Cristina Branco

Cristina Branco

"É isto que faz a vida dos crescidos: percebes que cresceste quando estás triste. É a vida, é o que é."

Se tentarem traçar, no escuro, o perfil de uma cantora com já treze longas-duração na bagagem, certamente visualizarão uma mulher com um imenso mar de rugas, oferecendo concertos que rodam à volta de velhos clássicos cantados em coro mas já sem surpresas de maior.

Pois bem, o caso de Cristina Branco é bem diferente. Com 13 discos já editados, a cantora portuguesa – de apenas 40 anos – continua a traçar um percurso inventivo e muitas vezes inesperado, mantendo uma postura discreta que, ainda assim, não deixa de a revelar como uma diva do fado, qualquer que seja o visual adoptado – nisso tem uma costela arrancada a Bowie.

No próximo dia 3 de Fevereiro chega às lojas “Idealist”, caixa que reúne, em apenas três rodelas – “Poemas”, “Fado” e “Ideal” –, os temas que a fadista considerou essenciais entre a sua discografia.

Prestes a começar uma digressão que a levará a alguns dos cantos deste mundo, com o gran finalle agendado para 11 de Dezembro deste ano no CCB, a RDB esteve à conversa com Cristina Branco. Desde então, parecemos estar a viver debaixo de um estranho encantamento.

Cristina Branco

Qual foi a sensação de encaixotar uma carreira de 17 anos e 13 discos em apenas 3 rodelas?

A sensação foi de asfixia (risos), porque não chega. Às tantas achas que um certo tema tem de fazer parte porque o público gosta, ou porque tem uma mensagem com a qual te identificas mais, ou porque a música está fantástica ou a tua prestação é sublime, e isso é devastador. O ideal seria uma box com seis discos.

Este exercício fez-te olhar para o passado já com uma certa nostalgia?

O convite partiu da Universal. Não me imaginei a fazer isto agora, mas até faz algum sentido porque já são treze discos, são imensos. No fundo é arrumar a casa, catalogar as coisas e perceber até onde chegámos e o que queremos fazer a partir daqui. Ou o que é que eu quero. Digo nós porque sempre houve muita gente envolvida e todos tiveram um fundamento. Eu tinha algum pudor em olhar para o passado. Não gosto de ouvir os meus primeiros registos e tinha algum pudor em fazê-lo.

Como foi voltar a ouvir os primeiros discos e confrontares-te com outra imagem de ti, um pouco como se estivesses a folhear um álbum de fotografias?

É outra coisa; é bonito como registo mas – é complicado dizer isto mas é a pura das verdades – em termos de qualidade acho que está muito distante daquilo que faço hoje. Ao mesmo tempo é algo de uma grande beleza, pela pureza e pela entrega. É estimulante mas ainda assim estranho. Pedir a alguém para fazer uma coisa destas com 60 anos vá lá, mas ainda me faltam 20! (risos). Está muito longe mas ao mesmo tempo muito próximo.

Na tua música fala-se muito dessa coisa da “alma”. O que te diz a tua alma hoje em dia?

Sabes que eu vivo numa saudável dualidade. A minha alma tem muitas dores, como eu acho que tem a alma das pessoas crescidas, mas tem também coisas muito motivadoras que me canalizam para a frente, e que me dizem que tenho de continuar. É isto que faz a vida dos crescidos: percebes que cresceste quando estás triste. É a vida, é o que é.

Cristina Branco

Pareces ter encontrado uma âncora lírica em Mário Cláudio, expressa aqui com os dois temas novos aqui incluídos.

Eram dois temas que estavam na gaveta desde o “Não há só tangos em Paris”. O meu marido entrevistou-o uma vez e o Mário entregou-lhe dois poemas para eu os ler. Os poemas são absolutamente extraordinários, cantáveis com muito pouca coisa. Na altura o disco estava a fechar e ficaram ali à espera, agora chegou o momento.

Os discos receberam diferentes títulos: “Poemas”, “Fado” e “Ideal”. Podes contar-nos um pouco da razão desta divisão e o que cada um deles nos oferece?

Foi difícil dar nomes. De início sabia apenas que um deles se chamaria “Fado”, que teria alguns dos fados que gravei; não se pode falar da minha música sem falar do respeito que tenho pelas palavras e pelos autores e compositores, daí um dos discos chamar-se “Poemas” – porque a minha música vive dentro da poesia e dentro da beleza das palavras; “Ideal” são aquelas músicas que as pessoas têm dificuldade em catalogar, as músicas que gosto de cantar e que ninguém sabe exactamente onde as há-de pôr (risos). Não sei quantos anos mais irei cantar mas farei sempre isto: são músicas que me habitam o espírito e que tenho que as cantar por gostar muito delas e por nelas me rever.

Como vês o estado actual do fado em Portugal, agora Património Mundial, com a entrada de novos nomes (e também de algumas caras bonitas)? Há uma comunidade fadista em Portugal ou cada um trata do seu quintal?

Está num momento vibrante. Não se pode dizer que estejam a acontecer coisas novas no sentido de estarmos a descobrir uma nova ramificação, mas é um momento vibrante. Não existe o hábito de fazer jantares ao domingo mas há coisas bem engraçadas, como os encontros nos aeroportos. Falas também normalmente com as pessoas nos concertos ou nas casas de fado, já não existem aquelas tricas do fado, aquele ambiente sinistro, isso felizmente desapareceu. É uma geração desempoeirada.

Já nos podes dizer alguma coisa sobre o ainda longínquo concerto do CCB?

Apenas que vão haver muitos convidados, não tenho ainda muita certeza sobre o que vou fazer. Sou apaixonada – no bom sentido – por pianistas e o meu sonho é juntá-los todos em palco. Tenho a sorte de trabalhar com grandes músicos, a quem faço uma vénia todos os dias, e gostava de os juntar todos. Depois há também as vozes, mas disso não posso falar senão estrangulam-me e depois não temos cantora.



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