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Constantina

Constantina em "Haveno" é uma pérola nova por descobrir, um mundo de influências, ritmos, texturas, que se entralaçam em harmonia e paz. Entrevista com o septeto mineiro.

Constantina, o septeto mineiro, criado em 2003, não lançava um novo trabalho desde 2008. André Veloso (teclados e sintetizadores), Bruno Nunes (guitarra), Daniel Nunes (bateria), Gustavo Gazzola (guitarra), Lucas Morais (trompete), Thiago Vieira (baixo) e Túlio Castanheira (vibrafone e percussão) decidiram regressar em força!

“Haveno”, o seu mais recente trabalho, e uma lufada de ar fresco no percurso da mutante banda, significa, repescando o significado da língua universal Esperanto, porto de abrigo, e soa à calmaria após uma quase fatal tempestade em alto mar. Constantina é singular e plural. É um caminho comum de “sete pessoas apaixonadas por música. Cada um da sua forma, mas que se encontram para fazer o que gostam e alimentam um sonho de que é possível viver de música independente no Brasil.”, nas palavras de Gustavo Gazzola.

O que motivou Gustavo Gazzola e Daniel Nunes, os Constantina que se propuseram à exposição da entrevista, bem como, cremos, os restantes Constantina, foi “um desejo intrínseco de fazer uma música que pudesse tocar as pessoas”. Será que, passados oito anos, consideram que o objectivo foi conseguido? Gustavo é inequívoco na resposta: “sem dúvida! O Constantina sempre teve um contato muito próximo com o público apreciador, e isso permite perceber o sentimento que nossa música causa nas pessoas. Eu, por exemplo, que não faço parte do grupo desde o surgimento da banda, mas sempre fui um grande fã de Constantina e sempre recorria a essa música para compartilhar momentos de alegria e aliviar os lampejos de tristeza. Sempre recebemos emails de pessoas agradecendo pelo conforto que nossa música trouxe em dias difíceis. Isso sempre nos alimentou, indicando que estamos no caminho certo da proposta inicial.” Daniel, ainda que mais contido na resposta, não hesita no aconchego positivo, pelo menos no que ao público independente diz respeito: “Acredito que sim! Mesmo que de uma maneira restrita, por sermos independentes, penso que o que conquistamos até agora nos impulsiona a seguir adiante para amplificar esta ideia.”

Quem já espreitou Constantina, e quem se atreveu ao exímio prazer de entrar no site, saberá que música e imagem são indissociáveis para estes artistas. Aliás, como nos explica Gustavo, “duas coisas contribuem para trabalharmos com música e imagem de uma forma indissociável. A primeira é que para trocar ideias dos conceitos que permeiam as músicas sempre recorremos às imagens. […] A segunda é que temos um grande artista gráfico na banda, Bruno Nunes. […] Acho impossível entender a música do Constantina sem ver os desenhos do Bruno.” Daniel acrescenta: “Acho que além disso, quando penso em Constantina, penso em paisagens sonoras, onde nos libertamos de conceitos pré-estabelecidos dos jargões da música, e ampliamos nossa linguagem sonora com elementos extra-musicais. Bruno Nunes é um dos grandes incentivadores desta transversalidade, nos estimulando e nos alimentando com excelentes referências e ideias.”

Ainda que composta por sete magníficos brasileiros, Constantina soa-nos longínqua do país veraneante. Se não do Brasil, de onde lhes brotam as influências? Gustavo admite: “Claramente as influências principais da banda não são brasileiras.” No entanto, considera que “Haveno” significa uma viragem na banda: “passámos por grandes mudanças na banda e o contato com os sons brasileiros e latino-americanos começaram a aparecer nas músicas mais naturalmente.[…] A faixa do “Haveno” em que essa influência talvez fique mais evidente é a «Monte Roraima», na qual colocamos um “batucão” de samba no meio dela. Essa influência mais regional vem também dos trabalhos com outros artistas brasileiros e latino-americanos que fizemos nos últimos anos. Por exemplo, tivemos parcerias com o Wado, que tem forte raízes na música do nordeste brasileiro. Tocamos ainda com um grupo de cantigas de roda e ciranda de Minas Gerais chamado Meninas de Sinhá. Sem esquecer do Franny Glass, do Uruguai, que tocamos neste ano de 2011.”

Seguindo as tendências actuais do mercado cultural, “Haveno” foi disponibilizado virtual e gratuitamente através do site. Constantina reveste-se, assim, de marketing gratuito, como se fossem movidos pela vontade única e exclusiva de agradar o público, ainda que a nenhum preço. Será que pensam ser mais fácil conquistar o público por dita via, ou querem apenas que a música lhe chegue livremente? “Acreditamos que é dessa forma que o mercado fonográfico se comporta hoje em dia.” Gustavo mostra-se convicto e prático: “O acesso gratuito das músicas sempre vai existir, queira ou não; e aqueles que gostam e querem dar o suporte aos músicos acabam comprando. Aqueles que gostam de ter o registro físico acabam procurando o CD mesmo… por isso procuramos fazer uma arte gráfica bonita, que tenha significado para nós e para as pessoas que buscam esse outro lado da nossa arte.” Daniel vê ainda vantagens criativas neste marketing desvinculado, pelo menos teoricamente, das vendas: “Acredito que esta seja uma possibilidade de amplificarmos nossa produção de forma independente e autônoma, sem precisar nos ancorar em selos ou gravadoras que impõem condições que considero ultrapassadas. Mas o que mais gosto nas escolhas que temos com as ações do Constantina é que sempre enxergamos mais possibilidades, o que nos faz exercitar a criatividade para elaborarmos produtos que possam ser consumidos por interessados. Penso que desta forma criamos um tipo de mercado em torno de nossas produções.”

“Haveno” é um disco sereno, convicto e consistente, como qualquer porto de abrigo que se defina enquanto tal deverá ser. Transporta-nos quase imediatamente para a serenidade de um pôr-do-sol de Verão, ou para a imagem de um mar outrora revolto onde agora só se ouve a brisa. Será que sentiram a necessidade de procurar um porto de abrigo, ou é a calma parte do novo caminho criativo? “O conceito do “Haveno”, que já estava discutido e entendido antes de criarmos a primeira música do disco, acabou sendo uma forma de porto seguro. Eram tantas novas influências chegando na banda, que o processo criativo no começo do disco era um pouco caótico. Passaram-se uns bons meses antes de conseguirmos realmente encontrar uma certa calma na composição e finalmente criar a primeira música, que foi «Bagagem Extra»”, explica Gustavo. A calmaria chegou e hoje “já entendemos bem as influências de cada um dos integrantes da banda, e isso faz com que novas composições saiam facilmente.” Desenganem-se contudo os que acreditam ser este o descanso do guerreiro de Constantina: “a necessidade do porto seguro do “Haveno” já passou, e já estamos caminhando em uma nova direção.” Ou, conforme claramente explica Daniel, “ao mesmo tempo que [o disco] nos leva à calmaria, a um lugar onde podemos nos aportar, ele nos dá novas possibilidades a serem exploradas, onde nos encontramos na inquietude criativa, na busca de sempre desbravarmos novos territórios, novas sonoridades.”

Constantina vive e define-se em instrumentos. Será que nunca surgiu a necessidade de juntarem voz ou é a instrumentalidade imagem de marca, ou pura convicção? Gustavo elucida: “Desde o início da banda já estava decido que a música instrumental era uma convicção. Mas estávamos bem acompanhados, pois sempre tivemos boas referências da bandas instrumentais. Na minha opinião, a voz nada mais é que outro instrumento possível de ser utilizado, entre milhares de opções. Apenas escolhemos aqueles que gostamos mais de utilizar e achamos mais relevantes para transmitir nossa arte. […] essas parcerias que fizemos nos últimos anos, as quais mencionei anteriormente, todas foram com vocais. E foram experiências lindas!” Daniel acrescenta que todo o processo criativo associado à composição de música instrumental “dá uma certa liberdade das formas musicais. Podemos extrapolar as ideias rítmicas e harmônicas sem precisarmos nos ater a uma linha melódica condutora…” Quanto mais ouvimos Daniel, mais nos convencemos que a exclusividade instrumental em Constantina é de facto escolha: “O que gosto de uma banda instrumental é a possibilidade de uma liberdade que temos em criar e “passear” por diversas ideias e climas musicais e ainda assim termos nossa identidade impressa pelos locais que passamos.”

Num público musical formatado a procurar sentido nas letras, na dita voz, como surgirá a Constantina o significado, de onde lhe virá a criação, sem poder, por escolha coerente, recorrer às palavras que ditam sentido? Nas palavras de Gustavo, “O lirismo que entrelaçamos com as músicas do “Haveno” foi algo construído durante o ano. Mas desde o início, tínhamos em mãos uma cópia do livro “A Antibruma”, escrito por Nils Skare, que entendíamos estar conectado à ideia que estávamos construindo. Não foi à toa que vários trechos deste livro estão conectadas às músicas na versão física do disco.”

Constantina em “Haveno” é uma pérola nova por descobrir, um mundo de influências, ritmos, texturas, que se entralaçam em harmonia e paz. “Haveno” é, sem dúvida, a segurança de que se encontraram, mas não pararão de se procurar.



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