Caixa Alfama

O Fado é isto

Que este artigo te reporte o grande evento de fado que se fez ouvir em Lisboa este fim-de-semana e motive já, para ontem, o próximo Caixa Alfama, na Mouraria se tiver que ser…Só, porque tem de ser!

De uma estranha forma de vida para um festival. O fado está vivo e segue a vida para onde ela vai. Como quem corre de palco em palco, para não perder a festa ou para a festa não passar ao lado, certo do que gosta, curioso às vezes, ávido sempre. O Fado. A vida.

Segue para a colina mais afamada, a arrastar turistas, para o centro de Lisboa, na moda, visitada por todos e onde tudo não pára de acontecer, para o novo bairrismo, para o sentimento positivo das pessoas juntas e em festa celebrando a sua cultura e o acesso a esta cada vez mais facilitado pelos tempos.

Depois olha-se ao espelho do tempo, remodela-se, veste-se de festival e sai à rua para a primeira edição do festival Caixa Alfama, levando 40 artistas a 10 palcos distintos e únicos, da beira-rio, às vielas e largos, aos centros recreativos e igrejas do bairro de Alfama.

“Hoje até lavaram as ruas, vamos ver o que isto vai dar logo à noite”, ouvia-se na Rua dos Remédios, horas antes do início, da janela de quem tem a sorte de já morar junto do fado. A curiosidade andava na rua. E a vaidade também. Alfama em festa é rainha, ela é a rainha das festas, das populares, das marchas, Alfama é que é!

O fado acompanha-a. É seu fado. Chegou vaidoso da sua alma, da variedade e qualidade dos seus artistas, qual deles mais aplaudido entre Ana Moura, Aldina Duarte, Gisela João, Camané, Ricardo Ribeiro, Raquel Tavares, Maria da Fé, Cuca Roseta, José Fernando, Ana Sofia Varela e todos os fadistas aplaudidos que couberam neste Caixa Alfama.

Subiu a palcos maiores como o palco Caixa, montado especialmente para o evento, privilegiado frente ao rio Tejo, a mirar os telhados que tecem a malha do bairro mais típico de Lisboa, cenário que Cuca Roseta elogiou: “De todos os locais para onde levamos o fado este é sem dúvida o mais bonito”.

Encheram-se outros e variados palcos, uns mais barristas como a sociedade Boa União e o Centro Cultural Dr. Magalhães Lima, uns incomparáveis como o caso da Igreja de Santo Estevão com o fado de Aldina Duarte ”pedindo a Deus para me encontrar qualquer dia”, agilmente adequada ao cenário, a lembrar uma oração, sentida, penosa, perdoada, abençoada.

Quem organizou conhece o fado e soube assim dar Aldina Duarte à Igreja de Santo Estevão, Jorge Fernando ao Largo das Alcaçarias, Camané ao merecido fecho do primeiro dia de festival, frente ao Tejo, com plateia completamente inebriada, onde pôde ser fadista como só ele sabe ser andando “na noite escura à procura do luar”.

Caixa Alfama 2013 - Gisela João - Foto de Ana Jerónimo

“Viemos pela Gisela!”- responderam em uníssono três jovens entre os 20 e 25 anos. Como elas, novos públicos foram trazidos por fadistas mais novos como Gisela João, a nova aposta –já ganha a ver pelo sucesso do primeiro álbum que acaba de lançar. “Esta miúda canta o fado que é um disparate” aprecia alguém do público mais velho arrepiado com a “miúda do norte”. A audiência esteva assim durante os dois dias de festival, cheia, diversa, alegre e emocionada com o desfile de artistas de qualidade.

Ana Moura com o seu “Desfado” trouxe na voz o que mudou com Jorge Fernando e não pára de mudar neste género musical. E o fado ali a acompanhar tudo isto, a mostrar, por um lado, porque é que é património imaterial da humanidade, por outro como depois de anos entregue ao mofo do esquecimento de casas de fado, consegue bombear durante um fim-de-semana inteiro, o coração alfacinha com o que tem de melhor, de tão português e a quem ele tanto pertence: ao povo. E o povo, actualmente habituado a este formato dos festivais, esteve lá para o confirmar, sorrir, chorar, trautear, aplaudindo dois dias de artistas de hoje, autores de ontem e histórias de sempre.

Caixa Alfama 2013 - Ana Moura - Fotografia de Ana Jerónimo

“O povo é que manda! Vamos embora!”, respondia a fadista Raquel Tavares a seguir a cantar “Sou Alfama” que pôs a audiência em êxtase, porque Raquel é mesmo, do bairro, das pessoas, madrinha da marcha de Alfama e amiga de todos na primeira fila do Palco Caixa que exigia: ”só mais uma, a gente é que manda, o bairro é nosso!”.

Foi ele, o povo que ditou este festival mostrando que o fado não é só para turista ouvir, se não note-se o que já salta à vista de todos: o consumo crescente de fado e sua venda de discos reclamando os tops musicais, a grande abertura a novas vozes, o sucesso rápido e aplaudido de novos talentos, o fado em concerto mês sim, mês também, a internacionalização imparável. O povo quer mais. O fado é mais. E Luís Montez, responsável da Música do Coração, habituado ao que tão bem já  faz com o rock, a pop e outros géneros, juntou esta actual paixão pelo fado à mais recente e bem-sucedida tendência do entretenimento: os festivais. Um formato vencedor porque atrai novos públicos a novas formas de convívio e cultura em novos locais da cidade mas de forma muito mais económica. O fado foi isto, foi acessível ouvir durante dois dias, 40 artistas, por 35 euros.

Caixa Alfama 2013 - Fotografia de Ana Jerónimo

Mas a aposta era grande, ninguém sabia se ia resultar e por isso é que foi tão bom. Funcionou no fundo como numa casa de fados, entre estilos, gerações, nomes e reportórios, palmas e palmatórias. “Quem conhece o fado sabe que ele acontece em sítios pequeninos, ele simplesmente acontece”, comentava Raquel Tavares, “mas vamos lá mostrar a esta gente”. E foi isto que o Caixa Alfama teve de tão bom, ora vincando ora contrariando as diferenças com o fado mais tradicional de uma casa de fados, foi contando a história do fado. Em vez do ambiente familiar, um cruzamento de públicos e de histórias e comentários. Em vez do castiço desafio entre fadistas era ver o público a desafiar e a correr a ver o seu favorito e a desafiar as próprias emoções de ambiente em ambiente.

Caixa Alfama 2013 - Fotografia de Ana Jerónimo

A Caixa Alfama que se abriu com chave de ouro com Gisela João fechou-se com chave de bronze com Ricardo Ribeiro no Centro Cultural Dr. Magalhães Lima: o coração de Alfama como dizem, onde se ensaia a marcha e tantas histórias mais. E estavam lá todas, as histórias e as memórias, apertadas para ouvir cantar o mais castiço de todos, “o mais gordo de todos” brinca o próprio Ricardo Ribeiro sem nunca parar, de brincar e de rir, entre os fados. Quando começa, silêncio, pára tudo e mais qualquer coisa, quando Ricardo Ribeiro canta, há algo no tempo que congela e fica ali no arrepio a ouvi-lo. E foi parado que o tempo recuou, como de um fado dos bons a “lembrar histórias de um passado que nem vivemos ou de um futuro que ainda vamos viver” dissertava Camané no dia antes, no dia que foi dele inigualável.

Então, deu um passo atrás, ou dois ou três, mesmo já no fim do festival, respondendo ao desafio de Ricardo Ribeiro: Se estiverem todos caladinhos, fazemos assim, sem microfone, como numa casa de fados a sério”. E foi assim que acabou o Caixa Alfama, afinal, como numa casa de fados, na casa onde ele mora, na casa do fado.

 

Fotos: Ana Jerónimo



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