chifre_header

Chifre @ Musicbox

Agora sem vergonha.

É seguro referir que é único e incrível aquilo que está acontecer à música portuguesa e, acima de tudo, à música portuguesa cantada em português, nestes tempos que são os de hoje. Depois do abanão protagonizado pela FlorCaveira de B Fachada, João Coração, Tiago Guillul e Samuel Úria, parece que perdemos definitivamente a vergonha. E toda a gente quer fazer um bocadinho para participar e celebrar isto que é a música portuguesa cantada em português. Para todos os efeitos haverá sempre um antes e um depois da FlorCaveira – e isso, por mais que se odeie B Fachada ou outro qualquer cantautor da editora da capital, é inegável.

Todo um primeiro parágrafo para introduzir a Chifre que, aponte-se para mais tarde recordar, apresentou-se pela primeira vez, enquanto editora, no dia 22 de Julho, no Musicbox, com os artistas que preenchem, para já, o seu catálogo: Diego Armés, David Pires, Capitão Fausto e A Armada – tocaram nesta ordem, uma “noite em crescendo” como referiu, a certa altura um dos elementos dos Capitão Fausto. Em crescendo, sim, mas não nos referimos à qualidade, e sim a um progressivo endurecimento do som.

Primeiro Diego Armés, ele que é vocalista dos Feromona, mas que aqui se apresenta a solo, apenas na companhia de uma guitarra eléctrica. “Estou um pouco nervoso. Costumo tocar com outras pessoas e a maior parte de vocês não me está a ligar nenhuma”, desabafa com razão. Mas lá em baixo, no meio do público, estão alguns atentos, afectos à recém-nascida Chifre que não deixam Diego cair. De aspecto frágil e de baixa estatura, Diego chega a lembrar Cão da Morte, ou seja, Luís Gravito, na forma pouco fluente e estruturada como lidam com o público. Não é necessariamente mau – confere-lhes alguma piada. A música de Diego Armés faz lembrar os Feromona, mas sem secção rítmica – talvez porque associamos tão facilmente a voz do músico à sua banda.

Já David Pires faz-se acompanhar de uma banda – um guitarrista, um teclista (o dos Capitão Fausto), um baixista e um baterista. Ele, David Pires, baterista d’Os Pontos Negros e da Armada ocupa-se da guitarra acústica. Sentimos algumas harmonias em ascensão que aspiram aos céus e que nos lembram os Fleet Foxes. É folk ambiciosa e atenta ao pormenor, é rock celeste, mas não agreste. David Pires mostrou qualquer coisa, mas não mostrou tudo o que a sua conta no Myspace mostra que pode fazer. Ouvimo-lo na Internet e sentimo-nos inspirados, ouvimo-lo no Musicbox, na Festa de Apresentação da Chifre, e não nos sentimos mais que confortáveis. O melhor ainda está para vir, portanto.

Os Capitão Fausto cometeram a proeza de, finalmente, chamar a atenção de um público que parecia mais interessado em teorizar a história do que em fazê-la. Os Capitão Fausto são aquilo que os Iconoclasts queriam ser. São miúdos entusiasmados por estar em cima de um palco, mas que não querem imitar uma infinidade de outras bandas que estão na berra – ou, pelo menos, não são tão descarados. Os Capitão Fausto não se afastam dessa infinidade de outras bandas de origem anglo-saxónica que estão na berra, destacam-se porque são bons. Não são absurdamente bons, mas são bons. Há “na na na na na’s”, há “la la la la la’s”, há toda uma aura juvenil/infantil que envolve a banda e nos entusiasma sem que haja uma razão aparente senão a vontade de celebrar qualquer coisa, o momento.

A fechar a noite, uma Armada que conta com Pedro da Rosa (Os Golpes) e David Pires (ele, outra vez) como elementos mais mediáticos. “Nós somos A Armada e fazemos rock n’ roll”, anuncia Pedro da Rosa. O que se segue são riffs que podiam ter saído da guitarra de Angus Young, canções que vão dos Stones aos Clash passando pelo punk nacional e algumas expressões que denunciam esta geração que viveu a década de 90, a do grunge e do nu-metal (riscar este último). A banda refere-se ao público da frente, o do mosh, como sendo a “malta do hardcore”. A certa altura, Pedro da Rosa lança-se num salto suicida para o público num incrível stage diving – a calma que transparece n’Os Golpes ficou, definitivamente, lá fora.

A festa haveria de acabar com alguns elementos do Capitão Fausto em cima do palco, uma foto de família com o símbolo da Chifre, o \m/.

A ideia de estarmos perante uma editora que parte das sobras de outras duas desvanece-se rapidamente. Para já, a Chifre parece ser o elo mais fraco (ou menos forte) de uma trindade composta pela própria, pela FlorCaveira e pela Amor Fúria. Há uma imagem de família que já associávamos às outras duas e privilegia-se também a música cantada em português. Não sabemos o que nos dará o futuro, mas uma coisa já perdemos: a vergonha.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This