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Couchsurfing

Nem feios, nem porcos, nem maus. O que leva cerca de 2 milhões e 300 mil pessoas a abrir a porta de casa a estranhos? Ou a preferir dormir num sofá desconhecido ao invés de uma confortável cama de hotel?

Quem diz sofá, diz colchão, diz um pedaço de chão com espaço para um saco-cama, num corredor. “O couchsurfing não tem a ver com a mobília” (ou a falta dela), garantia da própria organização que contém esta inscrição várias vezes ao longo do site. É favor também tirar da cabeça, a ideia de que o couchsurfing é apenas uma solução para viajar em tempo de crise ou tão pouco a resposta à pergunta que qualquer um de nós já ouviu de um amigo, conhecido ou amigo do amigo: posso dormir aí hoje?

Na comunidade couchsurfer é o mundo que convida a ficar em sua casa, servindo-se dos anfitriões dispersos pelas 79 mil cidades ali representadas. O que importa são os laços que se criam. Não são só portas de casa que se abrem, são também lugares, pessoas e vidas. Não há forma mais “íntima” de conhecer o mundo como o surf de sofá em sofá. Garantia da organização.

No início era a Internet

Longe da pretensão de querer ser um Couchsurfing for dummies, pode dizer-se que tudo começa na Internet. Mais concretamente, tudo se centra em torno do perfil criado no site da organização. Numa época de abundância de redes sociais e em que escassos são os que não andam à procura de telhas e tijolos para os estábulos das suas vaquinhas que dão leite com chocolate, a personalização do perfil na rede de couchsurfers reveste-se de importância. É através dele que hóspede e anfitrião têm o seu primeiro contacto.

Gil Sousa, 27 anos, de Lisboa, considera que ler o perfil é a primeira coisa a fazer, quer se esteja do lado de quem entra ou de quem recebe. “Se não nos identificamos com a pessoa a quem vamos pedir o “sofá”, nem vale a pena enviar o pedido. Isso é meio caminho andado para uma experiência menos boa”, acrescenta. O perfil deve conter gostos, hobbies e sobretudo uma descrição detalhada do espaço a ocupar para que não haja nenhuma surpresa desagradável. Há quem prefira deixar, desde logo, algumas regras de utilização da casa assentes para que os futuros hóspedes não caiam em tentação de fazer do cómodo sofá, um hotel.

Desenganem-se os que pensam que hospedar couchsurfers é o equivalente a albergar um conjunto de pessoas com o estigma de uma invenção hippie-freak. A preconização de feios, porcos e maus não faz qualquer sentido. Gil Sousa e Anita Lisboa são couchsurfers desde 2008, Neimar Guerra já o é desde 2005. São, nem mais nem menos, do que um Engenheiro de Informática, uma Mestrada em Economia e Marketing Estratégico e um Analista de Sistemas.

E, afinal, o que leva alguém a querer tanto o sofá alheio? Anita, que viaja com Lisboa no nome, viu no couchsurfing uma oportunidade de conhecer pessoas fora do seu círculo social e, acima de tudo, “visitar cidades através dos seus olhos”. Por sua vez, Gil Sousa confessa que as razões que o levaram a experimentar não foram “as mais nobres”, pois procurava simplesmente uma forma barata de viajar. As expectativas, essas, não podiam ser piores. Na sua primeira viajem, com destino a Praga, imaginou cenários dignos do filme “Hostel”. “Quem pensa em dormir em casa de estranhos só pensa em riscos, e eu só pensava em mitos urbanos e que iria acordar numa banheira cheia de gelo. Durante a viagem de comboio o meu amigo não parava de me dizer para fazer um tracejado com um marcador na zona dos rins para facilitar a tarefa dos anfitriões”.

Catálogo de Sofás

A segurança é uma das primeiras questões a colocar em cima da mesa de um couchsurfer. Ao abraçar uma experiência deste tipo, é habitual que o pensamento seja invadido com perguntas: será que a pessoa que me recebe é de confiança? E a casa, terá condições? A comunidade couchsurfer dispõe de um sistema de verificação que, não sendo infalível, cobre as necessidades do sistema. Primeiro, o couchsurfer faz uma doação à organização e depois têm de fazer prova de quem é e do sítio onde reside. Para além dos membros verificados, há o sistema de vouching que reforça laços entre couchsurfers. Um voucher dado a outro membro, significa o total apoio dado às suas acções.

Neimar Guerra é verificado e dá preferência a outros sofás que o sejam. “Penso que um membro verificado é uma pessoa mais comprometida com o projecto, pois preocupa-se com a segurança e quer demonstrar aos outros membros que é uma pessoa idónea”. Por sua vez, Gil Sousa acha o sistema de segurança da organização suficiente: “Aos meus pais disse que fazer couchsurfing é como atravessar uma estrada, mesmo se olharmos para ambos os lados podemos ser atropelados por algum louco, mas minimizamos esse risco se prestarmos alguma atenção.”

Todos concordam que a ferramenta principal de defesa é o perfil online. Através da informação lá contida, pode evitar-se uma experiência mais desastrosa. Para além disto, Anita Lisboa aconselha a seleccionar apenas 4 ou 5 possíveis anfitriões, em vez de enviar propostas formatadas a dezenas de pessoas. Uma proposta personalizada é meio caminho andado para uma experiência fantástica. A juntar a isto, Gil Sousa recomenda também que a viagem seja feita com um acompanhante, para ajudar à descontracção, e que, ao chegar, o anfitrião seja incluído nos planos de estadia.

Más experiências, ninguém está livre de as ter. Neimar, de 29 anos, considera que alguém mais tímido pode constituir uma dificuldade. Contudo, isto não constitui regra. Gil Sousa foi a Istambul e queria companhia. A única pessoa que lhe acedeu ao pedido, resolveu passar todo o dia a reclamar, tornando a experiência algo desagradável. “No final do dia disse-me que namorou com um turco, que sabia que ela estava em Istambul e que nada lhe disse. Percebi de imediato o motivo do mau humor constante da senhora”.

Mas Istambul não ficou marcada irreversivelmente, pois serviu também de palco a uma das melhores experiências do mesmo couchsurfer. Durante os cinco dias passados naquela cidade, o anfitrião levou-o a conhecer os seus amigos e outros locais menos turísticos, o que lhe possibilitou conhecer a cidade e não apenas visitá-la. Como gesto de gratidão, Gil Sousa costuma levar na bagagem algo tipicamente português. “Naquele caso vinha de Atenas e nada tinha para oferecer… numa conversa, ele referiu adorar melancia e no dia comprei uma, num mercado turco. Andei um dia inteiro a carregar uma melancia de 3 ou 4kgs, mas valeu a pena pela reacção de surpresa que ele teve”.

As melhores experiências não estão reservadas apenas aos hóspedes. Anita, de 33 anos, recebeu uma norte-americana, que vivia em Frankfurt, e descobriu que tantas eram as coisas que tinham em comum, que a sensação foi a “de receber uma amiga de longa data em sua casa”. Neimar Guerra já recebeu no seu sofá mais de 70 pessoas mas, graças aos encontros que a comunidade organiza, já conheceu milhares. Em Lisboa, por exemplo, às quartas-feiras há um encontro semanal e no primeiro sábado de cada mês realiza-se o jantar mensal.

Os embaixadores do couchsurfing são normalmente responsáveis pela organização desses meetings. Existem os embaixadores nómadas, de cidade, de família, do país, global e embaixador alumni. Anita é embaixadora da cidade de Lisboa e esse cargo não está reservado a qualquer um. “O processo de candidatura é submetido a análise e são contactados via mensagem confidencial vários membros do grupo da cidade a que nos propomos, com vista a obter a sua opinião pessoal sobre nós”. Depois segue-se um treino exaustivo, acompanhado de um mentor, e um teste com base em 12 capítulos de informação relativa ao couchsurfing. Neimar já é embaixador Alumni, ou como costuma dizer “já está na reforma”, depois de já ter sido Nómada e de Cidade. Gil Sousa é um Nómada essencialmente encarregue das boas-vindas aos novos membros na capital.

Bem-vindos são todos. A máquina de criar experiências que é a comunidade couchsurfer tem como base a visão de “um mundo onde todos podem explorar e criar ligações importantes com as pessoas e os sítios que encontram”. Aqui, todos trabalham dedicadamente para criar um mundo melhor, “one couch at a time”. Neimar, Anita e Gil já visitaram a República Checa, Alemanha, Áustria, Eslováquia, Noruega, Suécia, Finlândia, Estónia, Argentina, Espanha, Inglaterra, Rússia… quais serão as suas próximas paragens?



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Existe 1 comentário

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  1. claralisis

    Na minha primeira experiência fui com a ideia "receber? nem pensar…" mas tudo começou porque precisava de descansar uns dias sem gastar muito dinheiro!!!
    Em 4 dias enquanto CS (em San Sebastian, já agora) e enquanto hóspede, ofereci o meu sofá por 5 vezes… os convites iam saindo… um chorrilho de convites!!!!
    Primeiro, ao meu anfitrião, por simpatia; depois à housemate dele, por empatia imediata; a duas amigas austríacas CS's que o meu anfitrião recebeu em simultâneo, porque vinham para Portugal "faço questão que fiquem na minha casa"; ao australiano que também se cruzou comigo lá por casa do meu anfitrião; e por fim, a um casal canadiano do Quebec, este sim, um convite ponderado "why not??" pensei eu!!!
    Não os recebi a todos, mas o Efix e a Christine (casal Canadiano) ficaram em minha casa 5 dias, nesse mesmo Verão… e foi maravilhoso… tivera eu dias de férias para estar com eles e mostrava-lhes tanta coisa… ainda assim, as noites eram nossas… mostrei-lhes a melhor tasca da margem sul; a praia com rochas, a praia sem rochas, a praia com falésia.. tudo em 5 minutos de carro (vá, 15 minutos de carro); mostrei-lhes Sesimbra; a noite do Bairro Alto (pois claro) e ainda passámos uma noite fechados num bar ranhoso onde costumo passar as minhas noites com os meus amigos que também eles se transformaram em CS's por um bocadinho!!!! Aprendi tanto com eles!!!!
    A Jessica (housemate do meu anfitrião em San Sebastian) ficou na minha casa uma noite deste Verão com mais duas amigas porque precisavam de um sítio para passar uma noite, vinham de França e ia para Sagres! Chegaram num Sábado e apesar de eu estar a regressar das minhas férias, de vir com aquele cansaço que é tão característico do regresso de férias, e de não ter nada em casa para lhes dar de comer… pedi à minha mãe para me comprar frescos pois as raparigas podiam precisar de comer qualquer coisa… a minha mãe perguntou "quantas são?" "são 3 raparigas mãe"… Deixou-me no frigorífico 4 maçãs, 4 ameixas, 4 laranjas, 4 iogurtes líquidos e deixou em cima da mesa 4 pãezinhos com um bilhete "é só para não dares fome às raparigas e já agora come também qualquer coisa"… também ela uma anfitriã… no dia seguinte acordei às 5H50 porque o autocarro delas era às 6h30 em 7Rios e eu fiz questão de as levar de carro…
    Balanço: para quem só queria fazer umas férias um bocadinho mais baratas no Verão de 2009… nada mal, hein!?


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