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Corinne Day

Fotografias do outro lado do espelho.

Em 2007, a National Portrait Gallery, em Londres, pediu à fotógrafa inglesa Corinne Day que fotografasse a modelo Kate Moss. Os retratos teriam de conseguir criar uma nova aura de luminosidade e frescura na imagem de uma das mulheres mais fotografadas do mundo, algo que a própria galeria não tinha certeza se seria possível. Quase duas décadas antes, Day tinha fotografado uma menina de dezasseis anos para a capa da extinta revista Face, de forma crua e subtilmente provocatória, renovando os padrões fotográficos da época. E com os retratos para a National Portrait Gallery voltou a fazê-lo.

A menina era Moss e as fotografias catapultaram-na para a fama…e para a polémica, assim como a Corinne. O editorial de oito páginas, “The 3rd Summer of Love”, publicado em Junho de 1990 e fotografado em Camber Sands, East Sussex, incluia fotografias da modelo semi-nua (outras onde era perceptível que estava mesmo nua), em poses algo infantis e espontâneas, que foram publicadas sem retoques, pois Corinne era ela própria uma ex-modelo, preferindo a naturalidade a imagens irreais. Moss tinha apenas dezasseis anos quando foi fotografada.

O editorial marcou o inicío do movimento heroin-chic, remeniscente de outro movimento dos anos 60, denominado waif. Ambos faziam a apologia de modelos femininas magras e com estruturas ósseas acentuadas, muitas com olheiras profundas  e ar de drogadas. A diferença é que nos anos sessenta, as modelos eram apenas magras, como Twiggy, e nos anos noventa a heroína tinha alcançado uma aceitação social muito maior, pelo que o ar andrógeno e pouco curvílineo de Moss foi imediatamente associado à comunidade que consumia drogas, aos jovens despreocupados e a uma época em que a apologia da magreza marcou definitivamente os cánones da estética.

O percurso de Corinne desenvolveu-se então paralelamente em duas vertentes fotográficas. Influenciada pelo olhar realistico-documentativo de Nan Goldin (famosa fotógrafa americana), Day procurou sempre retratar o que a maioria não via ou não queria ver, momentos cândidos e privados, momentos intímos, mesmo quando esta intimidade não era bonita ou feliz. A sua obsessão em captar a vida em todas as suas variáveis levou-a a pegar numa câmara, pela primeira vez, incentivada por Mark Szaszy (aquele que viria a ser o seu companheiro de toda uma vida), para fotografar a sua vida e a das suas amigas, enquanto modelos.

Desde esse momento que se designava como uma photography junkie o que a levou, anos mais tarde, a obrigar Szaszy a documentar toda a sua doença (Day foi diagnosticada, em 1996, com um tumor maligno no cérebro), tal como ela própria documentara o dia-a-dia confuso de muitos dos seus amigos, drogados ou em reabilitação. Fotografias como as de Tara St Hill, uma mãe solteira de vinte e poucos anos, durante a gravidez ou em lágrimas caida no chão, em festas ou completamente bêbada, nua a subir umas escadas ou a rir, respondem provocatóriamente à tentativa de esconder o lado mais obscuro das pessoas.

Do seu portfólio visual nasceram duas exposições, inauguradas em duas galerias londrinas, no ano de 2000, apenas com um dia de diferença: Tara, composta por fotografias da sua amiga e Diary, uma das mais complexas e fortes do seu trabalho, com fotografias profundamente intímas de familiares, amigos, lugares e momentos da sua vida, por vezes inusitados, como Jim fotografado a sangrar da cara, provavelmente depois de uma luta, ou a cadela que morde furiosamente os cabelos de uma boneca suja.

Estéticamente desequilibradas, mas não menos cativantes, sem quaisquer retoques e sem tempos de reacção, as vidas que Day capta através da sua lente revelam muitas vezes as pessoas em momentos em que elas se permitiriam ser as únicas observadoras de si próprias. Existe algo de voyeur nas suas obras, algo que obriga a espreitar pelo buraco da fechadura para ver o que se passa dentro de portas, dentro de cada pessoa.

Lado a lado com a fotografia intimista, Corinne desenvolveu um outro tipo de trabalho, um pouco antagónico do primeiro, fotografando inúmeros editoriais de moda e desfiles, algo que ela própria admitia não gostar.

Especialmente porque o lado belo e sexual, de negócio da moda, não lhe permitia criar imagens fortes como pretendia. Em 1993, um editorial para a Vogue inglesa, onde Kate Moss aparecia no seu próprio apartamento, causou algum burburinho no meio, pela sua expressão crua, não-tratada e pouco glamurosa.

Corinne afastou-se e cortou relações com a Vogue, dedicando-se à sua outra fotografias, reaparecendo em cena no mundo da moda apenas sete anos mais tarde, quando passou a colaborar com a Vogue Inglesa, Italiana e Japonesa regularmente. O pacto que fez com a Moda, teve como principal razão, o dinheiro que conseguia com as suas produções, já que Day mantinha as suas crenças na falsidade e brevidade dos retratos perfeitos, através dos quais pretendeu sempre mostrar como a beleza das modelos, os vestidos e os fabulosos cenários pudessem e fossem desaparecer a qualquer momento.

Corinne Day faleceu a 27 de Agosto deste ano, após um longo período de doença. Os seus retratos intimistas e as suas produções de moda marcaram toda uma estética fotográfica, obrigando-nos a entender que nem sempre a beleza é alegre e que nem sempre a tristeza e o nosso dia-a-dia são indignos de serem memoráveis. Day trasmutou momentos intímos e dolorosos, pouco felizes ou mesmo sem qualquer relevância visual, em algo que marca profundamente o ser humano, algo tão básico mas ao mesmo tempo tão ilustre como os momentos banais que vivemos.



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