“Correspondências”, Rita Azevedo Gomes

“Correspondências”, de Rita Azevedo Gomes

Um documentário poético e emocional. O filme vencedor do DocLisboa 2016 estreia nas salas de cinema a 8 de Março de 2018.

Como se filma, como se captura a poesia? Possivelmente, não existe apenas uma resposta mas uma miríade de respostas, admitindo igualmente a existência de diversas perguntas que pairam sem necessariamente terem de ser respondidas. Múltiplas são as visões e hipóteses.

A perspectiva de Rita Azevedo Gomes nasceu de um processo criativo lento mas certo, caótico mas ordenado, apesar da aparente contradição lógica, e percorre o largo espectro temporal em que Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena se correspondiam por carta, durante o exílio do escritor. Entre Brasil e Estados Unidos da América, Sena não mais retornaria a Portugal mas não perdeu a ligação ao país, tendo visitado algumas vezes.

(…)um olhar melancólico, longo e lânguido sobre a memória, o passar do tempo e as paisagens que, sobre tudo em Sophia, a poesia percorre

Neste documentário que poderia ser descrito como pouco ortodoxo, Rita Azevedo Gomes plasmou inevitavelmente o contexto do Portugal fascista, o ambiente, o medo, a perseguição mas também e sobretudo as posições apolitizadas de ambos Sophia e Sena. A apolitização não isentou, contudo, ambos os intelectuais e escritores de serem escrutinados pelos serviços secretos portugueses, no país como fora dele, como efectivamente foram. Apesar de sem consequências graves, Sophia era especialmente eloquente no que tocava à falta de liberdade de falar e pensar, por isso mais forte que a prisão era o medo naturalmente imposto, incutido, sobre a liberdade de pensamento e o obscurantismo a que os intelectuais se encontravam votados.

Poeticamente, Rita Azevedo Gomes traz para junto de si uma série de actores para, por um lado, encenar os escritos e, por outro, declamar simplesmente, por intermédio desses mesmos actores, directamente para a câmara (com direito a avistar aqui e ali o processo de filmagem e intimidade entre os elementos da equipa). Fá-lo, inclusivamente, de um modo declaradamente universal, para lá da inescapável universalidade que a linguagem poética encerra. Chama, pois, figuras de outros países para declamarem a poesia de Sophia e Sena nas suas línguas nativas, lendo ora as epístolas ora a obra poética de ambos.

O que transparece no documentário, para além da forte relação intelectual e de amizade entre os dois escritores, é um olhar melancólico, longo e lânguido sobre a memória, o passar do tempo e as paisagens que, sobre tudo em Sophia, a poesia percorre. É recorrente a imagem do baloiço em movimento, remetendo tanto para as memórias de infância ou de pureza que a infância mantém, como para o movimento de ideias e agitação intelectual separado da existência no mundo físico, muitas vezes opressor da liberdade criativa. A ideia que opõe movimento e fixação surgirá diversas vezes nos momentos em que Rita Azevedo Gomes filma a natureza de Sophia, quer nos rochedos simbolizando, talvez, o elemento de apoio, de força e, ao mesmo tempo, de imobilidade nos mares incertos do tempo que passa; quer no movimento fixo, sem contradição, dos ventos que fustigam as dunas, esboroadas e modificadas, em constante metamorfore mas resistentes nas suas raízes.

São as ligações emocionais que ligam os homens, alheias às distâncias; são as correspondências intelectuais, alheias aos tempos persecutórios(…)

O tema parece recorrente nas imagens captadas pela realizadora e na obra dos autores: o tempo que passa alheio aos homens e à poesia mas completamente impregnado de humanidade, um tempo de clássicos, de estátuas, do Minonatauro, de Delfos, de mitos e a incrível e branca luz grega (que simultaneamente ilumina e quase cega).

Estas “Correspondências” de Rita Azevedo Gomes estão centradas literalmente nas cartas sem tempo (as que permanecem nas gavetas e na memória) e com tempo (o dos homens, do fascismo, da sobrevivência em solo estrangeiro onde as inconveniências são intemporais); mas existe igualmente subjacente a ideia de ligação de mentes que se correspondem, de gentes cujos interesses comuns (não tanto a idade ou o género ou qualquer outra limitação do corpo físico) impulsionam a que se juntem para ler, ouvir e ver Sophia e Sena já longe da sua existência física. São as ligações emocionais que ligam os homens, alheias às distâncias; são as correspondências intelectuais, alheias aos tempos persecutórios; são os estreitos laços plasmados em tons de Super 8 mas vivos no mundo digital, até ao momento que o espectador se senta hoje na sala de cinema, sereno entre mundos díspares, certo da imutabilidade que o ilude.

“Correspondências” dispensa apresentações no seu périplo pelos festivais de cinema por esse mundo fora, em Portugal e no exterior, tendo ganho o prémio de melhor documentário do Doc Lisboa ’16, Melhor Realizadora nos Caminhos do Cinema (Coimbra) e nomeações em Edimburgo, Locarno e Buenos Aires. Produzido pela C.R.I.M., conheceu estreia mundial em Agosto de 2016 precisamente no Festival Internacional de Cinema de Locarno e tem estreia comercial nas salas portuguesas marcada para 8 de Março.



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