Chelsea Light Moving | “Chelsea Light Moving”

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As premissas de outrora

Pais do indie e do movimento alternativo que nas últimas três décadas tem vindo a crescer exponencialmente, os Sonic Youth encontram-se, na hierarquia do culto musical, numa posição privilegiadíssima, protagonizando um mítico e constante auge desde a sua formação em 1981.

Tendo como estilo básico o noise-rock e um rock experimental que protagonizou a cena no wave, a banda norte-americana fundiu os seus elementos, tanto orgânicos como ásperos e agressivos, culminando num caldo variável entre a chuva estática cáustica de momentos orquestrados pelo barulho e a sensibilidade cálida duma nostálgica tarde de Verão.

Thurston Moore assumiu-se, a par com Kim Gordon, o mestre da banda, o ponto fulcral da loucura propositada de todo o estrondo inerente à sonoridade Sonic Youth (SY): esta hostilidade atmosférica manteve-se constante em toda a actividade da banda. Quer em momentos mais irreverentes, como em “Goo”, quer em momentos mais impressionáveis, em “Sister”, praticava-se um conturbado – ainda que lógico – timbre, arranhando cordas inocentes, instituindo uma rawness incomum.

Moore aparenta, agora, sofrer duma nostalgia quanto a esta época: com Chelsea Light Moving, banda que encabeça, o músico instrumenta um álbum de estreia, homónimo, que facilmente se confundiria com um trabalho original de Sonic Youth. De facto, existe uma continuação pecadora em efemeridade da típica estruturação musical dos pais do indie: desde as composições que logram de momentos noise à envolvência sofregamente low-burn, à rugosidade das cordas entrelaçadas com a percussão energicamente militar, à pontual monocórdica voz do frontman, SY transpira por todo este trabalho.

À semelhança da aura de “Daydream Nation”, atinge-se um álbum eficaz, baseado numa premissa constante: a integridade coerente é comum a todas as faixas do álbum. Existe uma arrogância geral que se mantém fora do hiperbólico; obtém-se, assim, um balanço inteligente que fortifica a sonoridade do record. Provoca-se uma dicotomia entre a energia transbordante e o timing correcto para que o resultado se revele resistente.

Isto permite a existência do contraste entre a característica beat-poetry de Thurston – na inquieta e desconcertante fluência musical de «Mohawk» – e, por exemplo, a desrespeitosamente incendiária «Burroughs» (ou «Frank O’Hara Hit»). Por consequência, toda esta orquestra cuidadosa na implicação – ou não – dos elementos suscita a atenção no ouvinte: de facto, durante os quase 50 minutos do trabalho, apura-se o ouvido inconscientemente; é apelativo e viciante.

Não obstante possuir uma consistência rara, nascem alienados momentos substanciais, crescendos íngremes protagonizados na dureza inerente à melodia de «Groovy & Linda», nesses segundos que, posteriores a uma das mais suaves harmonias do álbum, explodem numa iridescência digna de Stooges. “Don’t shoot \ We are your children” eleva o metafórico valor da lírica de Moore, em contraste com a velocidade melódica, com a destituição de subtileza.

Denota-se, no entanto, nesses momentos mais fulgurais, uma falta de desenvolvimento e de criatividade que culmina, por exemplo, numa repetitiva «Sleeping Where I Fall»; a monotonia não se impõe, mas flutua a sensação de que poderia (e deveria) brotar algo mais da monocromática imposição que advém desses dois ou três acordes, eternos nos segundos de que são donos.

Trata-se, portanto, da bem sucedida procura da fórmula que elevou o estatuto de Sonic Youth, aplicada em 2013. As premissas são actuais, o resultado vibra incessantemente. Um álbum para ouvir e apreciar novamente.



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