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Cineclube do Porto

Conversa com José António Cunha, presidente do Cineclube do Porto.

Já se notou a revitalização do cinema na cidade do Porto. E um dos responsáveis principais é o Cineclube do Porto, cujas sessões regulares têm dinamizado os cinéfilos da cidade. Numa casa de chá, sentados confortavelmente a uma mesa, começamos a nossa conversa sobre a organização e fomos percebendo que a paixão pelo cinema é antiga e está bem viva para José António Cunha, actual presidente do Cineclube do Porto.

José Cunha assume-se como “uma das 12 ou 13 pessoas que trabalham no Cineclube, que disponibilizam aquilo que é a história do Cineclube e herança do projecto para nós e para os outros.” É um trabalho de equipa em que o esforço conjunto assenta numa longa herança deixada por cada um que passou pelo Cineclube do Porto, desde 1945 até aos dias de hoje.

O Porto talvez se lembre de nomes como Henrique Alves Costa como figura marcante e transversal à crítica cinematográfica mas, como refere José António Cunha “apesar de existir o Hipólito Duarte como figura fundadora e o Henrique Alves Costa como um grande presidente e figura mais marcante, o Cineclube continua a ser hoje aquilo que era: um grupo de pessoas anónimas, e há uma consciência clara de que a maior parte do trabalho é realizado por figuras invisíveis.”.

Desde Fevereiro de 2010 que José António Cunha é presidente do Cineclube do Porto. Sendo ele um cidadão e estudante de cinema, sempre percebeu esta herança cineclubista. Na chegada encontrou “uma consistência e uma ideia muito clara e forte do projecto” mas deparou-se com circunstâncias menos positivas do quotidiano “próprias de uma estrutura que está parada”: questões financeiras, degradação do espaço e uma relação quebrada com o público.

A questão que se continua a colocar no Porto, depois de tantas salas de cinema com tanta história terem fechado, é a de quem nasceu primeiro: a falta de público ou a falta de salas de cinema. José António Cunha tem consciência de que era muito novo quando o fenómeno aconteceu. Mesmo assim, suspeita que “não foi nenhum dos dois. Foi a reflexão sobre programação que falhou primeiro”. Agora, que tem nas mãos o Cineclube do Porto, encara as coisas de forma mais experiente e lúcida referindo que “os espectadores também falham quando as salas têm pouco para oferecer: ou o seu conteúdo ou a forma como apresentam os seus conteúdos.”

Fecham cinemas, abrem cinemas, voltam a fechar. A cidade tem o Teatro do Campo Alegre, o Passos Manuel, o Breyner 85 e o Museu Soares dos Reis como perpetuadores do cinema não comercial. Mas o problema é que nenhum deles é só sala de cinema, pelo que alguns não têm programação diária.

A importância do cinema e o que torna o Cineclube do Porto especial, para a cidade e para todos que nela habitam, está presente no actual presidente e na sua equipa. É importante aproximar-se do público, trazendo mais do que filmes: “o Cineclube é várias coisas em simultâneo. Têm sido as exibições cinematográficas com duas actividades muito distintas: a actividade regular quinzenal numa lógica muito diferente daquilo que é a nossa actividade sazonal.”

No Verão, podemos ver filmes ao ar-livre no Breyner 85 e no Museu Soares dos Reis com o cunho Cineclube do Porto, cada um com a sua programação própria. “O Beyner 85 com cinema contemporâneo ao ar-livre, ou seja, o novíssimo cinema; e o Museu Soares do Reis, também ao ar-livre, no qual procuramos envolver outro tipo de público e é uma linha que trabalha o documentário entre o cinema e o museu, isto é, como é que os filmes olham para o museu e para os artistas. O cinema vem de fora, representa o museu e faz com que o museu também se aperceba de como o público olha para ele”.

O Passos Manuel, outrora sala de cinema do Coliseu do Porto e hoje bar na Alta Baixa, mas que mantém a tradição de cinema, é importante para o Cineclube na medida em que é possível projectar em película. José António Cunha lembra que “já não há muitas salas com condições para passar filmes 35mm, e o Passos é uma sala icónica da cidade, tem as condições técnicas que nós precisamos para esta experiência de cinema e é um parceiro sempre aberto a nos receber, e que se identifica com o nosso trabalho”.

É certo que o Porto teve um boom na vida nocturna com a instalação de bares e restaurantes mais alternativos na zona dos Clérigos e Cedofeita, tendo igualmente chamado a atenção do público para as artes com as inaugurações das galerias na Miguel Bombarda. O Porto estava sedento e depois do “teatro e dança que tanto fulgor tiveram há seis, sete anos” desaparecerem, começaram a arrancar várias iniciativas autónomas.

José António Cunha considera que “o cinema falha na oferta há muitos anos e o retorno do Cineclube coincidiu com estas novas iniciativas.” A partir deste momento, sentiu-se que há uma maior oferta de cinema na cidade. “É uma oferta muito diversificada na medida em que o Cineclube do Porto tem uma oferta muito própria e não existe na cidade nada similar, tirando o Teatro do Campo Alegre. De resto, há outro tipo de actividade que tem mérito e público, que são pequenos grupos em pequenos auditórios que têm programação de cinema.”

O Cineclube tem uma pretensão e aos poucos vai construindo uma lógica de programação diversificada. Vão-se centrando numa programação em torno do cinema mais clássico no Passos Manuel, do novíssimo cinema no Breyner 85 e dos documentários com consciência do espaço em que se inserem no Museu Soares dos Reis.

Em Dezembro, será lançada uma novidade: a primeira escola do Cineclube, com cursos orientados para um público universitário e posterior, e com oficinas técnicas. Desta forma, alargarão a programação complementando-a com formação. Têm, também, vindo a fazer formação para público infanto-juvenil. Em breve, irá realizar-se o Clube 8mm que é a vertente júnior do Cineclube. “Já fizemos oficinas experimentais, encontros e discussões de objectivos para depois arrancar o 8mm.”

O 8mm vê-se que é a menina dos olhos para o Cineclube: “o 8mm orienta o seu trabalho para pessoas com menos de 20 anos e para público da mesma idade. É uma escola prática que permite que os jovens de hoje consigam criar ferramentas para que no futuro consigam apresentar o seu trabalho e formar pessoas. Temos boas expectativas.”

Não resistimos a perguntar sobre o projecto da Cinemateca do Porto, o que resultou em alguns risos que se foram tornando em palavras mais sérias. Segundo José António Cunha, “nunca houve projecto, só uma ideia. O Cineclube foi parceiro quando tudo era só uma ideia. Num concurso que a Cinemateca fez já estava prevista a nossa parceria, que passava pela programação mas também pela implementação na Casa do Cinema de uma extensão do Museu do Cinema, onde seria garantido o espólio do Cineclube. O que acontece agora é que o Cineclube tem uma óptima relação com a Cinemateca, mas a tutela é que manda. Pode não ser para já, mas o nosso acervo está a ser transferido para o Museu Soares dos Reis e vamos disponibilizar ao público.”

Sabemos que a falta de verbas e os poucos sócios traçam um caminho desafiante para a Direcção do Cineclube do Porto que promete não deixar morrer a tradição e herança histórica. Por isso, o trabalho voluntário é uma tradição. Embora existam duas pessoas remuneradas “Ana Carneiro na produção executiva e Vasco Costa no apoio técnico – para garantir um trabalho mais sério e contínuo”, as verbas têm de ser encontradas.

Sem apoios financeiros da Câmara Municipal do Porto, “apenas logísticos e pouco consistentes e declarados”, o Cineclube conta com apoios de várias organizações. No apoio financeiro conta com o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) e da Direcção Regional de Cultura do Norte. Outras parcerias são feitas com o Museu Soares dos Reis, Passos Manuel, Breyner 85, APEL na Feira do Livro e Casa da Animação.

Quanto aos mecenas, José António Cunha diz que tem “boas perspectivas. Temos procurado apoio, somos bem recebidos, mas temos consciência de que temos um longo caminho pela frente.”

O Cineclube do Porto está vivo e recomenda-se. Numa sala de cinema histórica, na relva de um bar ou num museu.

 

Fotografia de André Landolt



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