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Juvenal Garcês

To be or not to be já não é uma questão existencial para a Companhia Teatral do Chiado! Entrevista exclusiva com o director e encenador da Companhia que celebrou o seu 18º aniversário no passado mês de Dezembro.

Localizada nesta zona emblemática de Lisboa e fundada em 1990 pelo saudoso Mário Viegas e Juvenal Garcês, a Companhia Teatral do Chiado (CTC) conta com uma sólida carreira de 18 anos e com um fenómeno chamado “Obras Completas de Shakespeare em 97 minutos” dos americanos Daniel Singer, Adam Long e Jess Borgeson. A propósito da comemoração dos 12 anos em cena desta peça de teatro – e também dos 18 anos da companhia, a Rua de Baixo entrevistou o encenador e director artístico da CTC, Juvenal Garcês, que nos faz um balanço deste percurso e do sucesso desta peça junto do público português, nunca esquecendo a alusão ao actual panorama teatral nacional e a polémica do financiamento artístico.

RDB – “Obras completas de William Shakespeare em 97 minutos” … são 12 anos, cerca de 190 mil espectadores, 150 digressões … será que as obras já são conhecidas por todos os portugueses?

Juvenal Garcês (JG) – Acho que não… não quero ser tão megalómano a esse ponto! Mas são já conhecidas pelo menos por 180 mil espectadores – o que é um feito extraordinário – e já estar há 12 anos em cena. Confesso que nunca imaginei que tivesse tanto sucesso! Pensei que seria de 3 meses! Aconselhavam-me a não fazer este espectáculo, seria complicado em Portugal. As pessoas não conhecem Shakespeare, e fazer um espectáculo sobre as obras completas iria ser um flop. Na altura, o Mário Viegas tinha acabado de morrer e seria um risco muito grande… que eu decidi correr… Não tinha dinheiro nenhum. O espectáculo, chamado de “teatro pobre” (que de pobre não tem nada), era de montagem fácil: cenário e figurinos quase inexistentes (risos). E acabou por ser um sucesso, que tem também divulgado imenso a Companhia pelo país todo. Ou seja, o Shakespeare é de facto um grande dramaturgo e comercial (risos): tem sustentado todas as obras, todos os outros espectáculos que tenho feito nesta companhia. Shakespeare ainda continua a ser o grande motor da literatura.

RDB – Falou da questão da montagem da peça como factor de sucesso – que permite tanta mobilidade. Quais foram os outros factores?

JG – Shakespeare! E o facto de ter 3 actores fantásticos: o Simão (Rubim), o Manuel Mendes, o João Nuno Carracedo… Mas o grande mestre é o Shakespeare. Dá para tudo. E há qualquer coisa de enigmático ou de mágico na palavra de William Shakespeare.

RDB – As pessoas também têm tendência a gostar mais de comédias?

JG – A comédia sempre foi o género mais popular de sempre, o próprio Shakespeare o sabia, escreveu 16 comédias e tragédias só escreveu 10. Ou seja, ele sabia que a comédia é sempre o género mais popular.

A comédia é criticar o poder, é criticar os costumes, é descontrair… por isso as pessoas gostam. E mesmo nas tragédias, o Shakespeare tem cenas cómicas para cativar o público. As comédias sempre foram e serão  o género mais popular. Como o Mário Viegas era um actor cómico por excelência e gostava muito de fazer comédias, nada melhor do que orientar uma companhia de teatro popular para as comédias.

RDB – Passados 12 anos, que agora permitem uma boa avaliação olhando para trás, mudaria algo na peça?

JG – Nada! Já nem o saberia fazer… porque é tão simples… acho que a minha cabeça já está demasiado complicada (risos)! A peça tem a ingenuidade de quem começa a encenar (na altura era a minha segunda encenação). E isso é que é o grande truque do espectáculo!

Os ingleses não fazem assim, de maneira nenhuma, fazem em 97 minutos – hora e meia, tiro e queda, com guarda-roupa fantástico, com cenário fantástico… Eu não faço nada daquilo, o cenário está a cair às três pancadas, os figurinos são sacos de batatas. E não tem hora e meia, tem quase 3 (risos).

RDB – Há pessoas que voltam a ver a peça… que é sempre diferente! Como é essa re-invenção?

JG – Há sempre uma margem de improviso. E que depende muito do público. Há espectáculos em que o público é óptimo e puxa pelos actores, é inteligente! E percebemos que o espectáculo começa a crescer. Mas o público nao é sempre o mesmo… e depende deles!

RDB – A razão do sucesso da tournée nacional é também o facto de adaptarem a peça a cada região…

JG – Sim, algumas coisas podemos adaptar, mas nem sempre… o motor de sucesso do Shakespeare é o Shakespeare!

RDB – A reacção do público não é muito diferente de local para local?

JG – Não, mas há pessoas que se chateiam (risos). Desde pessoas que ficam furiosas, insultam-nos, chamam-nos nomes… há pessoas que adoram, que já viram 10 vezes “As obras completas …”,  já temos  clube de fãs! Há pessoas que já vieram ver, casaram e trouxeram os filhos (risos)! E isto acontece na Companhia! Uma coisa fantástica! Como já houve pedidos de casamento durante o espectáculo… já aconteceu de tudo (risos)! Desde um padre a levantar-se, um senhor a insultar-nos… É assim. É um espectáculo vivo!i

COMPANHIA TEATRAL DO CHIADO – 18 ANOS DE RELAÇÃO COM O PÚBLICO

RDB – Estava a falar na questão dos autores ingleses. Nestes 18 anos da CTC, a escolha recai maioritariamente em autores anglo-saxónicos. Porquê?

JG – Sim, mas também tenho feito autores nórdicos, tenho feito (Henrik) Ibsen, (August) Strinberg… mas mais recentemente tenho feito os ingleses. Principalmente por uma coisa: porque eles têm uma grande tradição e escola de escrita teatral – é a terra do Shakespeare – e têm grandes peças. Tenho – a CTC –  “A Arte do Crime”, que é uma peça do ponto de vista de estrutura perfeita. Através das palavras ele consegue cativar o público durante duas horas. Os ingleses quando são bons, são perfeitos a construir. O teatro faz parte dos ingleses… uma coisa que em Portugal ainda não acontece… eles vão ao teatro como quem vai ao cinema.

RDB – Essa é a minha próxima questão. Falava que em Portugal não existia a cultura do teatro: é essa a razão para não escolher autores portugueses?

JG – Não… Em Portugal temos geralmente é uma grande tradição de comédia e de actores cómicos… os grandes actores que ficam normalmente são cómicos, Laura Alves, Beatriz costa, Mirita Casimiro, Vasco Santana, Ribeirinho, Mário Viegas, etc… Os grandes actores são sempre cómicos e faziam grandes comédias. A grande tradição é de facto de actores de comédia…

Vou ser sincero… nós não temos uma grande escrita a nível de escola de dramaturgia. Temos o Garrett… mas grandes peças do ponto de vista de escrita não há. Temos grandes poetas, muitos, são tantos que a gente nem fixa (risos). Mas a nível de construção de peças não temos.

RDB – Falando exactamente do público: a CTC e o próprio Juvenal dizem que o público é vosso grande patrocinador. O que distingue esta companhia  das outras em Portugal para ter tanto sucesso junto do público e não precisar dos apoios?

JG – Nós não fazemos teatro à espera do subsídio! O meu sonho – e que neste momento já realizo – é o teatro sem subsídios… temos pequenas ajudas, da Câmara (de Lisboa)… que nos cede o espaço, a água e luz… mas o meu sonho é fazer de facto um teatro verdadeiramente independente, que não dependesse do Estado! Já faço, mas acho que o teatro deveria depender mais do público! Os portugueses ainda continuam a pensar que se não houver subsídio, não há teatro… e isso é completamente errado! As pessoas têm que arriscar, e isso é o que nos distingue das outras companhias. Aliás, deixei de pedir subsídios, são todos viciados, é uma pescadinha de rabo na boca… as companhias têm milhares de euros e acabam por fazer 3 espectáculos, com 30 representações cada um: ou seja, fazem 90 representações –  o exigido pelo ministério –  se pensarmos que o ano tem 365 dias, o que fazem nos restantes? O teatro tem por obrigação estar aberto todos os dias e esse é o meu objectivo! Aliás, neste momento temos peças a mais. Uma no auditório Carlos Paredes, a Biblia (A Bíblia: Toda a Palavra de Deus) e temos uma peça infantil na escola São João de Brito. Aqui, o Teatro Mário Viegas tem de estar aberto todos os dias: é um espaço municipal, temos de dar espectáculos às pessoas, elas têm o direito, como qualquer capital europeia civilizada, de sair à noite e se lhes apetece ir ao teatro, este estar aberto. O que não acontece em Portugal! São poucos os teatros que fazem isso…

RDB – A tal questão da gestão e da arte estarem de costas voltadas tem de mudar?

JG – Claro, claro. Se formos a ver quanto custa ao herário público – que são as pessoas coitadas que andam a pagar – quanto custa cada cadeira ao Estado … é um terror! Quando sabemos que em Portugal há pessoas que vivem com 300 euros e famílias com 600 e têm de alimentar filhos… acho que isto é um desperdício e um privilégio que ninguém deve ter.

RDB – Como é a relação da CTC com as outras companhias portuguesas?

JG – Temos pouco, aliás não há, está tudo estragado… como não fazemos parte dos subsídios, não vamos… não estamos mesmo…

RDB – No entanto a companhia é aberta a outras iniciativas?

JG – Sim, já tivemos, mas tenho um problema aqui na sala – tem apenas 100 lugares – apesar de não fazer teatro com objectivos comerciais, atenção… mas esta sala é muito pequena! Um dia gostava de voltar a fazer programas – que já fiz – mas isso teria de ter pelo menos outra sala com 200 lugares. Muitas vezes temos de fazer tournées para poder pagar o Teatro Mário Viegas, ou seja, a estrutura toda que está aqui criada, actores,  produção, meninas da bilheteira, a senhora que vem limpar os camarins… há toda uma estrutura que o próprio Teatro Mário Viegas não tem cadeiras para pagar, então de vez em quando fazemos tournées.

RDB – Vamos mudar um pouco de assunto e falar dos 18 anos da companhia. No início, em 1990, o Juvenal e o Mário Viegas pensavam neste sucesso e longevidade?

JG – Não, não pensávamos. Nem no desfecho que iria ser. Nem o Mário nem eu sabíamos fazer outra coisa. E depois como éramos muito amigos, pensámos porque não haveríamos de fazer uma companhia. Mas não foi com um objectivo de muito sucesso… foi para nos divertirmos,  para fazer teatro (risos).

RDB – Mas agora o discurso muda um pouco, já fala na questão comercial, no sustento da estrutura…

JG – Claro, porque tenho responsabilidades; além de ser director do Teatro Mário Viegas, sou encenador, sou director da empresa e sou sócio maioritário, e tenho pessoas a quem tenho de pagar ordenado, porque têm filhos, têm de pagar a renda, a água e luz… tenho responsabilidades sobre isso e não posso chegar ao final do mês e dizer que não tenho dinheiro para lhes pagar!

RDB – Mas não é também um dever público? Mostrar o teatro e a CTC ao resto do país, através das tournées?

JG – Exactamente! E para ganhar dinheiro para poder pagar aos actores e às pessoas que aqui trabalham!

RDB – Falando agora do Mário Viegas… 13 anos depois da sua morte, ainda sente a sua influência na direcção do Teatro?

JG – Sempre, sempre! Eu já tenho uma certa maturidade, mas claro que sou uma espécie de produto do Mário, porque tinha 18 anos quando o conheci e ele tinha 30 e muitos. Obviamente que o Mário também se inspirou em algumas coisas que eu tinha como jovem e vice-versa. Mas a minha educação e o meu gosto teatral foram muito influenciados por ele… mas eu também já tinha isso, porque o actor que eu mais gostava era já o Mário Viegas (risos)! Era a pessoa de quem eu mais gostava, a maneira de estar no teatro e na vida, que eu mais me identificava… Antes de o conhecer, de o ver… já havia uma cumplicidade de gostos e maneira de estar!

RDB – Olhando para o passado… Nestes 18 anos e há 14 que dirige o teatro, alguma coisa que mudaria?

JG – Fazem-se erros. Disparates. Já tenho 47 anos e uma certa maturidade para dizer que fiz alguns erros e que não os voltaria a fazer. O que é natural. Mas a maior parte das coisas não mudaria.

RDB – E nestes 18 anos, gostaria de destacar um ponto positivo, um ponto negativo e uma surpresa na história da CTC? Apesar de ser complicado fazer este tipo de avaliação numa carreira tão longa.

JG – Positivo, a fundação da Companhia e a minha estreia como encenador. Triste, a morte do Mário Viegas.
A surpresa, “As Obras Completas de Shakespeare em 97 minutos”. Estávamos tão mal, tão mal de dinheiro que foi uma surpresa. E toda a gente dizia que iria apenas durar 3 meses! Aquilo é uma espécie de ad eternum… há mais 10 milhões de portugueses que ainda querem ver (risos)! O Shakespeare é um marco na companhia e no teatro português! Acho que não há nenhum espectáculo que tenha 12 anos em cena!

RDB – E planos futuros?

JG – Quero continuar a fazer teatro, a divertir-me, principalmente com os meus amigos e actores que gosto. E mais nada! Fazer teatro e viver minimamente bem.



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