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Cícero @ Estúdio Time Out (2.3.2016)

Ensaio sobre a praia

Pela primeira vez, Cícero Rosa Lins conseguiu visitar Portugal contando com toda a banda que normalmente o acompanha, ao invés das ocasiões anteriores em que basicamente teve que recrutar alguns músicos portugueses.

O foco deste concerto no Estúdio Time Out em Lisboa apontou logicamente para “A Praia”, o disco editado por Cícero no ano transacto, que, à imagem dos dois trabalhos anteriores, está disponível para download gratuito no site oficial.

O conteúdo de “A Praia” foi apresentado praticamente na íntegra nesta sala no Mercado da Ribeira. É um trabalho mais ligeiro que os antecessores, onde Cícero introduz uma electrónica extremamente simples, normalmente característica de quem está a iniciar-se nesta corrente.

Estes tiques electrónicos parecem demonstrar igualmente que Cícero terá ouvido bastante Radiohead ao longo da feitura do último disco, sendo a percussão de «Isabel (Carta de Um Pai Aflito)» um exemplo evidente, entre alguns outros.

De resto, a origem indie de Cícero nunca abandona a sua sonoridade, seja pelos trejeitos conscientemente desorganizados entre as guitarras, seja pela poeira sónica contida por detrás da sua voz em diversas ocasiões.

Esta facção possivelmente mais obtusa das suas composições é depois contraposta pelo açúcar (ou será adoçante?) saído das suas melódicas palavras e das baquetas formadas numa qualquer escola de dança brasileira mais tímida, que têm o condão de torná-las mais populares.

A qualidade do som foi notoriamente deficiente ao longo das primeiras duas canções do concerto, tendo a restante actuação contrariado esta tendência, que terá causado momentaneamente alguns calafrios aos ouvidos mais atentos.

Quando a poeira assentou, os temas começaram a fluir de forma extremamente aprazível, sendo de assinalar que as composições mais recentes tornam-se mais atraentes ao vivo, conseguindo simultaneamente preservar a simplicidade que transparecem no álbum.

Bruno Schulz, Uirá Bueno, Gabriel Ventura e Cairê Rego provaram a empatia que existe entre o frontman e o resto da banda, visivelmente satisfeitos por terem finalmente embarcado juntos até ao nosso País.

Foi a terceira aparição de Cícero em Lisboa, após uma performance no Mexefest 2013, onde repartiu os holofotes com Momo e Wado, e outro concerto em nome próprio no Musicbox. E a plateia continua a crescer. Alguns refrões já são acompanhados em uníssono pela plateia.

As suas canções de apartamento terão provavelmente que ser trasladadas para uma vivenda em breve, para conseguir abarcar a quantidade de seguidores.

Alinhamento:
– «O Bobo»
– «Tempo de Pipa»
– «A Praia»
– «De Passagem»
– «Vagalumes Cegos»
– «Ela e a Lata»
– «Camomila»
– «Albatroz»
– «Isabel (Carta de Um Pai Aflito) (coros, batida radiohead)»
– «Laia Laia»
– «Ponto Cego»
– «Soneto de Santa Cruz»
– «Duas Quadras»
– «Capim-Limão»
– «Porta, Retrato»
– «Terminal Alvorada»
(encore)
– «Açúcar Ou Adoçante»
– «Pelo Interfone»

Fotografia por José Eduardo Real



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