novas sonoridades” e nela conta-se sempre com o melhor espírito do underground: uma sala pequena, sem palco, onde se ouve mesmo o que não se vê – uma espécie de comunhão perfeita de sentidos. Este ano já por lá passaram as canções folk norte-americanas dos Black Swans, a excentricidade pop e psicadélica da DIVA, o rock dos explosivos Tyvek, entre muitos outros – e sempre de borla.

MUV

O MUV chegou em Dezembro último. A conquistar ainda o seu lugar na praça ribeirinha, conta com uma programação de música ao vivo ainda pouco regular, mas pretende afirmar-se enquanto “espaço multicultural”. Conta desenvolver este projecto lúdico e cultural associado à gastronomia, conta-nos um dos sócios, Miguel Osório. O bar, em si, serve apenas para financiar esse projecto maior.

A visita é merecida: tem um ar industrial, com uma decoração fancy e elegante que rompe com o que vemos pelos bares circundantes. A colecção de televisores retro contrasta com tudo o resto, mas leva-nos para o conforto do que, um dia, já vimos ou onde já estivemos.

Viking

Na Rua Nova do Carvalho, em tempos frequentada pelos marinheiros atraídos aos bares pelos nomes de cidades portuárias – a remeter a casa ou à procura do que um novo porto pode ter para oferecer –, o tráfego humano intensifica-se e, com ele, tudo o resto: nacionalidades, etnias, idades, credos e, até, propósitos. É por ali que encontramos o Viking, bar de alterne feito hype do submundo. É pequeno, escuro, espelhado e tem uma micro-pista onde cabe sempre toda a gente.

António Costa, proprietário, conta que a vinda do Musicbox veio dar um novo impacto ao Cais. Esta invasão, pela juventude, obrigou a mudanças para melhor os receber, nomeadamente na música, facilidades como o ar condicionado ou o sistema de luzes. Na pista, o que se ouve são os sucessos dos anos oitenta e noventa. E a selecção é apenas interrompida – e ninguém se zanga por isso –, à 1h00 e às 03h00, quando Fabiana sobe ao palco para o célebre show de striptease, numa espécie de ritual onde se reúnem, quase sem malícia, todos os hereges que o Cais do Sodré acolhe.

A Fabiana

Fabiana é a artista de serviço há, pelo menos, seis meses. António Costa não hesita em apelidá-la de “fenómeno” com um sorriso surpreso e orgulhoso. Não tem dúvidas de que a dançarina se enquadra no novo espírito vivido na rua.

Entre a confusão instalada, numa casa pelas costuras, conseguimos chegar a Fabiana que nos concede a sua primeira entrevista. Conta, com a simpatia a que nos habituou na troca de olhares e cumprimentos dos últimos meses, que só no Viking é que encontrou “esta malta”. “Engraçado, às vezes em casa eu penso: isto não está acontecendo comigo!”, confessa sobre o histerismo gerado à sua volta. E, mesmo apesar do sucesso, faz questão de cumprimentar toda a gente “seja rico ou seja pobre”, acrescenta. Há três semanas começou a frequentar um ginásio, mas sabe que as pessoas gostam de si do jeito que é. E é aqui que mora o segredo do Viking e da Fabiana: desengane-se quem pensa que a espécie vai pelo nu integral. A maioria vai ver a Fabiana porque é a Fabiana – e isto deixa de se conseguir explicar, é ir e ver com os próprios olhos. Fabiana, entre a foto e a despedida, deixa recado: “Abraço para a malta, adoro todos!”.

Copenhagen

A sala, apesar de uma pista igualmente pequena, e o melhor das luzes da dancetaria, tem uma selecção musical mais actual e alternativa, embora mantendo toda a parafernália kitsch de outros tempos. Pedro Rodrigues, gerente e o também DJ Booster, confessa que é trabalhoso, apesar do prazer que sente a trocar faixas. Na sua pista a música viaja desde os anos 50 à actualidade e naquele dia ouvia-se Sublime, The Strokes, LCD Soundsystem, Franz Ferdinand e outros.

Desde 2009 que implementaram os after-hours, o que permitiu que o Copenhagen voltasse a integrar o mapa da noite, em Lisboa. No que ao horário nocturno diz respeito, a filosofia é clara e simples: “ambiente seleccionado, simpatia, boa música”. E esta tem sido, realmente, a fórmula perfeita para noites de sucesso.

Casa Cid

Também no Cais do Sodré a noite acaba e, normalmente, é no número 32 da Travessa Ribeira Nova, a partir das 5h. Chegados à Casa Cid têm duas opções: comem e vão para casa dormir de barriga cheia; comem e vão para os after-hours, que se seguem no Cais, de barriga cheia. Dário Dinis descreve o ambiente como “decadente”, frequentado essencialmente por “mitras e boémios”, embora já se comecem a ver betos, como conta. À mesa estão também sentados os que vão à bucha antes de ir trabalhar e as pessoas mais velhas que madrugam, mas não frequentam a vida nocturna. Aqui não há modas, o que importa na Casa Cid come-se: “a sopa, que eu agora não te sei dizer qual é, mas acho que é de feijão, é deliciosa, repito sempre”, confessa o habitué. Mas do cardápio, bem português, fazem ainda parte: filetes de pescada, pataniscas, omeletas, chamuças e tudo aquilo que é essencial para o crescimento, seja lá em que idade for.

Para terminar, Dário Dinis, que não é navegador dos sete mares, mas se passeia há tempo suficiente pelo Cais, conta que o seu sítio de eleição é o Lounge: “é um sítio que tem conseguido manter a qualidade, seja a nível de música ou de ambiente, e já lá vão com mais de dez anos em cima”.

Antes de irmos, que se faz tarde: venham de onde vieram, venham ao que vieram, no Cais do Sodré há de tudo para todos. A noite tem um princípio e um fim, é certo, mas entre um e outro há toda uma noite por descobrir. Não percam essa oportunidade. A sério.



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