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Carmen Souza @ Kulturhuset

Calor em Estocolmo. 24 de Março

Hoje em dia a vida está repleta de acasos e coincidências. O local onde nos encontramos pouco ou nada importa, por muito improvável que possa parecer, porque, acasos e coincidências, esses, arranjam sempre forma de entrar em cena. Senão vejamos. Carmen Souza foi um dos nomes que marcou presença na edição de 2009 do Festival Músicas do Mundo, em Sines. Infelizmente não tive oportunidade de a ver então. Segundo rezam as crónicas foi um óptimo concerto. Mesmo dos melhores do festival. Opinião quer da imprensa escrita, quer da pessoa que me recebeu em Estocolmo, que tinha marcado presença no concerto em Sines. Há umas semanas atrás, essa mesma pessoa tinha passado por um bar em Londres (o Green Note, se não me falha a memória) onde Carmen Souza tinha actuado. Quis o destino que Carmen Souza tocasse em Estocolmo durante a minha estadia por lá. Tinha que ir ver o concerto. E fui.

Antes de passar ao concerto propriamente dito, aqui ficam algumas notas biográficas, para quem não conhece ou nunca ouviu falar em Carmen Souza. Nasceu em Lisboa, a 20 de Maio de 1981, filha única de emigrantes de Cabo Verde. A sua carreira musical teve início com “Shout!”, em 1999. Aí conheceu aquele que considera o seu “mestre e mentor”, nas suas próprias palavras, o produtor Theo Pas’cal, que a acompanha em palco no baixo e contra-baixo. O primeiro trabalho a solo foi editado em 2006 e intitulava-se “Esse E Nha Cabo Verde”. 2008 trouxe “Verdade” e algum reconhecimento nacional e internacional. 2010 viu nascer “Protegid”, o principal pretexto para a digressão que passou dia 24 de Março pela Kulturhuset (Casa da Cultura) em Estocolmo, bem no centro da cidade.

Com dez minutos de atraso face à hora prevista, 19h, Carmen Souza entrou em palco com um sorriso estampado no rosto, que não a abandonou mais até ao final do concerto. A acompanhá-la estavam, de Portugal, Theo Pas’cal, baixo e contra-baixo como já foi referido; de Itália, Dado Pasqualini, percussionista e o anglo-nigeriano Jonathan Idiagbonya no piano. Uma formação que por si só faz juz àquilo que cada vez mais é a world music; um caldeirão de culturas do tamanho do mundo.

À sua espera tinham um auditório praticamente lotado, com uma média de idades já mais elevada, mas com uma óptima disposição de ouvir, descobrir, aprender e ser surpreendente, como o concerto veio a revelar.

Carmen Souza é detentora de uma grande voz. Capaz de um registo mais grave, para de seguida passar para outro mais suave e aveludado, com um calor sempre presente e altamente contagiante para qualquer pessoa que se encontre a assistir.

Exprimindo-se sempre em Inglês, porque o Sueco é bastante complicado de falar e pronunciar (algo que confirmo), Carmen Souza introduzia sempre o tema seguinte. Entre os temas apresentados houve sempre um factor em comum: Cabo Verde. Repartindo o alinhamento entre os álbuns mais recentes, “Verdade” e “Protegid”, Carmen Souza teve o mérito de ir conquistando gradualmente uma sala, quer através da sua música, quer através da sua simpatia genuína e sentido de humor. O momento alto do concerto chegou com a interpretação de «Afri-ka» do álbum “Verdade”, quando conseguiu pôr todo o auditório a acompanhá-la no refrão. Os suecos até se portaram bem a cantar em crioulo, acreditem!

“Protegid” evidencia de forma clara a paixão que Carmen Souza nutre pelo Jazz. Ao ouvir temas novos alternados com outro mais antigos, esta nova abordagem torna-se ainda mais evidente. Mas é na forma como consegue combinar o Jazz com a sua música que se encontra o seu segredo; o reflexo de uma abordagem cuidada e ponderada, fruto de um trabalho dedicado e que procura – e consegue – que o som não soe estranho esquisito. Soa bem, limpo, a novo, e ao mesmo tempo parece que sempre existiu. E quem ouve fica com um sorriso na cara. Até pode ser daqueles mais discretos mas ele aparece mais cedo ou mais tarde, acreditem.

Foi uma prestação exemplar aquela com que Carmen Souza brindou os presentes num dos auditórios da Kulturhuset, em Estocolmo. Exemplar pela forma decidida com que abordou o concerto. Exemplar pela maneira através da qual foi, gradualmente, tornando o público uma parte integrante do concerto. Exemplar pela sua magnífica voz. Exemplar pela qualidade dos músicos que a acompanham.

Fica a sugestão: se tiverem oportunidade de ver Carmen Souza ao vivo, não a desdenhem!



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