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“Couleur de peau: Miel”

Uma autobiografia diferente, contada na primeira pessoa

Em 2009, Jung lança o livro de banda desenhada “Couleur de peau: Miel”, obra homónima e ponto de partida para o filme. E começa aqui a história de uma vida.

Aos 44 anos, Jung Henin volta a Seoul, na Coreia, pela primeira vez, depois de lá ter sido abandonado aos cinco anos. Jung prefere colocar como data de nascimento a idade desses cinco anos, quando um polícia o encontrou a vaguear pelas ruas de Seoul, e o levou para um orfanato. Ele foi um dos 200.000 coreados adoptados, espalhados pelo mundo, numa fase onde adoptar crianças da Coreia era “moda”. Depois de guerra da Coreia, em 1971, Jung Sik-jun é adoptado por uma família Belga, e transforma-se em Jung Henin.

Jung decidiu voltar, pela primeira vez, à Coreia do Sul, para perceber quais as suas raízes e conhecer o País onde nasceu, pisar a terra dos seus antepassados, e tentar conhecer a sua mãe biológica, perceber o porquê de não ter ficado com ele. Uma mãe que ele desenhou várias vezes, de diversas maneiras, mas que nunca chegou a saber se corresponde ou não à sua verdade.

Esta é uma viagem de reconciliação com as suas raízes e consigo mesmo, filmado como um documentário, e que leva a nossa mente para a infância através das sequências de animação. O filme fala ainda sobre a solidão e sobre o desconhecido, de perceber de onde se veio e porque se foi rejeitado ao ser entregue para adopção.

Mais que uma realização de filmes de animação para adultos, “Couleur de peau: miel” é uma nova ilustração de quão profundo e inovador este género de filme pode ser, e não reservado apenas para as crianças. Co-realizado com Laurent Boileau, Jung poderia ter criado uma série de memórias de infância coloridas, dando lugar a um filme alegre e colorido, mas não o fez. Jung colocou a fasquia muito alta, recusando a anedota. O seu guião é extremamente profundo a nível emocional, e fala das noções de adopção, guerra, solidão e isolamento, relações familiares e da identidade de um indíviduo – um ponto que o artista foca com bastante ênfase.

“Couleur de peau: miel” não é apenas sobre a vida Jung enquanto criança e adolescente, mas principalmente sobre o que sentia, tanto consciente como inconscientemente; e nem é uma ode a Jung como um mártir, uma vez que o autor mostra, sem quaisquer tabus, que foi difícil ser criança e não esconde todas as pequenas asneiras que fez durante o seu percurso de vida. O resultado de tal abordagem é impressionante. Raramente um filme de animação é tão eloquente sobre o que é ser uma criança adoptada a partir de uma civilização diferente, mas também sobre o que significa ser os pais dessas crianças.

Uma história divertida e comovente, um pequeno filme que cativa desde os primeiros minutos. Mas o ponto alto é alcançado nas cenas finais, quando o jovem finalmente chega a um acordo com seus pais – em particular com sua mãe adoptiva, incapaz de expressar o seu amor por Jung, e, finalmente, com o seu País de origem, a Coreia, acabando assim também por chegar a um acordo com ele próprio.

Outra qualidade a ser mencionada é que 75 minutos são suficientes para que Jung e a documentarista Laurent Boileau lidem com uma questão tão complexa plenamente. Uma mistura de técnicas, o filme varia entre sequência de documentário, como imagens reais da vida de Jung, com imagens do seu imaginário e sequências de animação em duas dimensões, incluindo também arquivos fotográficos.

Admiradores de filmes como “Persepolis” e “Waltz With Bashir” (uma obra-prima da animação), seria estranho se não gostasse deste filme. Crianças com menos de 10 anos não vão, certamente, apreciar da mesma maneria que um adulto esta obra, uma maravilhosa combinação entre documentário e animação.

Sessões na Festa de Cinema Francês

LISBOA | CINEMA SÃO JORGE | 5 OUTUBRO | 17H com a presença do realizador Jung Henin
LISBOA | CINEMA SÃO JORGE | 11 OUTUBRO | 10H30 | Sessões Escolares



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