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Complexo de DJ

Advertência de saúde pública!

Na qualidade de técnico de saúde mental alerto os leitores para o “complexo de DJ”. Um fenómeno psicológico moderno que, quando mal resolvido, pode trazer enormes prejuízos à vida pessoal de quem dele sofre. Resume-se a uma vontade súbita de alegar de pulmões cheios que se é um DJ, sem na verdade saber do que se fala.

Uma espécie de complexo de Édipo do século XXI… Deixo-vos então com uma lista de diagnóstico, que espero que um dia passe a entrar para os critérios do DSM, para melhor poder diagnosticar e tratar complexos de DJ mal resolvidos.

O Complexo de Deejay pode ser tratado:

1. Ao ter uma ideia clara sobre o que é o trabalho de um DJ e um objectivo formado sobre o que se pretende com essa actividade – logo aqui ficam a maioria dos wannabes, porque o primeiro tema que passam é a partir a loiça, estejam 3 ou 3.000 pessoas na sala.

2. Saber de antemão que para se ser DJ é preciso compreender como funciona o equipamento à sua frente e ter ideias sobre som e dinâmica do mesmo (porque é que se deve evitar o vermelho e porque é que a equalização deve ser mais do que para dar uns toques nos médios na quebra dos temas).

3. Ter ouvido atentamente centenas de horas de trabalho, de outros DJ experientes e uma noção clara do que é a construção emocional e do ambiente humano inerente à sequência de música.

4. Ter feito, por várias vezes, um ensaio prévio, antes de se  passar música pela primeira vez, bem estudado, sobre o que se deve ou não fazer em que situações, com contingentes musicais para quaisquer ocorrências, e boa parte de uma selecção previamente feita em casa, que garantidamente funciona a nível musical e faz sentido a nível técnico e, se possível, melódico.

5. Uma noção minimamente sólida de como fazer uma transição (senão mesmo uma passagem) sem causar desconforto ao ouvinte. Quero dizer com isto que sim, é exigido para diagnóstico negativo, um certo grau de técnica ao DJ – mesmo que mínima, apenas o suficiente para manter o flow da festa – para que eu o possa chamar de mais do que um “cd-putter”.

6. Deter uma colecção de música de, no mínimo 300 a 500 títulos, de variados formatos e estilos musicais (sim, acho que mesmo que um gajo só queira ser DJ de house, tem de saber quem é o herbie hancock, o james brown, os rolling stones, os stooges, o bob marley, o miles davis, o marvin gaye, o prince, o afrika bambaata, etc). Títulos obviamente obtidos por meios legais (sejam oferecidos, comprados, promocionais ou mesmo gravados de discos que se tenham em casa), todos eles devem estar minimamente presentes na memória do pretenso DJ.

Agora, o que faz de si uma vítima de um Complexo de DJmal resolvido:

1. Perder mais do que 10minutos (se é homem) e 20m (se é mulher) a escolher a roupa que vai usar para o seu grande gig.

2. No caso das gajas, desqualificação imediata quando o decote ultrapassa mais do que um terço do tamanho médio dos teus seios. No caso dos gajos, ter mais do que um pequeno toque de gel no cabelo (portanto, entendo que gajos com o cabelo espetado já estão a meio caminho para não serem realmente DJ porque se preocupam demais com o cabelo e pouco com o trabalho, além do que, são ridículos).

3. Pessoal que tem sequências pré-misturadas num CD e que as usa sem ser para ir à casa de banho, mas sim para fazer de conta que sabe misturar.

4. Pessoal que, sem ter uma razão física legítima (indisposição, doença), tem outra pessoa que lhe escolha a música ou que a misture – das duas uma.

5. Pessoal que faz, invariavelmente, melodias ao assobiar (estilo quem chama o táxi) nas quebras dos temas (além de profundamente deselegante, desconcentra e é só show-off). Pessoal que abre os braços, fecha os olhos e faz de conta que a música o faz voar, de forma teatral e não espontânea, quando está na cabine. Pessoal que usa uma daquelas coisas que os tenistas têm para limpar o suor, mas está a passar temas de 10 minutos em CD – logo não está particularmente cansado e não tem razão para limpar a testa. Luvas e luvas com os dedos cortados (especialmente se só estão numa mão) também são olhadas como potencial indício de complexo de DJ, mas nesse caso, a decisão é tomada mediante a qualidade da música a passar.

6. Usar os timecode de vinil mas depois carregar no botão “synch” antes de misturar. Ainda se admite se for no timecode de cd, que é mais discreto… quando se usa o timecode de vinil é mesmo para fazer-se passar por DJ que tem discos… o mínimo que se pode fazer é misturar à patinha. Caso contrário, faz-se a coisa com controladores midi e os temas já pré-sincronizados, o que compromete imenso o espaço de reacção e adaptação do DJ ao público, mas sempre legitima a utilização da dita função.

7. Passa a ter um “COMPLEXO DE DJ” quem já sabe o seu nome artístico mas ainda nem sabe o que é um PFL. Quando pediu um logótipo ao amigo designer, e esse logótipo só usa consoantes… Quando acha que a música é tão boa quanto mais a rasgar for.

8. Quando não sabe o que é um disco de vinil, e porque é que alguns dos DJs mais respeitados do mundo ainda usam esse formato. Ao mesmo tempo, quando não sabe a diferença entre um mp3 de 128 e um de 320. Quando não sabe a diferença entre um mp3 de 320 e uma WAV.

9. Sofre do Complexo quem for uma personalidade frustrada de qualquer outra área da vida pública (gigolo, modelo, antigo apresentador(a) que caiu em desgraça, cantor falhado, jogador da bola balofo, rapariga dos morangos com açúcar, ex-namorada do protagonista dos Morangos com Açúcar, ex-comentador desportivo) que procura uma segunda chance de voltar à ribalta e fazer dinheiro.

10. Quando se copia a tracklist de alguém porque não conheces música que chegue para fazer o teu próprio line-up musical, ou se compra um CD de top dance hits e se passa tudo de seguida, alegando ao fim de uma hora e pouco, que se acabou o  set, pedindo o cachet e exigindo que o residente acabe a noite.



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