Cass McCombs Band @ São Jorge (03.11.2016)

Cass McCombs Band @ São Jorge (03.11.2016)

São quase 21h. A ameaça da chuva parece colocada de parte mas há concorrência de peso alguns metros mais abaixo, no Coliseu dos Recreios, onde Jamie Hince e Alison Mosshart incendeiam uma plateia sem apelo nem agravo. Mas ali isso pouco ou nada importa para quem está presente. A sala não está cheia mas ficará muito bem composta. No bar ali ao lado alguns dos presentes aproveitam para comer um pizza e o cheiro invade um pouco o interior da sala Manoel de Oliveira.

No palco há uma bateria, uns teclados, baixo, uma guitarra acompanhada pela tradicional parafernália de pedais e um violoncelo. Eis então que entram quatro elementos em palco (Cass McCombs incluído) para se ocuparem dos quatro primeiros instrumentos.

«Opposite House» é a primeira canção da noite. O cartão de visita do mais recente “Mangy Love” é recebido entre sorrisos; quem ali está sabe ao que vai. McCombs têm uma capacidade muito própria para escrever sobre o mundano e sobre assuntos fracturantes, e isso torna-o num mais interessantes criadores de canções da actualidade. Só faltou mesmo a presença de Angel Olsen nos coros que ficaram a cargo dos restantes elementos da banda. Uma coisa vos digo; três elementos da banda de Cass McCombs não fazem uma Angel Olsen.

«Bum Bum Bum» mantém-nos em “Mangy Love”, que é um álbum repleto de surpresas. Aqui a crítica política e a crítica social andam de mão dadas. São unha com carne. “Sent a letter to my congressman / The Ku Klux Klan / From my pierced hands / Bum bum bum / They sent me back an Apple phone / A fine-hair comb / And a bell tolled / Bum bum bum”.

Nesta altura penso que a guitarra de McCombs é daquelas que se conhece a milhas, tão característico é o som que sai dela. Também penso que merecia sala cheia.

«Morning Start» marca a primeira incursão por “Big Wheel and Others”, de 2013 e dá direito a um curto jam pelo meio, algo que será recorrente durante o concerto. É daquelas canções que nunca me deixa indiferente. Em primeiro lugar porque é uma grande canção e em segundo porque a letra é simplesmente deliciosa; uma provocação do princípio – “Leave your husband and come with me” –  ao fim – “All your secrets are safe woth me / Shitty songs, shitty art / Shitty poems, shitty hearts”.

«Medusa’a Outhouse» mergulha-nos numa melancolia que surge com uma roupagem um pouco mais ornamentada do que a versão do álbum e com o registo vocal de Cass McCombs a aproximar-se por vezes do falsete sem nunca o atingir verdadeiramente. Após a troca forçada de um amplificador é a vez de se escutar uma das mais bonitas canções de McCombs. «Brighter!» faz parte de “Big Wheel and Others” e é um magnífico dueto com a Karen Black, que já não se encontra entre nós. Naquele momento há duas certezas: o arrepio de prazer na minha espinha e a Karen Black, algures, a sorrir.

Por esta altura percebemos que o alinhamento vai ser transversal à (vasta!) obra de McCombs e que não se vai centrar no novo “Mangy Love”. Não seria mau se assim fosse mas assim ainda é melhor. Sorrimos e a claustrofobia, o escárnio e mal dizer de «Buried Alive» quase que tornam o ar da sala mais pesado. É a força de outra grande canção.

«Dreams-Come-True-Girl” continua a ser uma das melhores declarações de amor que conheço. É bonita e nunca se torna pirosa. Se estamos apaixonados é fácil relacionarmo-nos com as palavras que são cantadas. “I’ve been blessed / Your eyes are two moons / I hope this voyage / Will not be ending very soon”.

A improvisação continua a espreitar a cada canção. Há espaço para os músicos serem criativos e para “respirarem” mas nunca são cometidos excessos. Há toda uma ponderação inerente ao improviso. Conta, peso e medida.

Nesta altura entra um convidado para o saxofone para conferir a agressividade que caracteriza «Joe Murder». «The Burning of the Temple» é um elogio à morte mas é também McCombs a questionar-se sobre tudo o que a rodeia.

Volto a pensar que merecia sala cheia, porque devia haver mais pessoas ali para escutarem estas canções; não só com os ouvidos mas também com o coração.

«Big Wheel» é um manifesto sobre a vida e sobre a forma de estar de McCombs; “I live by my principles, I stick to my guns/ I wake up well before garbage or the sun / I die by my honor which I alone define”. Por esta altura o ditado popular “quem fala assim não é gago” passa pela cabeça. A idade, a maturidade e a experiência fazem maravilhas. Essa é que é essa.

«Run Sister Run» leva-nos de volta a “Mangy Love” e aborda a misoginia, tendo inclusivamente sido escrita para as mulheres que McCombs admira. A canção é ímpar. Sente-se que McCombs está a cantar sobre um assunto que o incomoda e revolta, de tal forma que nalgumas partes da canção aquilo que se escuta é mais um rant do que qualquer outra coisa: “My sister’s a Queen, she ain’t no concubine / Don’t call my sister no concubine, she is the Mother of Creation / Who are you? who are you to call her a concubine? / Don’t you know you got to forgive that you may be forgiven?”.

«County Line» foi a canção que fechou o alinhamento, antes do encore. É uma canção sobre fronteiras. Fala sobre ir mais além, sobre arriscar em busca da reciprocidade no amor, “all you have to do is cross that county line”. As cordas da guitarra debitam ansiedade. É que depois segue-se a desilusão. O amor declarado que não foi correspondido (e não é assim tantas vezes, com tanta gente?). “You never even tried to love me / Whoa whoa whoa whoa whoa / What did I have to do to make you want me? / Whoa whoa whoa whoa whoa / I feel so blind, I can’t make out the passing road signs”. Suspiramos.

O regresso ao palco trás um inesperado instrumental do genérico da série dos anos 80, “Hill Street Blues”, enquanto aguardamos pelo regresso do teclista. Há boa dispoção e de uma forma ou de outra, uma nostalgia sempre presente.

A última canção da noite é «Low Flyin’ Bird», numa demonstração perfeita da forma como as canções de “Mangy Love” são diferentes das dos outros álbuns, nem para melhor, nem para pior. Simplesmente diferentes. Onde os registos anteriores eram mais roqueiros ou mais crus, aqui existe mais delicadeza e sensibilidade. É um canção com uma grande amplitude, que nos faz sentir como um pássaro, planando, ao sabor do vento e com a liberdade de seguirmos a direcção que quisermos. Eis Cass McCombs.

Só mais uma coisa, e sem qualquer receio de me estar a tornar repetitivo; merecia sala cheia.



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