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O Paraíso de Capote

No Caminho de Joana.

Truman Capote há muito que se cruzou no caminho de Joana Brandão, especialmente na forma de contos. Joana, vestindo a pela de uma “nem feia, nem bonita” Mary O’Meaghan, atreve-se a passear Nos Caminhos do Paraíso do escritor americano. O Resultado? “Caminhos”, monólogo que está em cena até 26 de Setembro, no Clube Estefânia.

“Não tem açúcar”. Esta é a primeira fala audível de uma senhora que aparenta já ter passado, há algum tempo, a meia-idade. Antes de se sentar a tomar chá, preparou a mesa, com cuidado, colocando uma toalha de bolas brancas em fundo laranja, um bule e duas chávenas. A sala foi minuciosamente varrida e o pó afastado dos móveis, enquanto se ouvem murmúrios pouco perceptíveis ao ouvido humano. Olhar para o relógio de pulso é uma constante, como quando se espera ansiosamente por alguém. Podia ser uma daquelas amigas das nossas avós, que nunca chegou a casar, e nos convida a entrar na sua sala.

O cheiro da sala do Clube Estefânia, onde decorre a peça, ajuda a criar o ambiente de antiguidade. Mary O’Meaghan é uma protagonista solitária que tal como a sua tia Penn, segundo nos conta, é uma mulher “só e amargurada”, que nunca casou mas também nunca ninguém a obrigou. O chá não açucarado parece tomá-lo sozinha mas, na verdade, à mesa está também sentado o pote de cinzas do seu pai, a quem dedicou toda a sua vida.

E a alguém que não viveu a própria vida como gostaria, não lhe resta outro caminho se não o de ir tomando atenção à dos outros, pelo menos, enquanto a dela não chega. Talvez isso explique o facto de algumas molduras, no móvel da sala, não conterem nenhuma fotografia. De Mary sabemos que faz o melhor esparguete, particularmente, o com molho de marisco, já atestado pelo seu cunhado Frank. Dos filhos deste e da sua irmã também não há quem tome melhor conta do que ela. “Não há nada melhor do que cacau quente, depois de uma luta de almofadas, para os acalmar”.

Repetem-se as olhadelas ao relógio de pulso que já deixou de ser certo, há muito tempo. “É preciso que o ponteiro avance, desde que estejas ao lado dos teus pais”, dizia-lhe o saudoso paizinho. Pelo tom em que nos são contados estes episódios entre pai e filha, facilmente se depreende a animosidade entre os dois. A devoção à figura paterna é total mas, também o rancor se faz notar por este não a ter deixado viver “ou simplesmente aprender estenografia ou dactilografia”. Nenhum homem a pôde levar ao cinema ou a dançar.

Mas dançar também será das poucas coisas que não podia fazer. A perna direita não dobra do joelho para baixo, o que provoca um permanente coxear. E é a arrastar a perna, de um lado para o outro, que vai buscar um jornal e uma antiga caixa de recortes do pai. A debilidade na perna vem mais tarde a saber-se que se deveu a um “descuido na montanha russa”, da qual a mãe não sobreviveu. Mas o acidente, esse, foi uma dádiva, na opinião do paizinho. Tornou-a num “pássaro a quem cortaram as asas” e que assim, nunca mais pôde sair do ninho paternal.

E do jornal não nos esqueçamos, pois a sua acção nos caminhos de Mary O’Meaghan é central. É através dele, sobretudo da sua secção favorita, a necrologia, que defende as mais variadas teorias sobre as fotos que as pessoas escolhem para embelezar as campas ou a roupa que vestem nos funerais mas, mais do que qualquer outra coisa, é de onde pode retirar os nomes dos recentes viúvos, e apontá-los no seu caderno de notas, para que os possa encontrar mais tarde. Isto porque os “homens sentem necessidade de seguir em frente, ao passo que as mulheres lhes dedicam a vida até depois de mortos”.

Nos caminhos do paraíso de Truman Capote, conta-se que Mary O’Meaghan interpõe conversa com um viúvo, no momento em que este coloca flores no jazigo da sua falecida mulher. A história é-nos relatada por um narrador que assiste ao encontro entre os dois. Ivor parecia italiano (e o quão ela gosta de italianos!). Joana Brandão, actriz e dramaturga deste “Caminhos”, identificou-se imediatamente com ela. “Levei-a para casa. Quis dar a conhecer o outro lado desta mulher meio tresloucada. Quis dar-lhe vida”.

Na verdade, o momento em que decorre esta peça já é posterior ao encontro entre Mary e Ivor. Encontro que O’Meaghan guarda na memória com muito carinho. Isto porque tinham muito em comum: “a adoração pela cantora Helen Morgan (que se faz ouvir a partir do gira-discos da sala) e as doenças de coração”. Era, sem dúvida, um bom partido que até usava “camisa branca e relógio de bolso”.

Conhecer viúvos num cemitério era, sem hesitação, uma ideia sensata. A sua vizinha já tinha encontrado dois maridos desta forma. “Uma senhora quando dá os pêsames ao marido viúvo é como se estivesse a apresentar-se”. E para este viúvo, em particular, Mary até tinha cantado naquele “jardim de pedra”. Mas Ivor nunca pôs a hipótese de se voltar a casar:“Boa Sorte, talvez um dia”, disse-lhe na despedida.

As histórias dos seus encontros parecem nunca acabar numa sala de cinema ou “num quintal a lavar camisas”. Mesmo incerto, o relógio de pulso afinal serve para lhe mostrar a hora de sair. É tempo de vestir trajes mais escuros e ir buscar o casaco e a mala, que estão no bengaleiro no lado direito da sala, desde o início da peça. É tempo de fazer uso do caderno onde apontou os nomes que retirou do jornal. “Talvez um dia”, disse-lhe Ivor Belli. “Talvez seja hoje o dia”, disse Mary antes de sair.



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