Colectivismo Animal

Em Cacilhas, Portugal.

Foi com enorme curiosidade e expectativa que o público dos Animal Collective se dirigiu ao Cais do Sodré, qual Alice seguindo o Coelho Branco ou Dorothy seguindo o caminho de pedras amarelas. Envolto num misterioso “diz-que-disse” foi um pouco às cegas que as cerca de quinhentas pessoas foram chegando ao cais. À chegada, um bilhete para o barco foi dado e às um quarto para as dez todos embarcaram prontos a serem levados para onde quer que o colectivo quisesse.

A brisa marítima animava as pessoas e uma noite amena tornava todo o ambiente numa experiência surreal. Chegados à margem sul, indicaram-nos o caminho para um barracão onde, após uma breve caminhada, todos entraram prontos para psicotrópicos em formato musical.

Esta descrição do percurso poderá parecer desnecessária mas a verdade é que, graças a esta situação, todo o concerto ganhou contornos de “happening” situacionista e todo o ambiente foi diferente de qualquer concerto normal.

Passando à música, a noite começou com um Anla Curtis, uma figura estranha que explora o barulho e experimenta. Experimenta muito. É furioso em palco e vive intensamente o que faz. Contudo, a sua performance foi desinteressante, não passando de um espectáculo morno que pouco deu ao público e, consequentemente, deste também não recebeu muito.

Às onze da noite começa o ritual espiritual presidido pelos quatro animais. E se Anla esteve mais próximo da masturbação, os Animal Collective foram o amor. Aquele amor que nos faz ver paisagens interiores, que nos faz sair de nós para depois voltarmos diferentes. Definir o seu som em álbum é muito complicado mas ao vivo é muito mais. Eles criam camadas e camadas da matéria de que são feitos os sonhos e prendem-nos durante o tempo que eles querem. Criam, sobrepõem e distorcem o som, dando à luz atmosferas de alegria que roça o êxtase e outras de calma sublime, como as imagens do rio Tejo que estava a ser projectado atrás deles. No alinhamento havia muito de “Feels” e foram as músicas do seu mais recente trabalho que fez o público manifestar-se mais, mas houve tempo para ir mais atrás no seu reportório.

Outro dos pontos fortes de toda a experiência foi o facto de, durante grande parte do concerto, as músicas seguirem-se em catadupa sem tempo para pausas. A situação era contínua fazendo o público navegar ao sabor do som.

Foi uma noite especial para todos os presentes e era bem patente nos sorrisos que voltavam para Lisboa, que não tinha sido simplesmente um concerto. Concerto é uma ideia demasiado tradicional para descrever aquela noite. Talvez devaneio mental colectivo seja mais apropriado.



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