Cinema Paraíso

Pulp Fiction.

Um dia, quando tinha 12 anos, os meus pais, como era habitual aos sábados à noite, convidaram-me para ir ao cinema. Ao chegarmos ao místico Quarteto, o meu pai deu-me a optar entre dois filmes que estavam nos cartazes: Forrest Gump ou Pulp Fiction. Como não me lembrava das caras nem dos nomes de actores ou realizadores, escolhi o Pulp Fiction porque gostei das cores fortes do cartaz… pareceu-me que seria um filme bem-disposto! Nunca dei o braço a torcer, nunca disse que foi uma mera decisão estética, senão teria que ouvir o meu pai a falar maravilhas de quase todo o elenco de cada um dos filmes e a explicar-me que as minhas decisões cinematográficas devem ser baseadas nesses factos e não na menina do penteado engraçado…

Nesse dia, não dei parte de fraca. Sabia mais ou menos quem era o John Travolta, ou não fosse esta criança uma acérrima devoradora de tudo quanto era musical, e gostei da sonoridade do nome do filme. Achei que a tradução era “Ficção de Polpa” e achei que isso era sinónimo de comédia.

E foi assim que conheci Quentin Tarantino. Esperava uma comédia e levei um valente soco na cara!

É verdade que Pulp Fiction não provocou, na comunidade cinematográfica, a revolução que eu esperava, que eu desejava na minha inocente adolescência, tendo a Academia optado por presentear nesse ano um filme mais politicamente correcto… exactamente, aquele que eu não quis ver… O Forrest Gump ganhou tudo. Não descurando o filme, porque é também, duma forma diferente, um grande filme, que não só retrata os mais importantes momentos da história norte-americana do século XX, como, subtilmente, rodeando-se de humor, nos dá uma lição de vida: “Life’s like a box of chocolates. You never know what you’re gonna get”.

Mas basta de divagações. O que quero mesmo, mesmo dizer, é que o Pulp Fiction me revolucionou. Fez-me querer devorar filmes, como se fossem chocolates, sem nunca saber o que esperar.

A surpresa, a verdade crua, a violência, o sangue, a droga, tudo o que aprendemos que pode ser mostrado no cinema, mas pode estar mascarado com uma moral certinha, com um final feliz, como tem de ser, como seria num mundo perfeito. Estava tudo lá, sem máscaras, sem moral, apenas uma reinvenção da forma de escrever cinema, de contar uma estória, de surpreender.

Quentin recheia os seus filmes de pormenores que ficam para sempre connosco (o quadrado que Uma desenha ou o nome camuflado da mesma em Kill Bill) e que tornam o filme mais e mais cinema, mais e mais linguagem de cinema e menos linguagem pretensiosa, real, que pretende aproximar-se tanto da realidade, que se torna tão monótona como ela. O cinema não é suposto ser real, mas pode mostrar parte da realidade e Quentin tem escolhido sempre abordar temas polémicos, colocar o dedo em muitas feridas, mas sempre com humor e planos inteligentes.

Há uma outra coisa maravilhosa no Pulp Fiction. Se já o viram, revejam-no e reparem em como tudo o que existe no filme é americano, desde o dinner que abre o filme, a conversa sobre hambúrgueres no carro, a loja que se revela um antro de tortura, a Harley que acelera ao som de “Zed is dead, baby, Zed is dead…”.

De realçar a banda sonora que vai pontuando o filme com mais momentos de perfeição. São inúmeras as frases que me lembro do filme, apenas porque ouvi a banda sonora vezes e vezes sem conta. Nenhuma festa é completa sem a música de abertura do Pulp Fiction. É fisicamente impossível que os corpos não respondam às batidas ritmadas e rockeiras de «Misirlou», que iniciam com a famosa “I love you, Pumpkin. I love you, Honey Bunny. Everybody be cool this is a robbery! Any of you fuckin’ pricks move and I’ll execute every motherfucking last one of you”.

É esta a frase que inicia o filme e é isto que vos tenho a dizer para o começarem a ver. Tal como as pessoas que estavam num café tiveram a surpresa de participar num assalto, tu vais ter a surpresa de experenciar Tarantino. Acredita que é uma viagem alucinante.



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