CP#2 – Requiem – For a Dream

Ficção ou documentário?

O filme deixa-nos na dúvida, tal é a intensidade com que retrata as ilusões das quatro personagens a desfazerem-se. Quem está à espera do típico final feliz hollywoodesco, o melhor é não ver o filme…

Com interpretações brilhantes e uma realização surpreendentemente envolvente, “Requiem for a Dream” é, na minha opinião, um dos retratos mais penetrantes da toxicodependência dos últimos anos. Não há moral, não há subterfúgios, nem sequer há a preocupação em mostrar o consumo como algo chocante, tudo é apenas mostrado como é. Quem se choca, choca, quem não se choca, consegue sentir o murro no estômago ao sair do filme.

Aronofsky não nos dá o linear retrato da droga em que as personagens caem no poço que parece não ter fim, mas, apoiadas em qualquer sonho que a vida lhes proporciona, se salvam… Não, não é nada disso que se passa aqui. Aqui a vida é retratada tal como é… Os sonhos surgem, mas as dependências arruínam-nos.

O espectador identifica-se com as personagens numa primeira parte e torce por elas, torce para que os seus sonhos se realizem e para que as dependências terminem, mas é arrastado para uma segunda parte em que a fotografia muda, as personagens mudam, os sonhos se desvanecem e a câmara frenética guia-nos através do mundo das drogas.

Fixando a câmara em determinados planos, somos obrigados a ver a dependência química através dos que as usam e não como uma experiência distante e degradante que nunca teremos. A rapidez de movimentos, os planos sombrios, a câmara a acompanhar Jennifer Connely à medida que esta se afasta do quarto onde pela primeira vez se vende para alimentar o seu vício, faz-nos entrar na pele dos dependentes.

Uma Ellen Burstyn brilhante, sem maquilhagem, sem refúgios, apresenta-nos a solidão e os vícios que a mesma traz. A televisão é o seu vício, mas rapidamente este é substituído por uma dependência química que a arrasta para a loucura e sentimos a loucura dela, sentimos os motivos pelos quais ela se entrega, sentimos o sonho de ver o filho bem sucedido e esse sonho a não se concretizar…

A montagem é outra das soluções técnicas surpreendentes. As imagens finais do filme são das mais poderosas que vi no cinema nos últimos tempos. Sem temer o horror, sem temer a dor e a doença, as vidas esfarrapadas daquelas pessoas são exibidas no ecrã. Visceralmente cruéis, estas imagens são auxiliadas por uma melodia inesquecível que leva os espectadores ao limite, assim como as personagens chegam ao limite.

Com soluções visuais brilhantes e uma banda sonora que nos enclausura no filme, naquelas vidas, Darren Aronofsky abraça as suas personagens e fá-las vítimas da sua inocente futilidade, do seu desejo de prazer e da busca incessante do mesmo. Assim desfila o vício na tela.

Como nota final, gostaria de dizer que vi este filme pela primeira vez numa sala escura, exterior, em VHS num vídeo velhinho, numa televisão ainda mais velhinha… Isto tudo numa mini-associação cultural de cinema em São Paulo.

Após ver o filme, saí para a rua sozinha e as imagens não me saíam da cabeça. Sentia-me a vaguear pelas ruas de São Paulo e a tentar imaginar como seria percorrê-las com o peso da heroína na minha cabeça, como seria assustador não controlar o medo, a ânsia de um próximo consumo e senti o murro no estômago que Darren Aronofsky pretendia!

A ideia não é mostrar a degradação que a droga provoca, a ideia é abandonares-te a ver o filme como se o resto do mundo não existisse e sentires na tua pele a degradação do vício, de qualquer vício, o horror da dependência de uma substância química e a espiral de acontecimentos que se desenrolam à tua volta, apenas para que te possas sentir high só mais esta vez…



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