claraengel_header

Clara Engel

O desconcerto da simplicidade

Um microfone, cordas e um leve batuque intermitente; Clara Engel e um estúdio. Desprezando dogmas, a compositora, instrumentalista e cantora canadiana produziu o seu mais recente EP: “The Lovebirds’ Throat”. Previamente, havia composto, no todo, “The Bethlehem Tapes”, na inspiração duma espontânea tarde errante dum dia de Setembro, resultando numa distorção psicológica do tempo, do espaço.

Neste mais recente trabalho, Engel fragmenta-se frente a instrumentos. Revelando-se, em entrevista privada à Rua de Baixo, como “persistente”, “mercurial” e “neurótica”, transpõe cada uma dessas características na sua musicalidade: cada simples harmonia melancólica – tão influenciada por Lhasa de Sela, por exemplo – esconde a cerrada personalidade da autora que, marcada por particularidades viscerosas e perseverantes, reveste uma atmosfera enevoada, povoada intensamente pela tensão vocalizada de Clara, prolongada nos intervalos da sua condição empírica.

Existe uma persistência demarcada em cada refrão, um neurótico mar na divagação ondulante duma simplicidade que jaz assombrada, uma frugalidade criativa na voz; é, de facto, o elemento que se torna Adamastor numa tempestade esbranquiçada de delinquência comedida. Incessantemente inerentes à produção visual do ouvinte, os vocais vibram num desconcerto delicioso que se metamorfoseia, mais tarde, na mais amarga da melancolia.

Talvez tenha sido esta a tentativa de Clara. Assumida fã de cinema e pintura, afirma ser impossível descrever a sua vida através da película ou dos pincéis; a música encarregou-se de tal. A par das letras metafóricas e levemente elípticas, Engel produz um cenário traçado pelo cromatismo gótico, por um experimentalismo surreal em categórica transformação no concreto: tomada por assuntos saudosos e constrangedoramente pessoais, a música identifica-se humanamente com o ouvinte.

A introdução «Not Knowing» respira através da excruciante saudade, em contraste com a esperança infantil da melodia; «Married to the Bone» transpira pela metáfora e por um crescendo doloroso na latejante voz da autora. Aí, a intensidade aparentemente apocalíptica defrauda-se pela expectativa: levemente uma pena se aproxima, se instala, se almofada no seu revestimento fofo; da mesma maneira se afasta, na ligeira brisa. “Little ragged robin / Teach me how to love” condiciona-se como exclusivo depois das palpitações pouco mais veementes que as palavras finais.

Assim, o mais recente EP de Clara Engel revela-se como o caminho certo a seguir. A sensibilidade confunde-se na brusquidão da honestidade; as notas e os acordes nascem; a liberdade de expressão ganha sentido.

O EP “The Lovebirds’ Throat” pode ser ouvido na íntegra aqui.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This