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Clash Club Ed Banger

30 de Abril @ Sá da Bandeira

De editora alternativa a produto de massas. Assim se pode definir o crescimento da Ed Banger. A imagem exuberante e exagerada, as capas de álbuns e t-shirts coloridas, a borrowed nostalgia q.b., mostraram-se fórmulas de  sucesso. Acima da música, a editora apostou em fornecer um lifestyle, utilizando a internet como veículo para fazer chegar a palavra. Foi responsável ainda por repetir a missão dos Daft Punk (convém, de 10 em 10 anos) de mostrar que “curtir música electónica até pode ser cool” e dá para fazer mosh.

Como tudo o que é bom acaba (mais ou menos), a fórmula esgotou. A pouco e pouco os fãs iniciais da editora de Pedro Winter foram perdendo o interesse, já que viam o vizinho, outrora fã de Ben Harper – e que de música electrónica apenas conhecia as colectâneas do Carl Cox – passear-se agora de óculos de sol vermelhos, casaco de fato-de-treino comprado numa loja de caridade (“só custou 50 cêntimos!”), a exibir orgulhosamente o álbum de Justice no leitor de mp3 do telemóvel. Não será apenas uma questão de “alternativismo”, do eterno “somos bons quando somos poucos”, mas é impossível ignorar o cansaço proveniente do overplay das músicas e imagem provenientes desta, presentes até há bem pouco em qualquer clube ou página de myspace.

Ainda assim, a Ed Banger tem marcado mais presença em Portugal no rescaldo do seu sucesso, sendo os nomes provenientes da editora presença assídua nas noites Clash Club. A Positiva, popular organizadora de eventos de drum & bass, prossegue assim na sua missão de divulgar o som da Ed Banger para os fiéis frequentadores das suas festas, cansados de ouvir durante 10 anos os mesmos discos de d&b e entreter alguns nostálgicos impacientes com a chegada do concerto de Rick Ashley.

Uma vez mais, a sala do teatro Sá da Bandeira (uma espécie de mini pavilhão multi-usos no verdadeiro sentido da palavra, já que o presente espectáculo partilhou cartaz com uma Revista à Portuguesa com Fernando Mendes e a final de um Campeonato de Culturismo) foi o palco escolhido para este regresso aos saudosos tempos do nu-rave.

A noite abriu com uma dupla lusa Le Rocker Digitable com uma sonoridade electro, tendo apresentado uma selecção bem montada de temas dos produtores do momento, a fugir do que se tem ouvido por terras lusas e antevendo uma noite com um som da pesada. É 1h30m da manhã, o espaço encontra-se vazio, mas é possível observar alguns fãs de drum & bass, através da sua peculiar maneira de dançar, bem como os já esperados miúdos de óculos de sol e blusão de couro/fato de treino dos 90’s preenchendo os cantos da sala.

Os relógios marcam 2h30m, Busy P aparece indiferente ao grito dos nu-ravers que assistem ao show. Busy P está claramente cansado de festejar. São três anos em tour com direito a paragem apenas no Natal. Em segundo plano pode ser visto um arrumador de carros de aspecto nórdico. É So Me, o designer/modista da Ed Banger – que de vez em quando também passa música – claramente a tentar passar despercebido num blusão de ganga gasto munido de gorro a condizer, numa tentativa de poder ir ao Mcdonalds sem ser incomodado. Mal ele sabe que o Porto é uma cidade bem menos hipster do que a zona da Baixa aparenta.

O set de Pedro Winter arranca com temas a 90 bpm, numa alusão ao passado Hip Hop que assombra a sua juventude. Busy P quer ditar as regras pois na sua terra só se ultrapassam os 120 bpm a partir das 3 da manhã. A multidão curte o som penosamente; sentem-se obrigados a dançar porque quem se encontra nos controlos já privou de perto com os Daft Punk (e até, dizem, já os viu sem máscara). Além disso, os 15 euros gastos no bilhete não permitem momentos de sossego. Em tempos de crise, a noite tem de ser aproveitada até ao ultimo cêntimo.

Ao fim de duas músicas, Busy P faz uma pausa para saudar o público no formato piloto automático. Sem dúvida, hoje não é o melhor dia para festejar, mas ainda faltam tantas horas para chegar ao hotel… O Sá da Bandeira encontra-se cheio a um terço, menos talvez. Todos se podem mexer bem. Óptimo, por um lado dá para dançar sem embarrar naquele tipo com mau aspecto e personalidade egocêntrica, por outro fica mais difícil o roço com aquela miúda do liceu que quer estudar design.

Por volta das 3h30m segue-se a vez de So Me controlar os decks. O tipo francês que mais t-shirts vendeu pela net em 2007 prossegue com um set techno com Shoes do canadiense Tiga a arrancar. O Teatro está agora um pouco mais composto, mas ainda há imenso espaço livre para quem quer convencer amigos a apanhar a festa pela metade. Os strobes piscam como se não houvesse amanhã, escondendo a necessidade de um mais completo jogo de luzes. O bass ensurdecedor do teatro convida por vezes a vir passear cá fora e observar os cartazes de Fernando Mendes a vender fogões e trens de cozinha. Circulam rumores de dois amigos que desmaiaram numa outra festa devido ao espectáculo de luz e acústica que este teatro nos oferece. Drogas sim, mas não nessa noite, juram! Só água das pedras é que entrou naquele corpo. Tudo bons rapazes.

So Me é um verdadeiro host. Ao contrário de Busy P, So Me mostra-se um party harder sem prazo, passando sucessos do electro maximal para animar a malta. O tema «Show Me Love» põe o público a cantar. Óptima escolha, com uma letra fácil e melodia intemporal. Só não canta quem já tem as cordas vocais demasiado arranhadas do fumo da ganza. É durante a actuação de So Me que um jovem, fisicamente semelhante ao  famoso Star Wars kid (que muita gente divertiu no Youtube) usando uns óculos parecidos com os de Tommy (The Who) sobe para uma coluna e dança como se fosse a primeira vez que sai à noite. Só faltou o crowd surf, mas a oferecer um espectáculo assim o menino tem tempo.

São agora 4h30m: “Mehdi, está na hora!”. Com um álbum editado, factor que confere grande responsabilidade, já que apesar do sucesso do formato DJ é a produção que motiva essencialmente a ida a um espectáculo Mehdi. A grande esperança da noite assume o comando e a animação que o tornou famoso (alguém se lembra do sujeito que se passeia nu à beira da piscina em A Cross the Universe?) está presente. Se Medhi tivesse hi5, com certeza seria o user com mais badges de party animal. Dança, canta, sobe para cima de uma coluna, mas desce logo de seguida sem se ter posto completamente de pé e prossegue com o som techno de So Me, polvilhado de sucessos da música de dança alternativa.

O french touch está presente no set de Mehdi. É normal querer oferecer aos outros aquilo que melhor o país tem. Seria como se Dj Vibe viajasse para o estrangeiro sem um disco de fado na mala. E se o french touch é o fado para Mehdi, então a faixa «Stress» dos companheiros de etiqueta Justice é com certeza o vinho do Porto, que devolveu um saudoso sorriso na cara a todos os que compraram o bilhete e que esperavam ouvir as colectâneas da Ed Banger Records num sistema de som que não fosse constituído por duas colunas Creative Labs. A terminar o set, Mehdi oferece a cereja no topo do bolo, sob a forma de robots franceses e presenteia o público com «Too Long» dos Daft Punk.

O resto da história é conhecida de todos os users de myspace. Os três DJs juntam-se no final para passarem música juntos, tendo havido direito a algum techno minimal pela parte de Busy P, na esperança de corrigir os erros do seu set inicial. Arrumam-se os discos e vai-se para o hotel descansar. Os Le Rockeur Digitable que aturem agora os miúdos.

É difícil prever o enevoado futuro da editora francesa, mas a Ed Banger vive neste momento a fase de negação de uma mulher que acabou de perder o marido na guerra, contrariando o seu declínio e justificando a saída dos antigos fãs com a chegada de novos. Parece decidida a levar a cabo a missão de esgotar completamente os recursos que outrora lhe conferiram o sucesso.



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