Carlos Bica

O contrabaixo surpresa da Bor Land em análise na rua de baixo.

Em Outubro a Bor Land celebrou 5 anos de existência, durante os quais foi responsável por alguns dos discos nacionais mais interessantes dos últimos tempos. Se há cinco anos atrás era preciso ter muita coragem para editar um disco de rock alternativo e/ou de ambientes mais experimentais, também é preciso ter alguma dose de “loucura” para, agora, editar um disco totalmente dedicado a um instrumento como o contrabaixo. Ou talvez não.

A verdade é que a Bor Land apostou e na nossa opinião ganhou. As razões desse sucesso são bastante simples de explicar. Em primeiro lugar, encontrou um espaço vazio nas edições nacionais. Com as costas quentes devido a todo o seu trabalho efectuado, sabe que tem um público fiel e bastante curioso a todas as abordagens musicais. Last but not least, a Bor Land “encontrou” um verdadeiro génio da música mundial e um contrabaixista de excepção, ao qual deu toda a liberdade criativa.

Antes de entrar definitivamente em “Single”, faz sentido escrever algumas linhas sobre a enorme carreira do “senhor” Carlos Bica.

Carlos Bica é um dos poucos músicos portugueses que alcançou projecção internacional, tendo-se tornado uma referência no panorama do Jazz europeu. Entre os vários projectos musicais que lidera e, para além das participações em outras áreas como o teatro, cinema e dança, foi com o seu trio AZUL (com Frank Möbus e Jim Black), que o músico ganhou projecção mundial.

Embora a sua projecção mundial seja tremenda, em Portugal o músico é reconhecido apenas numa pequena esfera, muito limitada (visitem o site oficial do músico em www.carlosbica.com e tentem encontrar a versão portuguesa). Assim, não é de estranhar que este “Single” seja o seu álbum de estreia a solo.

“Single” é um disco de contrabaixo puro, isto é, todos os temas, com excepção do último, captam o som do instrumento sem qualquer tipo de truques de estúdio. Os seus acordes são como palavras que transmitem sentimentos, muitas vezes dúbios e confusos, mas sempre tremendamente bem interpretados.

As faixas de “Single” são uma verdadeira lição de música. As potencialidades do contrabaixo são levadas ao extremo e são descobertos sons que poucas vezes são associados ao instrumento. Durante todo o disco, os devaneios mais experimentais (“Al Legno” é um exemplo), são contrabalançados com faixas mais melódicas (“Martelato”) e os temas mais perturbantes e sombrios (“White Wall” por exemplo) têm uma face mais alegre e luminosa (“Dança para um folclore Imaginário”).

A música de Carlos Bica, através de um único instrumento, serve de banda sonora para os diversos momentos da nossa vida. “Single” é uma viagem por todos esses flashes (in)conscientes, que fazem parte da nossa vida.

Embora, numa primeira análise, “Single” possa parecer um disco estranho no catálogo de uma editora como a Bor Land, depois de o ouvir percebe-se que o disco tem aquele atributo que transformou a editora da invicta numa das mais interessantes nacionais: atitude.

Pode ser difícil de ouvir numa primeira passagem (principalmente para aqueles que não sabem o que vão encontrar), mas garanto-vos que “Single” é um daqueles discos que vale a pena fazer um esforço pois, depois de se entranhar, não existe forma de o evitar.

Para além do disco, a edição de “Single” conta ainda com um pequeno álbum de fotografias captadas no Brasil da autoria de Pedro Cláudio e que podem servir de “acompanhamento” ao som do contrabaixo de Carlos Bica.



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