Courtney Barnett|”Tell Me How Your Really Feel”

Courtney Barnett | “Tell Me How You Really Feel”

Ao segundo álbum, Courtney Barnett sentou-se no divã e com ela sentou-nos a todos para fazermos terapia.

Poder-se-ia pensar que a cantora australiana tem 120 anos e 50 de carreira mas não é o caso e que isso seria impensável de acontecer agora, ainda tão cedo, especialmente porque o álbum de estreia foi um surpreendente sucesso comercial mas também junto da crítica. De repente, a tímida Courtney era anunciada em todas as publicações que interessam como a próxima Bob Dylan, já para não falar de outras infindáveis comparações que fazem algum sentido mas, na prática, retiram um pouco do mérito e caminho próprio desta talentosa cantora e compositora. O que é certo é que muita da magia que tinha feito parte do processo criativo de “Sometimes I Sit and Think and Sometimes I just Sit”, nomeadamente por não haver nenhum tipo de pressão, acabou por se diluir no rescaldo ou ressaca do sucesso daquele trabalho de estreia. Se Courtney Barnett já era atreita a neuroses, a partir dali a pressão adensou-se e começou o grande bloqueio criativo que se transformou em terapia e, felizmente, neste que é o grande sucessor de “Sometimes I Sit”.

Em “Tell Me How You Really Feel”, Barnett deixou-se definitivamente de brincadeiras e mesmo aquele admirável tom entre o cínico e o pungente parece ter dado lugar a algo mais palpável em termos de discurso. Courtney Barnett parece ter aterrado num planeta real mas sem que isso tenha comprometido a sua identidade, muito pelo contrário, o seu segundo trabalho é um belíssimo acordar do sonho, talvez o sonho do sucesso que não havia sido antecipado. Foi necessário à cantora retirar as máscaras da juventude, até no que toca à arte presente no álbum, que deixou de estar centrada nos seus desenhos para dar lugar a mostrar precisamente e sem artifícios a sua própria cara, um auto retrato em forma de polaroid que nos obriga quase a confessar tudo o que nos passa pela cabeça no momento. Ao mesmo tempo, é uma imagem de espanto e admiração da própria cantora, como se não estivesse à espera daquilo que descobriu ou fosse uma acidental viagem emocional que começou por ser qualquer outra coisa. No fundo, tratou-se do modo como Courtney Barnett se transmutou para a maturidade da sua vida musical, não esquecendo contudo que, apesar dos bloqueios criativos, já tinha tido algum tempo para limpar o palato musical durante a sua aventura com Kurt Ville e que nos trouxe o aboluto deleite de um álbum tão sincero e despreocupado quanto os seus intérpretes. Foi precisamente esse trabalho, bem como a colaboração com a companheira e também cantora Jen Cloher no seu álbum, que acabaram por tornar as águas mais claras para Courtney que deixou de parte a necessidade de fazer o seu álbum em nome próprio como uma peça de intervenção social e política.

Depois de sair da sua Austrália natal para tantos quilómetros de estrada, Courtney era outra, as horas de silêncio no carro ou no avião tinham-na colocado frente a frente consigo mesma e o jogo mudou. Contudo, se “Tell Me How you Really Feel” parece inicialmente ter baixado o tom ou o entusiasmo com que Barnett nos tinha presenteado no passado, é certo que as fórmulas que nos fizeram apaixonar pela cantora continuam lá. Aquilo que atrai nessas fórmulas é não serem fórmulas e a sinceridade de admitir fragilidades e fraquezas que parecem autobiográficas puxam o público para este trabalho com uma admiração ainda maior que anteriormente. Dona de uma brilhante capacidade de escrever letras que nos desarmam, juntam-se-lhe as guitarras que parecem fora de tom, como antes, um pouco Sonic Youthnescas, o spoken word tão característico da cantora continua presente mas às vezes resvala para uma raiva que não lhe conhecíamos – e sabe tão bem que até pode ser considerado uma pena não irromper mais vezes.

Aos elementos que já lhe conhecíamos, laivos de espírito punk rock vieram apimentar ainda mais as coisas em algumas das faixas mas sem que isso signifique que há um confronto directo com a sociedade ou com o status quo, com tudo aquilo que aquele movimento representou ou pode ainda representar no presente. Courtney Barnett confronta-se apenas a si e aos retratos quotidianos em que se foca nas suas letras e assume logo de início a personalização daquilo que se vai passar ao longo das 10 canções que compõem o álbum, anunciando em «Hopefulessness» que veio para curar corações através da arte, começando pelo seu. É uma lenta mas poderosa afirmação de como deitar para trás das costas o que não faz sentido e seguir caminho de outra maneira, assumindo perfeitamente uma vulnerabilidade que, de facto, se torna na sua maior força. Nesse registo, Courtney soa a uma animada Nico, se é que se consegue ponderar essa possibilidade e prosseguirá nesse optimismo forçado ao longo de todo o álbum (como a própria admite nas entrevistas quem tem dado), cantando tão honestamente que o tom de voz se tornou mais sério e sem que isso soe a incongruente com a visão optimista ou realista referida anteriormente. No fim, tudo fica bem, parece querer transmitir, cometem-se os erros, toda a gente tem dias maus e a vida continua.

Por entre citações de Carrie Fischer e Margaret Atwood, Courtney Barnett conseguiu ainda ter presente um dos seus ídolos de adolescência, Kim Deal dos Breeders, que canta nos coros de «Nameless, Faceless» naquele que soa ao grande manifesto feminista mas que faz sentido na mensagem geral do álbum – é um dos grandes temas de “Tell Me How You Really Feel”. Juntar-se-á a esse manifesto, já não tanto de inspiração feminista, «I’m not Your Mother» o tema em que Barnett perde a paciência de vez, apesar de anteriormente ter pedido desculpa pela falta de paciência e de precisar de um tempo para si. É uma enorme e poderosa canção posta dentro de uma faixa curta e explosiva como uma real explosão emocional, é de facto o tema mais curto do álbum mas ao mesmo tempo um dos que mais o sustentam.

 

“Tell Me How You Really Feel” é uma viagem na montanha russa emocional com direito a paragens para respirar. Não poderia haver melhor maneira de ultrapassar o medo da recepção de um segundo álbum em que tanta gente tem as expectativas tão elevadas que podia ter havido um acidente. Courtney Barnett enfrentou os medos e as dúvidas, admitindo até não saber nada, como o faz na faixa de título monstruoso «Crippling Self Doubt and a General Lack of Sel-Confidence» e, de repente, até parece crime esperar algo mais do que aquilo que a cantora nos oferece. A verdade é que é um álbum fantástico e apesar de não vir carregado de faixas orelhudas é delicioso de descobrir por entre a sempre brilhante expressão escrita da cantora compositora as nuances e o percurso que a trouxe até aqui. Honesto, despido, sem medos nem expectativas próprias, entrega, aliás, todos os seus pertences antes de o podermos julgar. É libertador e livre em todas as faixas que o compõem, um pouco mais voltado para o folk do que o primeiro trabalho mas a verdade é que a exploração de todas as dúvidas e fraquezas que podiam povoar o espírito de Courtney Barnett frutificou num dos melhores e mais sólidos álbuns deste ano.



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