Cinecittà

O brilho do cinema e da cultura pop em Lisboa.

Os estúdios Cineccità foram construídos nos arredores de Roma, em 1937, com o objectivo de serem o espelho do regime fascista italiano. Contudo, Mussolini caiu; mas o brilho da Cinecittà nunca se apagou, tornando-se na jóia da coroa do cinema italiano e, posteriormente, do cinema europeu.

Começou por relevar realizadores como Rosselini, imortalizou depois Fellini e, mais tarde, foi adoptada por realizadores norte-americanos, que transformaram o estúdio italiano na Hollywood europeia.

Agora, a Cinecittà empresta o nome e o glamour à loja lisboeta situada na Avenida Sacadura Cabral, autêntica vitrine do espólio da sétima arte e de cultura pop. A Cinecittà assume-se como uma alternativa aos locais de consumo cinéfilo habituais, limitados normalmente pelo espartilho das políticas promocionais das grandes distribuidoras;  um verdadeiro oásis no comércio cinematográfico nacional.

A Rua de Baixo foi ao encontro de Vasco Menezes, o responsável por este antro de perdição para coleccionadores e aficionados pela Sétima Arte.

RDB: O que é afinal a Cinecittà? O que podemos encontrar aqui?

Vasco Menezes: A Cinecittà pretende, no fundo, celebrar a força iconográfica da Sétima Arte. Para além de uma selecção de DVD’s de cinema de autor, trash, underground e de série B, sem quaisquer pruridos de género, proveniência geográfica ou temporal, há também outros produtos, mais lúdicos, como posters, t-shirts, fotos, postais ou mousepads.

RDB: Pode então ser vista como uma alternativa ao mercado comum do cinema?

VM: O objectivo é precisamente esse, disponibilizar o que não se encontra – pelo menos, facilmente – no mercado português, tanto a nível de filmes como de outros artigos directamente relacionados com o cinema.

RDB: A Cinecittà está aberta há sensivelmente quatro meses. Quais têm sido os produtos mais procurados e requisitados?

VM: De início, sem dúvida, os posters, os postais e também as t-shirts. De há um par de meses para cá, à medida que mais pessoas foram sabendo da existência da loja e o tipo de público se foi diversificando, os DVD’s têm tido cada vez mais saída.

RDB: É possível fazer as nossas próprias encomendas, se o artigo que desejarmos não se encontrar disponível no mercado nacional?

VM: Sim, temos trabalhado muito a partir de encomendas. Pesquisamos o título em causa e, se estiver disponível e o preço agradar ao cliente, mandamos vir.

RDB: A Cinecittà tem disponível um serviço chamado Compra e Venda. Queres falar nisso? Qual é a diferença para com os videoclubes convencionais?

VM: Basicamente, o que está em causa é possibilitar que se leve um filme sem se ter de forçosamente ficar com ele: a pessoa leva o DVD e, no prazo máximo de três noites, pode devolvê-lo para nós o comprarmos de volta, sendo que o valor que se acaba por gastar é sempre o mesmo, cinco euros. No fundo, é uma compra e venda que acaba por funcionar como uma espécie de “aluguer alternativo”.

RDB: Se tivesses que publicitar a Cinecittà através de alguns produtos, o que referias como exclusivo ou grande referência da loja?

VM: Dentro dos DVD’s, talvez a colecção da Criterion (filmes do Samuel Fuller, Roberto Rossellini ou Douglas Sirk), a caixa com a trilogia Dead or Alive do Takashi Miike, um conjunto de clássicos mudos do expressionismo alemão, ou edições de luxo italianos de objectos mais underground, como filmes do Andy Warhol ou escritos pelo William Burroughs. Depois, poder-se-ão também destacar uma série de posters ou t-shirts alusivos a títulos icónicos como Amarcord, Táxi Driver, Apocalypse Now ou Blow Up.

RDB: Como surgiu a ideia de abrir este espaço de cinema e cultura pop?

VM: Acima de tudo, a partir da constatação de uma grave lacuna em Portugal, em termos da existência de um espaço de culto e de referência para quem gosta de cinema. Depois, a convicção de que haveria de facto público suficiente para justificar a sua abertura.

RDB: O Vasco Menezes foi, durante algum tempo, crítico de cinema no Y; agora é o responsável por este agradável espaço cinéfilo. Qual é a sua relação com o cinema? Vamos vê-lo daqui a uns anos a realizar filmes?

VM: A minha relação é a de um simples cinéfilo empedernido, pois o cinema foi sempre a minha principal paixão. No entanto, e apesar de ter pensado seriamente nisso durante a adolescência, o meu futuro não passa decididamente por ser realizador… A minha veia artística é demasiado incipiente!

RDB: E o cinema em Portugal, tem futuro?

VM: Claro que sim, apesar de todas as dificuldades e contingências que o rodeiam. Basta pensar em nomes como os de Catarina Ruivo, Cláudia Tomaz, João Pedro Rodrigues ou António Ferreira.

RDB: Como cinéfilo vou ter de lhe fazer esta questão: se um dia mandar no Mundo, quais são os cinco filmes que toda a gente terá, obrigatoriamente, de ver?

VM: No futuro até poderei mudar de opinião, mas neste momento teriam de ser os seguintes: Big Wednesday (1978), de John Milius; The Warriors (1979), de Walter Hill; Big Trouble in Little China (1986), de John Carpenter; Reservoir Dogs (1991), de Quentin Tarantino; e Army of Darkness (1992), de Sam Raimi. Um punhado de exemplos fascinantes de autorismo no seio de uma indústria (com a excepção do filme do Tarantino, a quintessência do cinema indie americano), contribuíram significativamente para a formação da minha personalidade.

RDB: Voltando à Cinecittà: por onde passa o futuro? Como será a loja num futuro que esperemos não seja muito longe?

VM: Maior e com mais diversidade de propostas, sempre numa óptica de crescimento contínuo. Lá mais para a frente, contamos ter mais artigos de “merchandise” (em princípio, afastados dos bonecos e “action figures” que outras lojas já apresentam) e fazem também parte dos nossos projectos abrir a loja às bandas sonoras e criar uma secção própria para livros de cinema (para já, os únicos que temos são em 2ª mão, incluindo algumas raridades como colecções de revistas dos anos 60/70/80).



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