Chelsea Wolfe | “Pain is Beauty”

Chelsea Wolfe | “Pain is Beauty”

Contraditoriamente entusiasmante, imerso na natureza morta da sua criação

Acções extraordinárias extraordinariamente, constantemente, recordadas serão pela essência do sujeito e por quem a compreende. De facto, Chelsea Wolfe marcou o ponto de retorno, sem retorno, da sua carreira musical, aquando da colaboração in loco com os Swans; protagonizou-se, enfim, nesse oblongo concerto, a metamorfose – finalmente completa – da vocalista e compositora oriunda de Los Angeles.

O assumido folk gótico sofreu imediatamente a consequência que, inerte, se demonstraria ao público até “Pain is Beauty”; “Apokalypsis”, 2º álbum de originais de Wolfe, identificava tropegamente a atmosfera simbólica da autora, por entre demonstrações de exageradas assombrações, agressivas auras halloweenescas que na penumbra coexistiam; “Unknown Rooms” prossegue na jornada pelo estudo da real envolvência fragmentada de Chelsea, por meio de “músicas que órfãs foram até lhes ser oferecida uma casa”, nas suas palavras. A evolução denota-se, finalmente, no último trabalho. Esta consequência, esta severa influência de Swans, dissertou e persuadiu o status e musicalidade da norte-americana: seria, enfim, descendente, não do legado, mas do género da histórica banda post-punk.

Esta direcção é, desde o início, assumida categoricamente: «Feral Love» enlouquece, num crescendo elíptico, num surrealismo de tons breus, no aprisionamento percussivo; a influência de Swans é intrínseca às características objectivas da sonoridade de Chelsea que, no entanto, se demarca pela inclusão da subtileza feminina, de vocais sensíveis, conjugados com a austeridade envolvente, que atinge o auge na empática tensão, na incessantemente desesperada «We Hit a Wall».

Encontra-se, então, Wolfe perante Hyeronymus Bosch: o confronto entre a emoção e a obscuridade. Desenham-se texturas mortas que, ecoando, efemerizam os crescendos delinquentes de desespero, da monotonia; a fantasia lynchiana, a metálica natureza morta é acompanhada pela composição lírica que, embora imperceptível, se revela directa e mordaz. Entoa Chelsea “Pulled out my tongue so I can’t speak the truth”, em «The Warden», nessa dualidade melancólico-austera, mestria da autora, que complementa a disposição natural da sua música, demarcado pelo equilíbrio cuidado entre o descomedimento gótico e as vicissitudes do folk.

«Destruction Makes the World Burn Brighter» revela-se, entre fúnebres, ainda que convidativas, melodias, o ponto de abrigo paradoxal: transparece-se uma nova vertente dançável, pop, que mantém o conceito embrenhado do restante trabalho; demonstra-se uma Wolfe suspirando alegremente, para em «Sick», agridoce de condição, Zola Jesus vocalizada, regressar ao nirvana lúgubre.

Existe, até esta última faixa, uma perspicácia, uma humilde diferenciação que desapercebida permanece e cuja carência se mostra obnóxia; é um esmorecimento gradual, uma privação do inteligente confronto que transmutava graves em agudos. Trata-se da imprevisibilidade que, ao fim de 6 / 7 faixas, se confunde por entre as derivações anteriormente confrontadas; «Ancestors, the Ancients» existe num potencial incumprido, numa convicta performance vocal cuja composição musical não coopera, que entre «The Waves Have Come» e «Lone» se verifica, contrariamente, frugalmente intensa, na atormentada jornada aterrorizante que protagonizam.

Marca-se, no entanto, a realidade ideal, a identidade real, longe dos exageros de prévios trabalhos, da artista cuja presença cultural é mutável a cada trabalho, cuja persona está, no entanto, declaradamente definida pelo post-punk das influências, pelo folk gótico do seu íntimo; trata-se dum subtil récord contraditoriamente entusiasmante, imerso na natureza morta de todo esse logro que se imagina que Chelsea Wolfe retira da sua criação. Para ouvir várias vezes, de facto.



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