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Conta-me histórias

“Viajar é provocar o destino, para que aconteçam coisas”. Tiago Salazar, Sérgio Brota e Gonçalo Cadilhe são três viajantes profissionais. Contam-nos histórias de lugares que preenchem os nossos sonhos.

Tiago Salazar

Nasceu em Lisboa em 1972. Formou-se em Relações Internacionais e estudou Guionismo e Dramaturgia, em Londres. Trabalha como jornalista desde 1991. Publicou “Viagens Sentimentais” (2007), “A Casa do Mundo” (2008) e “As Rotas do Sonho” (2010). E foi vencedor do prémio Jovem Repórter do Centro Nacional de Cultura, em 1995. As viagens tornaram-se, naturalmente, forma de vida e hoje são fonte de “sanidade mental”, como refere.

“Sobre isto de viajar, acho que devia haver nos boletins de entrada nos países, junto aos quadradinhos de ‘lazer’, ‘turismo’ e ‘contrabando’, os quadradinhos de ‘unir’ e ‘partilhar’. Dito de uma forma mais simples: abrir o coração e deixá-lo pensar livremente sobre o que acontece durante a viagem” é o que se lê na sua página (ver links).

Das muitas rotas que o mundo oferece, elege a que melhor conhece, a da espontaneidade e da livre descoberta: “O preconceito é a estricnina do viajante. É certo que levamos sempre na bagagem as nossas estupendas ideias feitas, seja do guia, do filme, do livro, do site, do astral, do oráculo de Napoleão. Mas se puder deixar esse grilo falante a falar com o meu cão Camilo, e entregar-me à experiência de ser, viver e sentir, talvez aí descubra a possibilidade de união. Se a viagem fosse redutível a uma frase ela viria d’ «o jardim dos caminhos que se bifurcam». Nesse conto prodigioso de Jorge Luís Borges há uma frase que é a viagem de todos nós, mais cedo ou muito mais tarde: ‘Depois reflecti que todas as coisas sucedem a uma pessoa precisamente agora. Passam séculos e séculos e só no presente acontecem os factos; há inúmeros homens no ar, na terra e no mar, e tudo o que realmente sucede, sucede-me a mim’. É nesse instante que a viagem acaba por acontecer, embora, por vezes, só o saibamos muito depois.”

De sentidos apurados e entregue a esse imediatismo que confere o sabor genuíno que se quer em registo de descoberta, abraça o mundo. “O mundo a meus pés? E porque não eu aos pés do mundo, a lavar-lhos por me ter dado tanto? Amo quando a história das terras me é contada pelas pessoas, como a dos Budas de Sigyria no Sri Lanka ou no Sikkim, ou das ruínas de Istambul, que aprendi nas palavras do meu amigo Sonner, um arqueólogo e drogman (guia) que conheci no acaso da viagem.”

À boleia, vêm as histórias e as peripécias: “Perdi o comboio na viagem do Transiberiano, por circunstâncias bizarras (um erro crasso do agente de viagens, que se esqueceu da mudança do fuso horário). Aquilo que seria um episódio benigno no ramal de Cascais, em Irkutsk, na Sibéria dos gulags, reduzido ao passaporte e a 20€ (quantia magra para a avidez dos taxistas) pareceu-me a trama do Survivor. O meu russo erudito fica-se por um spasiba e um pajálsta, e de qualquer maneiro o russo siberiano deve ser uma espécie de açoriano para um alfacinha. Além disso, a única palavra de inglês conhecida na região era «money». Os taxistas queriam 400 dólares para nos levar à estação mais próxima (a mim e à minha mulher e à sua alter-ego, a fotógrafa Eva Houssman), e não tínhamos a certeza que fosse a correcta. Durante minutos daqueles que parecem anos, julguei que íamos terminar os nossos dias no exército checheno. Quando já desesperávamos sem soluções de recurso, para além de nos alistarmos nas hordas chechenas, avançou uma alma generosa do meio da chusma de taxistas em desvario, e meteu-nos no seu táxi a tresandar a gás para a corrida mais louca das nossas vidas.

Foi essa generosidade de um estranho (que não trocou uma palavra connosco) que nos permitiu voltar ao comboio, cinco horas de estrada, e de taiga, mais tarde. O susto tornou-se numa das aventuras mais apaixonantes sobre as virtudes da condição humana. Depois, histórias, tenho muitas… Uma das mais recentes aconteceu em Istambul, numa das viagens que organizo para a Nomad (um citybreak literário à volta da obra do Orhan Pamuk). Faz parte do meu último livro, “As Rotas do Sonho”. Contei-a, sobretudo, pelo lado insólito na minha costela de vegetariano.

Contei-a assim: “Pasmado com os engenhosos calhaus de 3 mil anos, quase não dava pelo velho ritual sagrado em honra das papilas do profeta Abraão, que decorria do outro lado da rua, dentro de uma garagem convertida em cafurna de sacrifícios. Estava num antro de prazeres, ao nível do bordel de Beyoglu onde me levara Soner. O boi decapitado estava bem morto há um par de horas, mas os urros dos carrascos (à mistura com evocações de Alá) continuavam e não andariam longe do derradeiro ulular do falecido bicho. Cheguei-me ao talho como quem pergunta se o autocarro demora, e logo fui cercado por um rebanho de muçulmanos de barbichas aparadas dispostos a converterem-me às maravilhas gastronómicas do Islão. Um deles fazia circular um machado nos ares, para que cada um dos carrascos assestasse a lâmina no cachaço, nos cornos ou no lombo do bicho sacrificado, conforme a sua habilidade e pujança. Ainda mal chegara e já me enfartavam de chá, baklava e um generoso pires de moelas. Aceitei o chá escaldado e aconcheguei-me num banquinho a ouvir o concílio dos maometanos enquanto arrefecia. Quando me disse vegetariano, para escapar a uma ceia de costeletas panadas, um dos mais novos arrancou com uma ladainha imparável, sem que lhe tivesse perguntado por nada. Dizia ele ‘we love animals. Killing is a sacrifice like Abraham’s son killed’. E de cada vez que saía de ao pé de mim, alçava o machado como um temível soldado janíçaro e rachava mais um bocadinho dos cornos do bicho, diante de um coro de gargalhadas. Alcei então a chávena e proferi um xerefé como quem reza um sutra pela alma do chifrudo falecido”.

Se lhe oferecessem um bilhete agora, ia…

“Para a ilha do Príncipe. O meu passaporte é J-… Disponibilidade total e prolongada.”

E levava…

“O tapete de yoga, o livro do mestre Yiengar «Light on Yoga», o livro de Marguerite Yourcenar «Peregrino e Estrangeiro», o «Livro de Areia» de Jorge Luís Borges e a «Poesia» do Tagore. O resto é traquitana do sentimento.”

Da estrada para o papel…

“Escrevo para viver, e felizmente pagam-me para fazer o que mais gosto: escrever sobre viagens. Retribuo com o mesmo amor e intensidade. Não troco os afectos por papel. Ponho (ou faço por isso) essa vida de corpo inteiro no papel, nas folhas, nos gatafunhos que me acompanham para toda a parte. Sofro da bicmania. Escrever é dos actos mais difíceis, sérios e exigentes. Só peço que as histórias saiam bem contadas, e dignas de quem mas contou. Que a palavra justa esteja lá.”

Por trás da objectiva…

“A fotografia é uma arte que viaja comigo na companhia de fotógrafos como o Manuel Gomes da Costa, o Joaquim Gromicho, o Pedro Loureiro, o Nuno Oliveira, o António Nascimento, o Jorge Buco… e mais haveria. Qualquer um destes companheiros de viagem foi capaz de traduzir essa arte e torná-la muito mais valiosa do que mil palavras. O que não fala, sabe sempre mais. Sou apaixonado pela fotografia, mas não teria a ousadia de fazer dela assinatura. Devo ter assinado dois trabalhos na vida por contingências da necessidade, e com pedido de desculpas lavrados aos meus leitores. Não é falsa modéstia, mas são raros os casos de quem saiba do ofício de escrever e fotografar na mesma medida grande.”

Onde falta ir?

“Os carimbos nos países não me dizem nada. Talvez ao centro da minha terra. É a viagem mais importante e mais demorada. É quilometragem para muitas vidas.”

Destaque

“Há uma expressão (do território do amor) que fala na possibilidade de eterno retorno. Onde houve amor, amor maiúsculo, amor verdadeiro, ou onde os países me atravessaram, voltarei sempre.”

Sérgio Brota

Nasceu em 1977 e eterno apaixonado pelo tema das viagens, foi autor de vários projectos associados a mais de trinta países em quatro continentes e tem várias publicações e exposições fotográficas, de onde se destacam “Ventos de lá” e “A estação do frio” as mais reconhecidas, como freelancer. As viagens aconteceram por acaso. Hoje são um modo de vida e um vício e delas nasceu “Solitude”, um livro que conta histórias do mundo.

A primeira viagem fez sozinho e de mochila às costas. Não porque tenha preferido assim, mas por não ter companhia. Mas viajar sozinho traz-lhe um acrescento: “A razão pela qual viajei sozinho pela primeira vez foi, tão simplesmente, não ter companhia. Não sou da opinião que viajar sozinho é melhor que viajar acompanhado mas sou da opinião que viajar sozinho é melhor que não viajar porque não se tem companhia. O que acontece é que depois de se experimentar viajar sozinho, torna-se mais complicado abdicar do espírito mais receptivo, mais aberto à partilha e descoberta que caracteriza esse tipo de viagens. É verdade que se começa sem parceiro, no entanto durante o percurso vamos sempre conhecendo pessoas que nos vão acompanhando, se não no percurso completo, em partes dele, e que, por vezes, nos faz chegar ao final de uma longa jornada em pequenos grupos de companheiros e amigos que não conhecíamos antes. Basta às vezes apenas dois dedos de conversa de café para afastar esse sentimento de solidão”.

As fotografias, tal como as viagens são “companheiras que, no fundo, misturavam uma vontade profunda de correr para lugares improváveis, conhecer novas culturas e experiências de vida com o desejo de trazer momentos irrepetíveis”, lê-se no seu site. Do mundo que abraça, faz um lugar de conhecimento e de troca de experiências: “Quem viaja sozinho procura a diferença, não a semelhança. Torna-se, de um modo natural, mais compreensivo e, por isso, com muito mais possibilidades de ter boas experiências. Existe uma partilha diferente de quando viajamos com alguém conhecido, é uma partilha com quem nos cruzamos. Isso dá um sabor especial às experiencias.”

Dos lugares desse mundo que diariamente se reinventa, realça dois: “A Patagónia, o sul da Argentina e do Chile, porque considero uma viagem lindíssima em termos de natureza. Os espaços são gigantescos, em especial para nós, que estamos habituados à ideia de espaço europeu, e absolutamente encantadores. Tem montanha, planícies, praia, neve, boa comida, bom vinho e excelentes pessoas. A outra viagem é o Transiberiano, e recordo-a sobretudo pelo desafio que deixa a cada pessoa que o faz. Não é uma viagem fácil mas é (quase) uma lição de vida, por tudo aquilo a que obriga a passar e, inevitavelmente, pela sua história.” Histórias, há muitas. Mas as que nascem do futebol têm um sabor especial: “As histórias mais giras costumam começar pelo futebol, curiosamente. Ao longo dos anos percebi a universalidade dessa linguagem, que Figo e Ronaldo são sempre dois bons inícios de conversa ou a melhor maneira de passarmos de desconhecidos a grandes-amigos-aos-quais-devemos-pagar-umas-bebidas e outras vezes confundirem-nos com o Nuno Gomes, também facilita o diálogo com Agentes de Fronteira mal-humorados. Houve muitas personagens engraçadas ao longo das viagens, muita mímica hilariante para perguntar a um vendedor à beira da estrada se o que vende é queijo de cabra ou de ovelha, para comunicar com um siberiano que veste uma t-shirt que diz ‘Algarve’ ou aprender a jogar Carrom Board num pequeno café de aldeia nos Himalaias … Quase todas as situações acabam numa foto com todos a rir. Acho que isso as torna giras, não é?”

Da primeira viagem, fala com um orgulho grande: “Lembro-me da viagem que deu o impulso decisivo para continuar, feita em conjunto com um grande amigo a um país absolutamente apaixonante, a Eslovénia. Na altura tínhamos pouca experiência nisto das viagens mas ainda assim decidimos sair à descoberta duma nação que tinha saído há pouco tempo de uma situação complicada [com os países da antiga Jugoslávia]. Juntamo-nos, viajamos de avião até à costa italiana e alugamos um carro, iniciando aí a descoberta e a aventura, que começou logo a partir da fronteira. Até essa data só conhecíamos a Europa, tínhamos perspectivas diferentes do mundo, mas ainda hoje ambos recordamos essa viagem muitas vezes de um modo muito especial.”

Se lhe oferecessem um bilhete de avião agora, ia…

“Para a Nova Zelândia, Austrália ou Alasca, provavelmente. São os mais caros.” [risos]

E levava…

“O passaporte. E a máquina fotográfica, claramente, junto a um bloco de notas. São o complemento daquilo que vi, ouvi e senti. Tudo o resto é (quase) dispensável ou consegue-se substituir com maior facilidade.”

Da estrada para o papel…

“Escrever tornou-se quase uma necessidade, uma vez que a minha memória é péssima e assim que comecei a perceber que, aos poucos, me ia esquecendo de um ou outro episódio, decidi escrevê-los. Nunca me passou pela cabeça fazer algo mais do que simples apontamentos mas o que é certo é que, depois de um par de pessoas lerem e me convencerem de que aquilo podia ter interesse para mais alguém para além de mim, decidi dedicar um pouco mais de tempo à escrita e, eventualmente, editar. Para ser sincero, senti muitas dificuldades em compilar tudo. Há pouco em mim de espontâneo em escrever mais do que algumas linhas de tópicos. Quando comecei a pensar nisso mais a sério fiz umas formações em escrita criativa para melhorar essa falta de espontaneidade e fui escrevendo aos poucos, lendo, relendo e reescrevendo até à exaustão, até me sentir minimamente satisfeito com o resultado.”

Por trás da objectiva…

“A fotografia para mim é uma paixão, algo que me sai naturalmente, uma visão diferente de pedaços do mundo. As fotos que faço não são as minhas viagens, mas parte delas. Gosto de as ver como minhas companheiras. A paixão pelas fotos já vem desde pequeno, muitos anos antes de começar a viajar. Acho que é uma arte que se dá bem com as viagens, e, por isso, aparecem muitas vezes juntas. Olhar por trás de uma câmara é um mistério. E sendo misterioso pode, facilmente, ser apaixonante.”

Onde falta ir?

“Mais importante do que ir mais longe é saber que se está cada vez mais perto. Falta-me conhecer muito mas não vivo obcecado com isso, estou mais perto de conhecer mais, mas não sei o quê.”

Destaque

“Vou estar sempre a caminho, até ao fim da estrada…”

Gonçalo Cadilhe

Nasceu na Figueira da Foz em 1968. Licenciou-se em Gestão de Empresas na Universidade Católica do Porto. Em Abril de 1993 começou a viajar e a escrever sobre viagens de forma profissional. A partir de 1996 dedica-se exclusivamente à escrita e publicação de reportagens de viagem. “1 Km de Cada Vez”, da Oficina do Livro, é o nome do mais recente trabalho. É um viajante escritor hoje, mas amanhã pode ser o contrário: “Um escritor que viaja e, quem sabe, se anos mais tarde, cansado de tanto viajar, apenas um escritor; e quem sabe se mais uns anos depois, já descansado e gozando de uma saúde invejável para um octogenário, nem viajante nem escritor, apenas turista…. E depois, como todos nós, um dia serei apenas viajante: um viajante cósmico, errando pela Eternidade. Fechando o circulo…”.

Para o habitante do mundo, viajar é “provocar o destino para que aconteçam coisas”. Desse destino faz um caminho. Desse caminho, traz recordações: “Lembro-me da meia dúzia de vezes que estive sobre a linha do equador. Naturalmente, com um pé em cada hemisfério: aí está a expressão no seu mais imediato significado: o mundo a meus pés.” Questionado sobre o lugar que gostava um dia de repetir, responde tão simplesmente assim: “A juventude. Como dizia o Fellini, esse bem tão mal desperdiçado na mão dos jovens.”

Se lhe oferecessem um bilhete de avião, agora, ia…

“Para casa. Estou a responder desde as Molucas, já muito perto do fim do mundo…”

E levava…

“Um sorriso: abre todas as portas, vence todas as dificuldades.”

Onde falta ir?

“À outra metade da minha vida, se tudo correr de acordo com as estatísticas da esperança de vida média dum europeu moderno.”

“Viajar é provocar o destino, para que aconteçam coisas.”



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