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Camomila ao vento #6

Uyuni, um deserto que outrora foi um mar.

A Bolívia é realmente um diamante por lapidar. Apesar do caos das principais cidades, da falta de organização em coisas tão simples como o visto turístico ou da poluição absurda que abunda até em áreas protegidas, este país central da América do Sul reserva alguns dos mais bonitos cenários de paisagem natural. Desta vez irei falar-vos do Salar de Uyuni, a maior planície salgada do mundo com 10 biliões de toneladas de sal, espessura de 120 metros e altitude de 3650 metros. Mais um dos recordes da Bolívia.

O tour ao Salar de Uyuni tem a duração de apenas três dias, mas a experiência é de tal forma intensa que merece um olhar mais atento e algumas palavras mais. Assim, e através de uma das muitas agências de turismo que vendem este pacote, iniciei a minha jornada pelas 11h00 da manhã com mais cinco aventureiros em direcção ao chamado Cemitério de Comboios. No passado, existiu nesta região uma linha ferroviária que atravessava o país em direcção ao Chile de forma a exportar minerais que desde sempre foram o principal recurso natural do país. Se no passado essa via teve uma importância incalculável, o mesmo não se pode dizer nos dias de hoje. Os comboios foram substituídos por outros meios de transporte mais económicos e portanto as dezenas de comboios trazidos de Inglaterra durante o século XX ficaram por ali mesmo, sofrendo a erosão do tempo e neste caso fazendo as delícias dos viajantes que neles puderam tirar fotografias bem originais.

Daí segui para um povoado chamado Colchani. Aqui não devem viver mais que 200 pessoas, no entanto as que cá passam os seus dias são de uma simpatia contagiante. O principal meio de subsistência deste povo é o processo milenar de refinação do sal. Basicamente, as toneladas de sal extraídas do salar que outrora foi um mar são colocadas num forno para que a água se evapore e posteriormente são misturadas com iodo para eliminar impurezas. Após estas operações o sal está pronto a ser embalado e consumido por um preço incrivelmente barato. 50 toneladas de sal custam qualquer coisa como 5€ o que na realidade da Bolívia é quase um salário mínimo, mas ainda assim barato atendendo à quantidade.

A viagem prosseguiu em direcção aos Ojos de Sal já em pleno Salar de Uyuni onde o branco se perde de vista num jogo de hexágonos e figuras geométricas desenhadas pelos ventos e por outras forças externas. Curiosamente onde abundam esses hexágonos existe água por baixo. É isso que significa os Ojos de Sal, pequenas poças que brotam do meio do nada e que nos mostram a beleza e o fascínio da natureza, fruto de uma intensa actividade vulcânica que continua a manifestar-se actualmente.

A próxima paragem seria a Isla del Pescado. Esta ilha é um habitat de cactos com centenas de anos (a cada 100 anos o cacto cresce um metro), mas também a morada de muitos lamas e pequenos coelhos. A ilha é fascinante acreditem, mas subir ao seu ponto mais alto e admirar toda a extensão do deserto é algo de cortar a respiração. Por outro lado, é também um mote à imaginação. De câmara em punho todos começaram a disparar em todas as direcções e há até quem tenha levado a máxima ao extremo e se tenha despido para uma sessão artística.

Digamos que num país tão religioso como a Bolívia isso não terá caído bem a alguns locais hehe. Mas o viajante ficou feliz e talvez com isso ganhe alguns pontos com as meninas.

O primeiro dia do tour terminou com uma visita ao local de onde são extraídos os blocos de sal necessários para a construção dos hotéis de sal e outros edifícios aqui erigidos e na qual pernoitei ambas as noites do tour. Nesta região para além do sal abundam minerais como zinco, lítio, magnésio e bórax (usado para a produção de detergentes e outros produtos de limpeza).

O segundo dia do tour começou com o horário a despertar mais cedo, 07h00 da manhã. Depois de um pequeno-almoço bem composto, ou devo dizer um desayuno americano, a primeira paragem foi o povoado de San Juan. Aqui não há praticamente nada, nem água sequer, mas abundam lamas e outros animais selvagens que não se deixaram intimidar pela presença de humanos e nos “presentearam” com uma sessão sexual ao estilo documentário narrado por Euládio Clímaco. É caso para cantar “You and me baby ain’t nothing but mammals so let’s do it like they do it on Discovery Channel” dos Bloodhound Gang.  Já agora sabiam que se deixarem 100 lamas livres numa área selvagem, após 3/4 anos eles se multiplicaram para 400? Haja actividade!

Bom, muitos quilómetros à frente parei junto de alguns vulcões inactivos para observar as formações rochosas criadas a partir da lava quente expelida em tempos por estes deuses da natureza. Na verdade, em todo o salar apenas um dos vulcões continua em actividade, mas o fumo que sai bem do topo da montanha mostra-nos o quanto estas terras continuam a fervilhar por dentro.

Seguiram-se as Lagunas Hedionda, Charcota, Honda e Ramaditas, onde proliferam os flamengos coloridos que se alimentam de pequenos seres existentes nestas águas. São engraçados estes animais, passam a vida a comer apoiados numa pata. Aqui há muitos minérios, mas felizmente os mesmos não podem ser extraídos porque se encontram localizados numa área protegida. É por essa razão que à parte o bilhete do tour temos que pagar mais 15 euros, que corresponde a 150 Bolívianos, para poder entrar nestes parques. Devo realçar que os flamengos escolhem a Bolívia durante este período do ano devido ao clima e abundância de alimento, mas quando inicia o Inverno refugiam-se em áreas mais quentes como a Argentina ou o Chile. Não se esqueçam que grande parte da Bolívia está na cordilheira dos Andes e por isso a grande altitude portanto o frio é realmente rigoroso.

Da parte da tarde, eentrei no Deserto de Siloil, um deserto onde existe uma mistura de sal, terra e areia. É aqui que fica a famosa Arbol de Piedra, uma formação rochosa que se assemelha a uma árvore mas que infelizmente não dá frutos :P Aliás aqui nada cresce, a região é tão árida que só os desgraçados dos coelhos e um animal tipo gazela sobrevivem por estas bandas alimentando-se de pequenos rebentos de erva que nascem aqui e ali. A viagem deste segundo dia terminou na Laguna Colorada, bem avermelhada pelos minerais que aqui existem.

O terceiro e mais cansativo dia do tour começou ainda de madrugada, pelas 04h30. O ponto de partida foram os geysers e o magma incandescente que confirmam que a actividade vulcânica está presente. O frio a esta hora da manhã é estupidamente exagerado e até o sol nascer e nos presentear com o seu poder foi bater o dente vertiginosamente. Este último dia teve como primeira paragem uma fonte de águas termais. Bem nem imaginam o que é estar completamente enregelado ao ponto de não sentir os dedos dos pés nem das mãos e de repente entrar numa piscina natural ao ar livre. Custa a parte do despir, mas quando se põe o corpo dentro de água é a melhor sensação do mundo. Os grupos estavam tão alegres que alguns malucos até celebraram com cerveja e vinho. Se tiverem em conta que ainda estávamos em jejum e que eram umas 5h00 da manhã talvez alguns concordem comigo em dizer que são loucos.

Daí seguiu-se o Deserto de Salvador Dali, assim baptizado por se assemelhar em muito a uma das pinturas do espanhol, bem como a famosa Laguna Verde que adquire uma tonalidade esverdeada devido aos minerais que contém. Terminamos com o Valle das Rocas, um local com formações rochosas igualmente estranhas e de muito poder criativo. Mais de 300km feitos voltei a Uyuni com uma das experiências mais únicas que tive desde que estou a viajar.

Ilustração de Isabel Salvado



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