Cool Hipnoise

Cool Hipnoise, mas o que era feito deles?

O novo álbum dos Cool Hipnoise era, sem dúvida, um dos eventos musicais mais esperados este ano em Portugal. É que, deixando de parte duas edições de ?bestofes?, o forno mais cool do país esteve a arrefecer durante uns bons 5 anos? Enfim, a este calibre existiram em Portugal apenas dois nomes que elevaram o Funk nacional ao Olimpo do Funk WorldWide. Um, mais branquinho e certinho, mais príncipinho, perdeu-se no caminho da estrada do funk (falo claramente dos Bandemónio de Pedro Abrunhosa. O que lá vai, lá vai?). Um ano depois do eufórico Verão de «Socorro» e «Não posso mais», apareciam os Cool Hipnoise. Onze anos no activo e um seguimento de cool-funk que pouco a pouco se foi transformando num roots dub-funk sound-track-funk electro-funk com um denominador comum: always cool.

João Gomes, Tiago Santos e Francisco Rebelo (o coração cool da hipnoise) aludem à necessidade de apanhar ar fresco. Criaram um grupo novo (os Space Boys, com um álbum no activo ? 2003/2004 se a memória não me engana), andaram noutros projectos musicais (sabe-se lá o quê mas um músico que não refresque as ideias e os pensamentos, sabe-se, é um músico semi-condenado à implacável lei do tempo)? até criaram família (mas quê? Será que já temos cool hipnoises aí a crescer para nos dar mais música daqui a 20 anos?… Quem nos dera? A nós que já cá estamos e aos que ainda aí virão?). Bem, já nos últimos trabalhos antes das grandes férias, ficava no ar um concentrado de trabalho do trio nuclear do grupo. ?Exótica part2 & other versions? (2001) é a sua oficialização. Pessoalmente, considero este um dos discos mais cools da história da música recente a nível internacional? Experimentem remeter a primeira faixa do disco na aparelhagem lá de casa e esperem pela entrada da tarola batida no aro com ligeiro reverb (como se quer no bom dub) no segundo tempo de cada compasso? É ?deixar entrar o sol e ver a terra dubar?.

Cool Hipnoise 2006, the rebirth

Este ano, os Cool Hipnoise também andaram a fazer arrumações lá em casa e reconstruíram a cool funk-band Portuguesa. Ao núcleo duro (João, Tiago e Francisco, respectivamente teclas, guitarra e baixo) juntaram-se novos e velhos amigos. Marga Munguambe e Milton Gulli nas vozes, Hugo Menezes nas percussões e Marcos Alves na bateria. Fecharam-se no estúdio esta passada Primavera/Verão e saíram com o novo disco dos Cool Hipnoise, sem título (ou de título homónimo), como num primeiro álbum. Mas é de facto o seu segundo ?primeiro álbum?. Enfim, o trio cool de Portugal desculpa-se de joelhos com este novo trabalho a um público sedento de Funk cá da terra.

Cool Hipnoise, o disco: músicos e músicas

A primeira característica que salta aos olhos (ou antes, aos ouvidos) deste novo disco é a sua característica multicultural de raiz essencialmente black urbana. Um disco em que o grupo mete em prática aquilo que acreditam ser, ou representar, a música como ?uma forma de comunicar, exprimir sentimentos e, porque não, tentar abrir as mentes a quem ouve?. Fala-se de amores, de sonhos, da realidade, da sociedade, da rua, da vida do dia-a-dia, do trabalho, do quotidiano? de tudo. Aliás, um disco todo faladinho em Português. Com sotaque e sem sotaque, todo certinho ou com a gramática toda escangalhada tipo ?tuga da rua?? Funk português cantado em português. Não que isso seja muito importante. Creio que a mistura linguística acaba por fazer parte da crescente interacção multicultural (também designada entre as mais altas esferas da política internacional, a globalização, mas tenho cá um pressentimento de que não falamos bem da mesma coisa? em poucas palavras, digamos que a globalização da política é aquela mais homogeneizante, enquanto aquela das artes procura mais a heterogenia das ideias? Enfim, pequenas diferenças que fazem a diferença). Mas deixemo-nos de filosofias e voltemos à música. De novo com mais banda ou, num termo que os próprios não gostam muito mas aceitam, em formato mais orgânico e um pouco menos de produção de estúdio. The rebirth of Cool Hipnoise.

Ao premir play, sobe o pano sobre o palco da nossa «Caótica República», com uma guitarrinha e um bombo sambado que se encarregam de nos introduzir à secção mais exotic-oriented do som do disco. Uma reggaelhada sambada meio socializada e de estrada, que se cola a um dub electrónico de baixo pesado. A deliciosa voz da regressada Marga (que esperava ali calminha no sofá pela segunda faixa do disco?) envolvida em orgãozinhos e triângulos carregadinhos de toda a leveza do reggae. Quando o disco marca o terceiro tempo chega-nos a música da berra (já o é mas vai provavelmente continuar a subir). O grau multiétnico que Lisboa orgulhosamente ostenta aos olhos de toda a Europa a manifestar-se nas correntes musicais actuais chegou também a casa dos Cool Hipnoise (que pode hibernar de vez em quando por cinco anos, mas quando acorda ?não dorme em serviço?). É o Palop rhythm meio reggae a puxar ao kizomba, quase kuduro. Sotaque black lisboeta, puro e do melhor. A Marga chateada com o emprego? mas cagando para isso, afinal de contas é sexta-feira e chega aí a Weekend Fever, por isso toca a Kitar essa dama que é caso para dizer que a vida são Dois dias e se calhar um é sábado e o outro é domingo!

Chegamos ao quarto tema e daqui para a frente é um ver se te avias de funk de todos os tipos, géneros e feitios. «Katinga» é o funk de break old-school com toque um pouco jazzistico. Letra sim, mas pouca coisa, é mais palavras soltas com o people cool todo a curtir o porque é Black, é Funk, é ?Katinga?, ?é o nosso funk?.

«Dias de confusão» é o som de classe do disco. É o cool funk de Outono/Inverno; 11 da manhã, já no carro; direcção: algures fora de lisboa, chuva miudinha a cair no pára-brisas? Introdução de vozes em ?han han? e arranjo de cordas (um ?bem haja? para o senhor Tomás Pimentel) a encaixarem suavemente e com grande classe na secção rítmica completa. Cada elemento perfeitamente encaixado a acompanhar a melodia so very soul. Senhores e senhoras, isto é som cool. A guitarrinha funk-wahwah suave do Tiago, com as teclas groovy do João, o baixo tranquilo e redondo do Francisco a apoiar na perfeição os breaks no mid-tempo com prato de choque aberto no final do compasso do Marcos e os chocalhos balanceantes do Hugo. Mas enfim, trata-se dos 7 magníficos do funk Português, eles sabem o que fazem? E fazem funk.

E não podia chegar em melhor altura o tema mais poderoso do disco. «Escanifobética» é o funk disco que todos sonhamos ouvir numa sexta-feira à noite a curtir por bares e discotecas deste país fora? O bum chack bum chack a lembrar-nos que aquele último copo provavelmente caiu já fora do ?relatório de contas alcoólicas? da noite. E que porventura aquele mover das pernas à James Brown tem qualquer coisa de involuntário e inevitável. Ah pois, é o baixo quem comanda o movimento. Teclas a homenagear os sons electrónicos Hancockianos dos 70. É todo um groove funky disco que provavelmente já anda aí a contaminar muitas pernas nas noites lusas. Tenham cuidado que a missão é: groove or get grooved.

O «Labirinto» acalma-me um pouco. ?Aguardo o teu regresso, não tenho onde ir, por isso o confesso, lembra-te de mim?, leva-me de facto para os labirintos vocais da Marga rap(t)ados pelo Milton lá atrás. Seja ao duo vocal ou a quem compõe os arranjos melódicos das vozes, um grande ?bravo?. Aqui fica um exemplo de um Refrão (com R maiúsculo) de groove contagiante.

«Dá-me Dá» leva-nos de novo à noite. Afro-Lisbon by night! Preparemo-nos porque também esta vai girar nas disco por Portugal fora. Cinco minutos de puro Afro Funk de século XXI. Nas próprias palavras dos membros dos CH ?É normal. Lisboa acaba por ser um pouco um ponto de encontro de diferentes gentes com diferentes origens e culturas. Talvez pela nossa posição, ou o nosso clima, se calhar também pela nossa história, cultivamos fascínio próprio pelo atlântico, a África, o Brasil. São as comunidades com que nós mesmos nos damos e que acabam por nos influenciar?. (in Expresso podcast)

À nona faixa o grupo mete «tudo a nu». Puro soundtrack groove blues. É a banda sonora instrumental de um clássico policial black power anos setenta. Algumas vozes com poucas frases a acompanhar esta versão (que volta depois a ser usada para o fecho do disco). Sim, porque não iam ficar ali o Milton e a Marga a olhar para a banda toda a curtir uma jam groovy session. Mas já lá voltamos.

«Sexy», é exactamente o som sexy do disco. Se quisermos um funk-chill-out tipo bar vintage style, calças à boca de sino e cabeleira afro. Uma inevitável chamada de atenção para a bateria (lembrada com esta introdução). Há pelo menos duas características fundamentais num bom baterista: uma (e com particular incidência quando de funk se trata) é a sensibilidade ao tempo. Aquilo que pode parecer um requisito básico e elementar não o é por nada, e pode fazer a diferença entre uma excelente banda de funk e uma banda de funk ?assim assim?. Enfim, levar o tempo certinho sem um mínimo deslize em qualquer break que seja, é? bem, basta ver o resto do grupo todo a groovar em cima sem parar como quem não quer mesmo mais nada na vida? A outra característica é ter swing e groove nas veias. Este rapaz reúne as duas qualidades e, depois da surpresa inicial de ver este velho amigo da escola de música no seio de um dos meus grupos funk preferidos, a conclusão foi imediata: é uma ligação perfeita. Obrigado em nome do funk!

Para «Não vou trabalhar» oculto as minhas de palavras e endereço o discurso completamente para a Marga. É ouvi-la cantar a canção que vai acompanhar o pequeno-almoço dos nossos próximos sábados. Como a mesma Marga dizia para o Expresso (in Expresso podcast): ?Nós falamos de coisas reais, aquilo que toda a gente vive, e às vezes as pessoas ao ouvirem a nossa música reconhecem a sua vida e as suas cenas. Por isso identificam-se e gostam e vivem as coisas talvez com outra alegria, com ritmo, com musicalidade? Como é que tu vais dizer ?eu hoje não vou trabalhar?? Nós temos uma música para dizer isso.? Grande Marga para o fecho ?oficial? do álbum de regresso dos Cool Hipnoise!

A 12ª badalada do disco é uma curte do pessoal cool da crew cool hipnoise. Convidam amigos. Vem a Mariza, o Sam the Kid, o Regula, e o tal sound track blues funk ?todo nu? de antes veste-se agora e serve de panóplia sonora à aventura dos dois Rappers portugueses num concerto em Viseu. Mas, pelo menos, esta fica em suspense para ouvir no disco. Vale a pena!

A onda hipnótica do funk e do cool voltou a Portugal. A espera foi longa, mas valeu a pena. Fica no ar música para uns muito longos próximos tempos, para a disco, para a rádio, para casa, para o carro, à sexta-feira, ao sábado, de domingo a domingo! Cool Hipnoise, estais perdoados! Mas não voltem a fugir assim de nós que vos queremos sempre mais e pertinho!



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