“Comboio-Fantasma para o Oriente” | Paul Theroux

“Comboio-Fantasma para o Oriente” | Paul Theroux

O Velho Mundo Ainda Existe

No mundo da literatura de viagens, Paul Theroux é tido como rei e senhor. Porém, ao passar os olhos pelo primeiro capítulo de “Comboio-Fantasma para o Oriente” (Quetzal, 2013), as palavras aí encontradas não serão propriamente elogiosas para o género: «A escrita de viagens é a forma mais baixa de comodismo literário.» Algo com que até poderemos concordar, se decidirmos olhar os livros de Theroux não como literatura de viagens mas antes como romances em trânsito.

Trinta e três anos após ter escrito «O Grande Bazar Ferroviário», Paul Theroux decidiu recriar essa imensa viagem, tronando-se ele próprio um fantasma ao voltar a cenários anteriores da sua vida: «…eu era a presença assombradora, a sombra que ouve às escondidas no comboio-fantasma.» No lançamento desta viagem, não há porém espaço para a falsa modéstia (e ainda bem): «Qual o viajante que voltou atrás para fazer outra vez a grande viagem? Nenhum dos bons, que eu saiba.»

A viagem tem início numa chuvosa Londres, trazendo à memória a anterior demanda e, também, um certo arrependimento. Com o recurso a imagens literárias, comentários políticos, “preces” religiosas e uma apurada percepção dos comportamentos sociais – o autor dá a conhecer a sua veia de entrevistador – de cada um dos lugares visitados, Theroux serve-nos de guia de viagens a um extenso mapa de lugares – Geórgia, Azerbaijão, Turquia, Paquistão, Índia, Tailândia, Birmânia, Laos, Japão (não necessariamente nesta ordem) -, onde há espaço para travar conversa com gente como Orham Pamuk ou Arthur C. Clarke.

Para o final, uma mensagem de esperança escondida por detrás de um apelo à sublevação, promovida pela voz da experiência: «A maioria do mundo está a piorar, a encolher para se tornar uma desolação estragada. Só os velhos podem ver realmente como o mundo está a envelhecer sem graça e tudo o que perdemos. Os políticos são sempre inferiores aos cidadãos. Ninguém na terra é bem governado. Há esperança? Sim.» Melhor do que isto só mesmo Borges: «Com o tempo, mereceremos que não haja governos.» Está tudo dito. É fazer a mala e seguir viagem.



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