Chico Buarque @ Coliseus

Um pedaço de história da MPB em Portugal.

Chico Buarque não requer apresentação, muito menos por quem, sobre o seu trabalho, acumula um conhecimento não mais que modesto e fresco. Estranho eu mesmo como era possível que, há cinco anos atrá,s o nome de Chico Burque permanecesse num desvalorizado canto na gaveta mental dos “velhos cantores brasileiros (a mim desconhecidos)”, sobretudo quando António Carlos Jobim (por características que tentarei explicar) ocupava já um lugar de destaque entre os “geniais compositores (brasileiros)”.

Enfim, a sua música parecia geneticamente estudada para encaixar com o DNA do gosto musical, no qual a música brasileira já de si ocupava um grande espaço. E, ainda assim, era possível não conhecer a música de um artista cujo nome corria há décadas os quatro cantos do mundo (como continuar à procura do Tejo em plena praça do comércio…). No entanto, o lado positivo destas descobertas tardias é precisamente o de sabê-las possíveis.

Com a recente saída de “Carioca” (o seu 18º disco), surge naturalmente uma nova vaga de informação em torno do músico. Descobri que, para além de cantor e compositor, o multifacetado artista é também escritor; escreveu as canções da peça “Cambaio” (2001) e editou um livro, “Budapeste” (2003).

Mas voltamos a 2006 e atravessamos um período de Chico músico. É que, como ele próprio diz, nunca mistura estas suas duas facetas. “Quando escreve não ouve e quando compõe não lê”, uma autêntica dupla personalidade artística.

Não deve ser puro acaso que a música de Chico Buarque colhe a preferência de tantas pessoas no mundo. E provavelmente está em duas características que noto ser das principais da sua arte. É que consegue reunir tantas características diferentes de vários géneros musicais de raiz brasileira, trabalhando em cada uma delas com o mesma intensa genialidade. A outra é que, com essa “feijoada completa” de ingredientes, nos conta da cultura brasileira (pelo menos como a concebe este seu apreciador). Sambas orquestrais de salão de baile que nos contam de sentimentos de amores “rompidos” (Apesar de você), ou rudes carnavalescos de estrada com as escolas de samba em pleno Fevereiro Carioca a cantar história(s) desse país com o nome de “um tipo de madeira”.

Nas mãos de CB o impulso de um batalhão de percussões assume proporções épicas quando acompanhadas pelos seus arranjos melódicos de um coro (Chico + coro feminino; exclusively!), com a melodia que sobe de tom num ciclo infinito («Vai passar»). Canções românticas deliciosamente arranjadas com orquestra de cordas e sopros e duetos líricos, como num final de acto de uma ópera erudita («Sem fantasia» com Maria Bethânia). Entretém-se e passa para uma canção “poetizada” sobre a beleza “daquela moça” («Dura na queda»). Escolhe um arranjo jazzistico sobre base bossa nova e diverte-se com o contraponto nos metais. Canta monólogos telefónicos “para mandar novidades para o amor no Brasil” em forma de soul jazz transformado quase em chill out bar song. Critica a ditadura militar de 70’s, cantando os seus dramas sociais com ritmos bossa e arranjos orquestrais épicos.

Chico Buarque aprecia todo o tipo de música e recolhe um pouco de tudo o que ouve para mais tarde semear um pouco por toda a sua música. Mistura-las com uma enorme capacidade criativa na composição de cada parte e elemento das suas músicas (como para mim, por muito tempo, só era possível em Tom Jobim…). Consegue jogar com a inteligência e a sensibilidade musical com as quais exercita a composição de cada voz, de cada instrumento, de cada escolha rítmica. Oferece aos nosso ouvidos “dois minutos de maravilhas sonoras” em arranjos como «Imagina» – canção composta no passado com Jobim. Mas, naturalmente, é como escavar sabores numa tarte de infinitas camadas de ingredientes. Quarenta anos de música de Chico Buarque significa provavelmente um concerto de história da música brasileira consagrada, com temas cujo os nomes seria sempre redundante continuar a enumerar.



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