“Conta-corrente Volume I – 1969-1981” de Vergílio Ferreira
Pensamento em estado bruto
Nome maior da literatura nacional, Vergílio Ferreira foi também um pensador, um homem que, a partir da sua experiência e raciocínio, refletiu como poucos sobre a “sua” contemporaneidade do ponto de vista filosófico. Muitos desses pensamentos foram registados numa espécie de diário e estão agora reunidos em três volumes, com selo da Quetzal, reunindo os nove volumes originais, inicialmente disponibilizados em 2012.
Já tivemos acesso ao primeiro tomo desta coleção, denominado Conta-corrente Volume I – 1969-1981, e podemos afiançar que se trata de uma obra essencial em qualquer estante, cujo perfil seminal confirma o autor de livros como Manhã submersa, Aparição, Para sempre, e muitos, muitos outros, como uma das maiores referências da literatura portuguesa do século XX, cuja inquietude e genialidade narrativa lhe valeram inúmeros prémios.
Edição cuidada, em capa dura, com sobrecapa e fitilho, sob a direção de Francisco José Viegas, que no final das quase 1200 páginas apresenta um bem pensado índice onomástico, tal a quantidade de referências a personalidades ligadas (ou não) à literatura, Conta-corrente Volume I – 1969-1981 é sinónimo de uma viagem à mente de Vergílio Ferreira e está repleto de reflexões, que podem significar uma dezena de linhas ou várias páginas, apontando várias direções, seja um registo próximo das angústias existenciais, de convicções filosóficas, ou análises críticas à sociedade, política e cultura nacional.

Estamos, assim, perante a (re)descoberta de um documento raro, um livro que tem o seu tempo de leitura, que se quer pausada, pois só assim será devidamente degustado, e que obriga o leitor a acompanhar o pródigo fluxo de uma mente em estado de ebulição permanente. Esse turbilhão leva Vergílio Ferreira a pensar sobre as mais variadas temáticas, seja a morte, Deus, a escrita, o papel da arte e da fruição, o marasmo cultural, o próprio meio literário, o processo educativo nacional ou a solidão, estado que muitas vezes o assombrou. A disrupção com que escreve levam a crer que procurava um sentido, uma validação do seu próprio cogito, resolver uma luta entre a lucidez e o onírico, expondo-se a momentos de contemplação, mas também a passagens em que confronta o mundo.
Destacam-se ainda passagens em que reflete sobre o seu projeto criativo e narrativo ou quando “discute” as suas obras, confrontando-as, sem pejo, com as reações da crítica e do comum leitor. E é nessa honesta frontalidade que encontrarmos a esfera mais íntima de Vergílio Ferreira, o homem, também apaixonado e muito crítico do pensamento político e social, assim como do conceito de modernidade.
O resultado dessas dissertações que dão eco ao seu pensamento são palavras escritas que dão voz a um certo (des)encanto, recusando sempre a mediocridade do discurso vazio, que exigem ao leitor uma empatia por ideias que podem ir, ou não, ao encontro das suas. Para aí chegar, Vergílio Ferreira, escreve em estado bruto, como dizia, «para se manter vivo», enquanto se interroga de forma provocadora. E, ao fazê-lo, desafia-nos também a refletir com rigor, (algum) risco e profundidade.
Nota de rodapé O segundo volume já está disponível e reúne os diários de 1982-1985; o terceiro, até ao final do ano, e apresentará textos referentes a 1989-1992.
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