“Corpos Subtis” | Norman Rush

“Corpos Subtis” | Norman Rush

O sentido da vida

O tema da amizade em tempos universitários encheu já muitas páginas e ecrãs de cinema, ainda assim nunca se deve fechar a porta a novas abordagens e recriações. “Corpos Subtis” (Quetzal, 2014), o primeiro romance de Norman Rush publicado em Portugal, é um exemplo de como é sempre possível reinventar, com muita arte, engenho e sentido de humor (negro), um tema já muito explorado.

«Os orgãos genitais têm vida própria». É com este pensamento filosófico, vestindo apenas roupa interior, que tem início a história de Nina e Ned, que estão a tentar conceber um filho num projecto 100 por cento da autoria de Nina no qual Ned embarcou como se estivesse tomado pelo Valium.

Quando recebe a notícia de que Douglas, o seu grande amigo e mentor dos tempos de estudante, faleceu, Ned sai disparado de casa, deixando que o atendedor de chamadas avise Nina da sua decisão. Douglas era o grande líder de um grupo de amigos – que incluia Ned -, que teve sobre todos eles uma influência que se estendeu muito para lá dos anos de escola, e que agora se irão reencontrar a propósito de uma triste e estúpida fatalidade: «Douglas morrera quando o seu trator de cortar relva o atirara para uma ravina e lhe aterrara em cima, porque o solo cedera. Ou seja, ele já tinha sido enterrado uma vez».

A postura politicamente correcta de Ned é compensada pelo espírito extrovetido de Nina que, a par dos comentários trocistas – é dela as duas citações anteriores -, parte em busca do marido, tentando que o momento de procriação esteja de acordo com a vontade dos ciclos corporais e das estrelas – algo que certamente herdou da sua mãe, apaixonada pela astrologia de vão de escada.

“Corpos Subtis” faz-nos reflectir sobre os fios construtores da amizade, e da forma como conservamos ou deixamos cair pessoas que, a certa altura da nossa vida, surgiram a nossos olhos como irmãos ou deuses; ou, também, da forma como nos deixamos conquistar/manipular por corpos subtis, deixando que sejam os ideais alheios a conduzirem-nos estrada fora.

Norman Rush escreveu um romance carregado de negrume que, atravessado por um sentido de humor refinado e uma ironia extrema, permite a epifania da redenção, descobrindo, mesmo numa aparente derrota, o verdadeiro sentido da vida.

 

“Mating”, o livro que valeu a Norman Rush o National Book Award, terá em breve edição nacional pela Quetzal.



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