Chavela

“Chavela”, de Catherine Gund e Daresha Kyi

Com o coração nas mãos.

Fazer um documentário nunca é tarefa fácil, requer grande trabalho de pesquisa e uma boa compilação da informação obtida em forma de imagens coerentes e que consigam interessar o público. No caso de Chavela Vargas, poder-se-ia dizer que uma grande parte desse trabalho é grandemente auxiliado pela enormidade da sua figura, como se não houvesse vida real que pudesse albergar tamanho talento e fogosidade humanos.

Não desvalorizando o trabalho desenvolvido pelas realizadoras Catherine Gund e Daresha Kyi e respectiva equipa, escolher Chavela para protagonista de filme biográfico/documentário é um grande passo para despertar interesse no público e para ter material disponível que daria para fazer uma série documental. No fundo, apesar de tanta informação a vida de Chavela ainda hoje se encontra envolta em certos mistérios e rumores, que a própria fez questão de alimentar ou talvez de nunca ter propositadamente esclarecido para deixar o mito correr. O que é interessante neste documentário é o trabalho desenvolvido para estabelecer o contraditório, já que Chavela era uma mulher espectáculo e isso é mostrado amplamente neste filme, recorrendo a muitas filmagens da época. Muitas das suas declarações tinham como propósito, mesmo que inconsciente, de criar uma persona de palco, embebida, na maior parte do tempo, em álcool e solidão, apesar da imensidão de gente que sempre atraiu para a sua vida. Talvez fosse mesmo esse desejo de iludir a solidão que era a sua única e mais fiel companheira o verdadeiro motivo pelo qual tanto se rodeou de pessoas.

Em “Chavela”, não existem subtítulos, Chavela é Chavela e o recurso a imagens de época, com declarações e entrevistas (boa parte delas captadas pela própria Catherine Gund em 1991, em entrevista à cantora), serve o propósito de nos mostrar a mulher de verdade ou a mulher construída para ser mostrada ao mundo, não existindo neste aspecto intermediários. Existe a interpretação na construção da narrativa pretendida e o entrosamento com o material decorrente das entrevistas às figuras mais próximas de Chavela ao longo da sua vida. O facto de uma das realizadoras ter conhecido pessoalmente a artista parece ter tido o perverso efeito de afastamento emocional em termos cinematográficos mas pode dever-se ao facto de ser difícil ombrear com a paixão trágica de Chavela. Acontece que, apesar do leque bastante rico de entrevistas e informações adicionais e da enorme necessidade de afirmar a vida em todo o seu esplendor, trata-se de um objecto de cinema muito cerebral a que se acrescentaria muito provavelmente ser demasiado cerebral, demasiado construído – não querendo aqui sugerir-se o que o cinema, documental ou não, deva ser.

Sempre caminhando no gume da espada, cantava como se não houvesse outro dia amanhã e tudo fosse terminar com sangue, suor e lágrimas

Partindo sobretudo das imagens captadas em entrevista no início dos anos 90, o filme debruça-se depois em contrapor as declarações de Chavela com as informações, versões ou visões próprias que as pessoas mais próximas têm de episódios comuns. Acima de tudo, é notória a paixão que ainda hoje a maioria ainda nutre pela artista, apesar de perpassar timidamente que Chavela era impulsiva, agressiva e amante de pegar na sua arma e usá-la, mesmo em tempos de sobriedade. Esse aspecto não é aprofundado, assim como as diversas paixões, que se dizem ter sido mais que muitas, tendo em conta o carácter sedutor e absorvente de Chavela. Provavelmente, é tarefa hercúlea retratar de modo fiel uma personalidade que irrompeu pelo México e pelo mundo como poucas ou nenhumas mulheres tinham feito antes. Provavelmente, o objectivo do filme não é esse e ainda bem que não é porque em aparência abarcou de raspão um pouco de cada aspecto da vida de Chavela sem aprofundar nenhum deles – talvez fosse demasiado ambicioso ser de outra maneira.

Mais do que uma cantora, Chavela foi um marco de cultura e mudança numa época em que o status quo da música mexicana não permitia à mulher muito espaço de manobra. Ganhou para si individualidade e demarcou o seu espaço à custa de muitos sacrifícios, como a própria admite, acabando por personificar todos os ensejos de libertação e liberdade de expressão das mulheres da época, bem como tornar-se no ícone respeitado de uma comunidade ainda mais silenciosa dentro de um grupo igualmente silenciado ou branqueado. Apesar de só se ter assumido como lésbica aos 80 anos, era bem conhecida a apetência que Chavela tinha pelos romances com outras mulheres ao longo da sua vida, tanto no México como fora e com figuras bem destacadas do cinema e da música, já que se movimentava no melhor dos meios artísticos. Era um segredo que toda a gente sabia mas de que ninguém gostava ou queria falar e que relegou a cantora para actuações em espaços pequenos e dedicados a acolher as franjas da sociedade mexicana. Com o tempo, nem esses espaços a acolhiam mais e tanto a sua carreira como a vida pareciam ter acabado, como muitos pensavam. Quando Almodóvar a ressuscitou para uma nova carreira, toda a gente se questionou se aquela Chavela era a mesma que há décadas havia revolucionado sociedade e música, constatou-se que sim e até ao final foram muitas as homenagens que lhe foram rendidas.

Em “Chavela”, aparecem diversas facetas da cantora consoante o olhar de quem com ela privou e todas elas são a verdade que se quiser admitir e aceitar. Trágica, fascinante, assustadora, às vezes frágil e carente, lidando com o abandono da família até ao fim da sua vida, Chavela foi um ser humano que viveu como quis em alturas em que tomar essa posição era meio caminho andado para a marginalização, o que aconteceu na realidade. Sempre caminhando no gume da espada, cantava como se não houvesse outro dia amanhã e tudo fosse terminar com sangue, suor e lágrimas. Chavela canta muito ao longo do documentário, claro, mas sobre a sua música as palavras falham em conseguir descrever os sentimentos por ela gerados. Chavela, para o bem e para o mal do filme, não cabe dentro de documentários nem dentro dos limites da própria vida tal como a conhecemos, na fronteira entre a vida e a morte, chorando alegria e cantando misérias de amor, arrancando do peito o coração e dando-o aos poucos de comer às rapinas. “Chavela” torna-se um documento mecânico quando comparado com a Chavela persona, muito mais se comparado com a incrível e infinitamente complexa diversidade da sua personalidade mas é muito bom se se admitir essa limitação, servindo de homenagem a alguém que não pode nem vai nunca morrer.



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