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Canino

Uma cassete de vídeo nas trombas.

E se a bem da educação dos seus filhos, os encarcerasse longe da sociedade corruptora? Os mantivesse na eterna pureza e inocência, face à guerra, à desgraça, à miséria, à depravação moral, a todos os males? Os deixasse como crianças permanentes? É sobre esta premissa que se constrói “Canino”, filme de Yorgos Lanthimos, vencedor do prémio “Un Certain Regard em Cannes no ano passado e recebido com rasgados elogios em solo americano há bem pouco tempo.

Lanthimos parte desde logo para as suas conclusões, num crescendo de horror e asfixiamento; o realizador grego vai mais por Hobbes do que por Rousseau: à noção do “bom selvagem”, Lanthimos contrapõe a ferocidade do ser humano, um animal perigoso que necessita de ser domesticado pelas regras da civilidade e do bom convívio. E não pelas regras do “regime” instalado pelos pais em “Canino”, que assemelha-se à dos regimes fascistas, que doutrinam a população pelo absurdo e os forçam a uma infantilidade de pensamento.

Os vídeos de família – o único tipo de filmes que todos podem ver – fazem de propaganda; as festas de família, de exaltações ao regime; as “mentirinhas”, de enormes confabulações – as rescritas da história – que visam a criar inimigos externos, o mais da vezes imaginários. No meio de todo este sossego, irrompe a violência e a sexualidade (quase sempre ligadas), que o avolumar de mentiras, de jogos psicológicos, de repreensões, não dirige. Os filmes “estrangeiros” trazidos para dentro de casa por “agentes de fora” abrem brechas ainda maiores. A suprema rebeldia é emular a dança de Jennifer Beals em “Flashdance” numa festa de família. O mundo de fora – imperfeito, agreste, compulsivo, manipulador – já não pode ser contido.

A revolução, como sempre, faz-se pela violência, é recebida com violência. A liberdade implica a auto-flagelação. A violência é a única resposta. Há gatos estripados, facas ameaçadoras. “Canino” poderia ser descrito como um valente murro no estômago, não fosse antes como levar com uma cassete de vídeo nas trombas. E no fim, a fuga, a “revolução” pode enfiar-nos num lugar ainda mais confinado, ainda mais claustrofóbico.

Os filmes programáticos, que tentam forçar uma tese, uma ideia pela goela do espectador sempre me deixaram de pé atrás. A minha relutância com Michael Haneke, por exemplo, vem daí. Durante anos, recusei-me a ver os seus filmes, e só há pouco tempo o fiz: a sua estreia “O Sétimo Continente” de 1989. É um filme fortíssimo – a que ninguém conseguirá ficar indiferente (não é chavão, a mestria de Haneke reside no poder de provocar na audiência das suas obras sensações de desconforto e angústia) – mas que, se estudado mais de perto, revela um simplismo atroz, uma visão do mundo de um adolescente que verte o seu pessimismo num teclado de computador enquanto faz pequenos cortes nos braços com um lâmina de barbear.

“Canino” roça o filme de tese: é quase impossível não o entender como uma alegoria ao totalitarismo. “Canino” provoca reacções viscerais nos seus espectadores, choca, causa repulsa, levará a que muitos saiam da sala a meio, zangados. No entanto, Lanthimos, que afirma não ter sido sua intenção abordar a ditadura militar grega – que terminou era o realizador bebé – ou qualquer outra, injecta humor e gosto pelo absurdo onde há apenas sisudez em Haneke. Não desfaz todas as reservas, mas dilui-as. No mínimo, “Canino” é um filme bem orquestrado e inteligente, no limite, é um extraordinário exercício acerca do Homem e da sociedade.

A estreia está agendada para dia 22 de Julho.



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