Cass McCombs + Katy J Pearson @ ZDB (9.11.2019)

Se a Karen Black está nalgum lado e ouviu o que ali se passou, sorriu de felicidade. Só pode.

Foi bom regressar a uma sala a que já não vinha há algum tempo, e por nenhuma razão em particular. Simplesmente não calhou. Fazê-lo para rever Cass McCombs ainda tornava a ocasião mais apetecível.

O serão arrancou ao som de Katy J Pearson. A inglesa, trouxe-nos as suas (ainda poucas) canções onde o folk se entrelaça com a pop e o rock e adocica facilmente o ouvido. A boa disposição é uma constante mesmo num palco onde não cabe mais nada e a simples troca de lugares se pode revelar uma operação complicada. E é com um baixo, uma guitarra e um teclado que já não era utilizado há algum tempo, em palco, que Katy J Pearson nos oferece um cover de «Poison Cup» do M. Ward. No final, registo ainda para o agradecimento ao Cass McCombs pela oportunidade de estar ali a mostrar as suas canções. A desmontagem do material da Katy J Pearson é rápida. Não é assim tanta coisa e para além disso, não faltam mãos para ajudar.

Os ponteiros do relógio apontam para as 22h55 quando McCombs e a sua banda tomam os seus lugares no palco, e se atiram a «I Followed the River South to What», a primeira canção do mais recente “Tip of the Sphere”. O tempo parece não passar por Cass McCombs. A simplicidade é a nota dominante. Isso e mas calças de ganga, uma t-shirt escura e uns ténis.

Segue-se «Bum Bum Bum» de “Mangy Love”. As canções nunca são curtas mas a verdade é que não parecem demasiado longas. Duram exactamente aquilo que têm de durar. No palco regressamos a “Tip of the Sphere”, desta vez ao som de «The Great Pixley Train Robbery», naquela que é talvez a canção mais suja do novo disco. Dito com a melhor das intenções. 

Há pessoas que não sabem dar maus concertos e Cass McCombs é uma delas. Continua-se por “Tip of the Sphere”, o principal foco nesta noite. «Confidence Man» é uma canção que nos leva pelos caminhos da spoken word. A atmosfera fica mais bluesy enquanto McCombs canta, “I’m a confident man”. E faz todo o sentido.

O teclado anda em círculos em «Big Wheel» de “Big Wheel and Others”. «Real Life» trás-nos de volta a, sim adivinharam, “Tip of the Sphere”, onde McCombs deambula em torno da inteligência artificial. 

Depois há arrepio de espinha ou não se comece a ouvir «County Line» de “Wit’s End”. Tudo é acessório nesta canção à excepção da voz de McCombs e da sua guitarra. São tudo nesta canção. “You never even tried to love me / What did I have to do to make you want me? / I feel so blind, I can’t make out the passing road signs / All that you would have me do is cross that County Line”. E mais uma vez a canção estende-se mas nós nem damos por isso.

«American Canyon Sutra» é o objecto mais estranho que encontramos em “Tip of the Sphere”. Com uma batida atípica e um gongo que se faz ouvir várias vezes ao longo da canção e que em palco não foi excepção. A juntar a isto, temos a voz de Cass McCombs, novamente num registo de spoken word, a dissertar sobre American Canyon, um subúrbio de classe média, no norte da Califórnia e de onde é natural.

A janela que dá para a Rua da Atalaia está tapada com um cortina, caso contrário poderiam assistir à jam session que ocorre sobre o palco do Aquário. «Opposite House» surge com outros arranjos mas continua certeira na forma como torna o mundano na coisa mais interessante à face da Terra.

«Tying up Loose Ends” é simplesmente a confirmação de que há grandes canções no nono álbum de estúdio de Cass McCombs. Para além disso parece adequado, apresentá-la como uma das últimas canções da noite. Há que atar eventuais pontas soltas. Antes da saída de palco que antecede o encore há tempo para enorme canção (mais uma!) que dá pelo nome de «Sleeping Volcanoes» é uma enorme canção (mais uma!). Uma canção que pode ser sobre qualquer um de nós. Sobre as pessoas com quem nos cruzamos na rua e que não conhecemos. Sobre poder explodir a qualquer momento.

O encore arranca numa toada introspectiva, “I’m a shoe / And so are you”, e o final é simplesmente perfeito com «Brighter». Se a Karen Black está nalgum lado e ouviu o que ali se passou, sorriu de felicidade. Só pode.



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