brasilsul

Camomila ao vento #4

Três estados brasileiros, um mês de viagem.

Considerado um dos maiores países do mundo, do ponto de vista geográfico, o Brasil representa um enorme desafio para qualquer viajante que como eu pretende conhecer o maior número possível de locais num espaço de tempo relativamente curto. Convém recordar que muitos brasileiros, a maioria talvez, nunca saíram sequer do seu estado e no total são 27 regiões por isso o desafio é realmente grande.

No artigo anterior falei-vos da Bahia, um dos estados que pertence à região do nordeste brasileiro. Neste artigo vou debruçar-me sobre três outros estados, nomeadamente o Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.

Naturalmente, visitar o Brasil e passar ao lado de uma das 7 maravilhas do mundo, o Cristo Redentor, é quase um crime por isso lá decidi aproveitar uma das promoções aéreas para voar em território brasileiro e dar um salto à cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro.

Localizado na região sul do Brasil, o Rio de Janeiro é talvez uma das maiores referências da cultura brasileira e uma cidade de sonho para muitos viajantes de todo o mundo. Muitos seriam os possíveis culpados para esta tão grandiosa fama, desde as novelas brasileiras que são maioritariamente gravadas aqui, ao Carnaval carioca que é notícia em todo o mundo, passando pelo futebol brasileiro que continua a ter como postal de visita o estádio do Maracanã, o cinema mais recente como “Tropa de Elite” ou “Cidade de Deus” que foram gravados nas favelas do Rio, e ainda o samba e a bossanova que abundam por aqui.

A minha visita à cidade começou como não poderia deixar de ser pelo Calçadão, uma via pedestre que percorre as melhores praias do Rio, entre as quais Copacabana, Ipanema ou Leblon. Não é exactamente como pintam nas novelas, pelo menos não vi nenhuma Adriana Lima nem nenhum Reinaldo Gianechini a passear, mas aqui é bem notório o culto do corpo. Independentemente da idade todos querem estar em forma para o calor e por isso o exercício físico é diário. Ao longo desta via existem dezenas de cafezinhos onde podem beber a vossa água de coco ou uma cerveja bem geladinha, bem como comer um prato chamado passarinha que é no fundo galinha frita com molho de cebola e alho por cima. Delicioso. Nesta via podem também comprar os típicos souvenirs alusivos ao Brasil.

Se seguirem a linha do mar irão conhecer alguns sítios bem bonitos como é o caso do Parque de Ipanema, sossegado o suficiente para poderem fazer um piquenique ou ler um pouco. Depois de atravessar um túnel entram na Barra da Tijuca. Por ter apenas uma porta de entrada e saída torna-se muito mais segura pelo que é uma zona cara para se viver. Aliás isso percebe-se imediatamente depois de passar o túnel. As casas são grandes, luxuosas e normalmente pertencem a condomínios fechados de elevado poder económico. Posso confessar que me chocou um pouco ver tanta riqueza e pobreza coabitarem num espaço tão próximo. É que se por um lado há bairros como este, por outro lado o Rio de Janeiro tem cerca de 2.000 favelas.

Posteriormente à Tijuca vêm algumas das mais idílicas praias do Rio de Janeiro. Destaco particularmente a Prainha. Não muito grande, como o nome pode sugerir, esta praia é fenomenal. Tem um grande morro por trás, imensa vegetação densa a ladear a estrada de acesso, e para completar o cenário não tem muita gente porque já fica fora do grande centro urbano. Perfeito!

Mas nem só de praia vive o Rio, então sigo para os dois principais postais de visita da cidade – o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. Para se chegar ao primeiro dos dois sítios é necessário contratar um taxista ou entrar num autocarro junto a Copacabana com direcção ao Corcovado. De lá existem umas carrinhas que finalizam o percurso, contudo ficam a restar as inúmeras escadas que são precisas subir para ver a maior escultura do Brasil, uma obra arquitectónica que pretende representar a hospitalidade dos cariocas e do povo brasileiro em geral. O Pão de Açúcar, por sua vez, são nada mais que dois gigantescos morros, passíveis de serem escalados, e que são unidos por um teleférico. Se estar cá em baixo a apreciar a magnitude destas duas formações rochosas já é estonteante, subir e ver toda a cidade na sua plenitude é de cortar a respiração.

Destaque também para a música. Palco de inúmeros sucessos musicais que badalaram o mundo, o Rio de Janeiro é uma cidade extremamente cultural com bom samba e bossanova para se ouvirem. O local para se ver este lado carioca? Lapa. Esta é a zona antiga da cidade, que nos últimos anos tem sofrido uma intervenção social a fim de eliminar a criminalidade até então existente e devolver a dignidade aos muitos bares que viram nascer estrelas como António Carlos Jobim, Nara Leão entre tantos outros. A maioria dos sítios não tem consumo e o incentivo às jam sessions é constante, por isso se sabem tocar uns acordes no violão ou dar uns toques no pandeiro não se intimidem.

Da cidade maravilhosa avancei para o estado de Minas Gerais. Tendo como capital a cidade de Belo Horizonte, este estado é quarto maior do país em geografia e o terceiro com maior PIB a par de São Paulo e Rio. No passado, este estado foi altamente colonizado pelos portugueses devido à abundância de metais, minérios e pedras preciosas. A minha cidade de eleição neste estado foi Ouro Preto. Esta é uma pequena cidade, considerada Património Mundial da Unesco pela sua arquitectura. Desenvolvida sob o estilo barroco e rococó, como a maioria das nossas igrejas e vilas minhotas, Ouro Preto é construída em cima de morros, pelo que é muito irregular. O artista mais conhecido de toda a região chama-se António Francisco Lisboa, mais conhecido por Aleijadinho, e foi o responsável pela maioria das fontes, igrejas, pontes e outros espaços públicos da cidade. O seu trabalho é notável. Mas pessoalmente elejo a Igreja Matriz da Nossa Senhora do Pilar como sendo a mais imponente da cidade. Nela existem 84 kg de ouro distribuídos por imagens de santos, anjos e outras divindades, mas também nos elementos de união entre esses vários elementos. No seu interior se olharem para o tecto poderão visualizar uma imagem de um carneiro que independentemente da posição em que o estejam a admirar estará sempre voltado para vocês. É uma imagem a 360 graus difícil de explicar se tivermos em conta o período em que foi construído.

Enquanto viajante acho importante se deliciarem com o trabalho arquitectónico desta cidade, mas a par dela existe uma outra vila importante. Chama-se Mariana, é também uma cidade histórica, com praças e edifícios públicos espectaculares. Para terem ideia é aqui que se encontra o órgão de tubos mais antigo do país. Por outro lado, existe uma via ferroviária que une ambas as cidades. Conhecida por Maria Fumaça, a locomotiva tem um custo de 22 reais e é um trajecto fenomenal porque podem ver de perto as ladeiras características desta região bem como os percursos por onde eram levados os minérios extraídos antigamente. Como não poderia deixar de ser é quase obrigatória a visita a uma das muitas minas existentes na cidade. Além de ficarem a saber como o processo de extracção de ouro era feito, também terão noção do quanto os escravos eram mal tratados neste processo. A generalidade não ultrapassava os 20 anos devido à quantidade de minérios tóxicos que inalavam, mas também devido à desnutrição fruto da falta de alimentação.

Nota importante, já não há extracção de ouro nos dias que correm, contudo só em Minas Gerais, e mais concretamente na região de Ouro Preto, existe uma pedra preciosa chamada Topázio Imperial, de cor alaranjada, que pode valer bom dinheiro a quem o encontrar. Por falar no nome da cidade e em pedras preciosas, a cidade adquiriu este nome porque no período de extracção de ouro desta região o mesmo vinha agarrado ao ferro o que lhe dava uma tonalidade negra.

Bom, daqui novo autocarro, ou ônibus se preferirem, para o estado de Mato Grosso do Sul. Colado à fronteira com a Bolívia, este estado é um verdadeiro recanto de lugares paradisíacos prontos a serem explorados. A minha viagem começou pela capital, Campo Grande. Fiquei hospedada em couchsurfing por uns dias aproveitando para adquirir alguns conhecimentos sobre a cultura indígena local. O sítio ideal para isso é o Museu do Índio localizado no Parque das Nações Unidas Indígenas, e se tiverem sorte de apanhar o Juliano, director do museu, como guia então tudo será perfeito. Do povo guarani às tribos chavante e terena, este museu é uma enciclopédia aberta para quem gosta de história e sobretudo para quem se prepara para entrar na Bolívia, um país maioritariamente indígena.

Neste parque onde está situado o museu é igualmente interessante vaguear um pouco pelos caminhos e admirar as várias espécies animais existentes como as capivaras, os tucanos, as araras, os quero-quero, entre outros. Mas se querem um pouco mais de aventura podem sempre dar um salto até ao Centro de Recuperação de Animais Silvestres. É preciso agendar com antecedência, mas aqui poderão ver de perto anacondas, jacarés, onças pintadas e outros animais selvagens que habitam no Pantanal Mato Grossense, a principal pérola deste estado e que sem duvida é a maior atracção para quem viaja por estas bandas.

A meio caminho entre Campo Grande e o Pantanal fica o meu sítio de eleição nesta viagem. Chama-se Bonito (porque será?) e é de cortar a respiração. Águas cristalinas para se banharem, peixes de todas as formas e com cores quase florescentes com a qual é possível nadar, lagoas selvagens que podem ser vistas por dentro através de mergulho, grutas de água azul com 500 milhões de anos e animais apenas passíveis de se verem aqui, trilhas na natureza. Querem que continue? Neste recanto da natureza é obrigatório abrir os cordões à bolsa. A oferta de actividades é tão grande que o difícil é escolher o que fazer para os dias em que estamos hospedados. A par disso, a gastronomia local não podia ser mais exótica. No menu vão encontrar alguns pratos como lasanha de jacaré ou sopa de piranha, mas não se preocupem. Ambos são deliciosos :P

Aguardem por novidades no próximo artigo. Desta vez o tema será Bolívia.

Ilustração de Isabel Salvado



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This