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CHOPIN ao ar (Deus nos) livre

Dang Thai Son em recital Chopin, dia 22 de Julho de 2011, em Coimbra.

Era uma vez o Anfiteatro Colina de Camões, um sonito depois. Morcegos, desta vez na versão opus não sei quantos, de Chopin, edição Paderewsky. “Ontem, o Dreyer foi muita bom!” Qual orquestra, o público está ainda em fase de afinação. Fotografias ao rei da selva: o Steinway conserva-se imperturbável, no centro do palco. As colunas cospem música, pigarreando para dar início ao concerto. O público ameaça finalmente afinar, pondo-se em sentido, sentado. Soa um gong. Ao ladíssimo, o telemóvel da praxe, lastimando-se: “Neste momento, não é muito oportuno…”, “ Quem era?”, “Publicidade!” Melómanos de risco, aos magotes: a pontualidade britânica do luso. Sempre “Chic a valer!” Ressoa o aviso de que o pianista encadeará seis valsas, após a Barcarole, pelo que pede a fineza de não ser interrompido por palmas, nem mesmo de Cannes.

Era uma outra vez um famoso concurso de piano. Certo dia, o concurso acordou sádico: resolveu lançar a carreira de um concorrente que eliminara, Ivo Pogorelich, eclipsando comparativamente a do seu vencedor. Corria o ano da graça de 1980. Dang Thai Son, 1.º prémio do X Concurso Chopin, veria a cenoura, “artista exclusivo Deutsche Grammophone”, ir parar às mãos de Ivo Pogorelich em 1982, com os cumprimentos de Martha Argerich, membro do júri, que se demitira dois anos antes após eliminação do “seu” genial Pogorelich.

O que dizer do vietnamita premiado? Cantabile superlativo, uma mazurca de levar para a ilha deserta, se esta não se importar, e um pianismo de contenção, não cedendo ao virtuosismo gratuito, de show off. É evidente a intimidade de Dang Thai Son com o universo chopiniano: culto da sonoridade burilada, privilegiando as dinâmicas “suaves”,  griffe de Chopin enquanto pianista. Citem-se, a propósito, as impressões de artistas que ouviram o compositor polaco interpretar as suas próprias obras. Segundo Moscheles, “os seus pianissimos não precisavam de mais do que um mero sopro”; já Berlioz, sobre a sua interpretação das mazurcas, frisava a execução, “tocando-as com o máximo de suavidade, piano ao ponto extremo”. Ouçamos o recital de Dang Thai Son.

Malinconia, Ninfa gentile,
la vita mia consacro a te.

Se quiséssemos resumir o espectáculo “Piano, Chopin, minhas paixões”, utilizaríamos estes dois versos da famosa ária de Bellini, compositor muito apreciado pelo artista polaco. A “Valsa op. 34 n.º 2” pareceu-nos ser a vítima mortal desta melancolia extrema: worst of de todo o programa, a interpretação pautou-se pela monotonia, sem contrastes eficazes, de dinâmica ou de agógica, entre os diversos episódios da peça. Pareceu demorar a eternidade, e mais um dia. Quem conheça a interpretação de Lipatti, talvez nos permita  a observação.

Íamos a meio da viagem nas valsas, quando o público pensou: “Onde é que ele pensa que vai, todo lampeiro, escalinha acima? Espera lá que já te fazemos a folha: queres quadriculado ou com linhas?” E toca de bater palmas, na jam session, contrariando os planos do pianista, que desejaria encadear seis valsas sem interrupção. Este público não resiste a meias dúzias.

Constatámos, igualmente, um jeu perlé — cintilância nas ornamentações, figurações rápidas, maioritariamente executadas em dinâmicas delicadas — por vezes aquém do seu melhor. Neste ponto, refira-se a falta de leveza em parte da ornamentação da Polonaise brillante, aspereza onde se esperava o tal jeu perlé. A impressão de “facilidade” deu lugar à constatação de esforço, traduzindo-se em fealdade sonora. Servir-nos-ia ainda esta peça para registar algumas passagens com notas erradas, tanto em oitavas como em outras figurações de notas dobradas. Regra geral, observámos alguma reserva em manifestar o carácter brilhante desta Polonaise.

Eis senão quando, a coluna da esquerda claudica: sempre Chopin, agora também em mono. Mas as proezas da amplificação já se ouviam desde a Barcarole, peça que iniciara o recital, algo modesta: mal soou o dó sustenido oitavado, concluímos que o Steinway não passava de um piano digital à paisana. A amplificação de serviço empobreceu, consideravelmente, a “orquestra” Steinway & Sons. Quiçá a colocação de painéis reflectores no palco, atrás do piano, pudesse devolver às colunas parte do Fundo Musical Internacional que caracteriza esta marca de pianos — e nós que tanto precisamos dele!

No Scherzo nº 2, sentimos falta do espírito débridé em momentos que confeririam maior contraste com o sostenuto central; na Polonaise op. 53, dita “Heróica”, pouca variação dinâmica na secção das oitavas em Mi M e, no seu todo, falta de cor, ou diversidade de toucher, no discurso pianístico, em função da tonalidade.

Para enterrar con fuoco as colunas que sustinham o templo do recital, a da esquerda volta a apagar-se — num timing de arrepiar, pisca o olho à Polonaise “Heróica”, peça que encerrou o programa. Talvez a certificação “coluna à prova de Polonaises” seja um bom critério para próximos concertos.

Gema deste recital, a “Mazurca op. 17 nº 4” revelou um pianista apaixonante e apaixonado: “dramaturgia” encenada ao detalhe, com uma paleta de sonoridades verdadeiramente admirável. A impressão causada foi de tal ordem que o público emudeceu antes da Polonaise op. 53, peça que sucedeu à mazurca. A ausência de sinal de luz entre as duas peças poderá explicar, em parte, a reacção do público.

Dang Thai Son e o Anfiteatro Colina de Camões: um prémio Chopin em piano digital… Extensão do programa Novas Oportunidades? Ficou-nos um chill out Chopin, e a cândida tentativa de tirar o compositor do “quarto de doentes”. Sadia paixão!

“Acabou?” (Queixa por não haver encores.)
“E o reflexo na água? Viste?” (E a fonte, ou lá o que é, continua a fazer barulho ao pé.)

Fotografia de Patricia de Almeida



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