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Colectivo a9

Em formato “Cidade do Liz”.

São um a4 dobrado cinco vezes. Ou um colectivo disfarçado de associação Célula & Membrana. Não têm nenhum objectivo “vilanesco” de dominar Leiria, mas acabam por chegar de mansinho com o estatuto de actividade cultural.

Apresentamos o colectivo A9)))): Álvaro Romão, Sofia Rino e João dos Santos, dinamizadores de maratonas de pintura, workshops de diffiti, circuit bending e concertos em rios, em (primeira) entrevista exclusiva, aqui, para os leitores da Rua de Baixo.

E como surge em Leiria, uma cidade conservadora, rural e agora empresarial, uma associação que promove workshops de algo tão estranho como circuit bending?

João dos Santos (JS) – Nós saímos aqui de Leiria há uma série de anos para estudar e agora voltámos. E precisamente por ter mudado de paradigma de rural para empreendedor (risos).

Não teria sido mais fácil ficarem como espectadores nas cidades onde estudaram? Porquê mudar as coisas?

Álvaro Romão (AR) – Mas essa é a piada!

JS – Tem dois lados interessantes. Um é que ser espectador é muito bom e ainda por cima com cidades grandes aqui tão perto. Por outro, também é muito bom poder ser criador de aspectos a título dos outros. E em Leiria há esta facilidade de podermos viver este espaço. De podermos com muita facilidade trabalhar em vários locais… Não sei qual de nós tem uma razão muito válida para querer viver aqui além de gostar da cidade… Foi uma opção.

Então foi um conjunto de coincidências? Não foi propriamente por acharem que Leiria precisava de algo novo do ponto de vista cultural?

JS – Exactamente.

Estavas há pouco a falar do facto de haver espaço em Leiria para existir este projecto. Como caracterizam o panorama cultural artístico desta cidade até chegarem?

JS – Em termos culturais, acho que Leiria é estruturada de uma maneira um pouco estanque. Tem uma série de associações mas funcionam tanto na divulgação como na apresentação das suas actividades de uma forma muito limitada. Em relação ao panorama, acho que é rico, mas não por existir diversidade, mas sim em quantidade de oferta. Porque tens bares, clubes, associações, cinema e teatro todos os dias, tens muita coisa. Agora em termos de qualidade, nenhum de nós é grande cliente ou espectador destas coisas.

E como é que o colectivo a9)))) se enquadra neste panorama leiriense?

JS – Como eu vejo, e acho que todos concordamos, em termos da divulgação e visibilidade, por vezes elas passam-te ao lado e provavelmente é isso que faz pensar que não há tanta actividade. O que pretendemos fazer é primeiro, ter uma notícia por semana no jornal, o que está a acontecer quase bem, com fotos! Queremos dar a conhecer tudo o que fazemos. O objecto da associação, a nossa matéria-prima, é a cidade de Leiria. E o que trabalhamos é sempre de acordo com esta matéria-prima e com as expectativas que temos numa relação de participação com os cidadãos…

Mas é exactamente essa a próxima questão. Querem reflectir a cidade de Leiria e a região. Como é  que uma “Maratona de Pintura” ou um workshop de diffiti reflectem esta identidade local?

JS – O primeiro ponto é o espaço onde trabalhamos! Espaços públicos, abertos, sem paredes, na praça, no meio da rua, aberto a toda a gente. Portanto, ocupar os espaços da cidade. Produzimos uma reflexão teórica, crítica, acerca da cidade.

É portanto mais construtiva, porque Leiria não tem propriamente uma identidade cultural…

JS – Terá o grupo de folcolore Rosas do Lena, isso é uma identidade cultural de Leiria e as brisas do Liz (risos). Pronto, a associação “O Nariz”, com um festival anual de teatro faz parte de uma tradição cultural leiriense. Temos também o Fade In, que marca a cultura local… e depois temos uma série de coisas que se comem, que são divertidas, que se exportam! E depois claro o colectivo a9)))). Trazemos a ideia de ocupar o espaço e trazer coisas que gostamos e que podem envolver as pessoas. O que trazemos é um espelho para uma auto-reflexão; que as pessoas sejam confrontadas no espaço comum com algo que não é habitual mas que faz todo o sentido ali. Falo do caso recente das “Braçadeiras” – evento realizado num rio – que é de todos, que parece que é uma coisa que está ali canalizada para olhar e ser feliz – e das “Joelheiras” que tem ali aquela coisa onde se estacionam carros e que afinal é um anfiteatro.

AR – Mas depois também nos confrontamos com uma inevitabilidade desta cidade. Existe uma identidade cultural, não existe é vontade para a assumir ou para a assistir. Um dos problemas, e que não somos só nós a defrontar, mas também todas as outras actividades que acontecem em Leiria inclusive o futebol, é o não reconhecimento pela sociedade leiriense. As pessoas de Leiria não vão aos jogos, não vão às peças de teatro!

E então quando fazem a vossa programação, olham para o que vai acontecendo no resto do país?

AR – Não somos originais. Todos nós temos uma série de coisas de que gostamos e acompanhamos, independentemente de estarmos no a9)))).

JS – E geralmente é adaptado. Às circunstâncias da cidade, às circunstâncias especialmente do a9)))): aquilo que pode ser feito, o que sabemos fazer e o que é melhor fazer ali. Adaptamos o que conhecemos, tentamos inventar algo de novo, mas é muito difícil ter uma ideia original com tanto canal de comunicação…

AR – Mas há uma coisa que é preciso explicar. O a9)))) não é apenas um organizador de eventos… nós criamos conteúdos! Mesmo estes, caso do circuito bending, do diffiti, não são coisas originais, estão a fazer-se um pouco por todo o lado, mas aqui foram criados por nós. E a “Maratona de pintura”. Todos os conteúdos são feitos por nós.

Sofia Rino (SR) – Para além disso temos também a parte da formação, dos workshops.

E objectivos megalómanos a longo-prazo? Reconhecimento do nome a9))))? Ter um edifício-sede?

AR – (risos) Não, mas já conseguimos tudo o que acabaste dizer. Tudo, tirando talvez as pessoas ouvirem o nome a9))))…

SR – Nós também não fazemos as coisas com esse intuito. O que tem acontecido é que temos tido uma receptividade muito grande, não só em Leiria, mas também fora daqui.

AR – Um gajo pode não saber o que é o a9)))) mas se fores ao café onde vai a minha mãe e o grupo de amigas, elas sabem o que é e o que fazemos todas as semanas (risos). Mas isto é o início…

JS –  O nosso objecto continua a ser o centro urbano de Leiria, o nosso ponto de partida. Às pessoas geralmente não interessa neste momento o conhecimento da marca, porque o produto é difuso – ninguém entende bem o que é. Mas é bom se souberes que o a9)))) é uma coisa que existe e que produz conteúdos. O reconhecimento do a9)))) também acaba por ser muito personalizado. Acho que para um ano oficial de actividade, somos bastante reconhecidos.

E agora que têm uma sede em pleno centro histórico de Leiria… Quais os planos?

JS – Arrumá-la (risos). Depois ter actividades. Há bocado estava a pensar nisso. Uma coisa que não tem um sítio parece dispersa, agora com um já não. Podemos fazer workshops, uns concertos, fanzines, gritar para o castelo… mas se tiver uma sede já parece que é coeso, coerente!

A sede vai ser a vossa identidade?

JS – Sim, é a montra. E com uma boa montra ainda por cima. Um sítio onde as pessoas podem entrar com alguma regularidade.



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