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Cristina Rodrigues

O Museu Nacional de Arqueologia, no Mosteiro dos Jerónimos, abre as suas portas à exposição “O Meu País Através dos Teus Olhos” de Cristina Rodrigues. Entrevista exclusiva.

Há já alguns anos que Cristina Rodrigues vive fora de Portugal, mas Portugal vive sempre no trabalho da arquitecta. O interesse no seu país de origem e nas suas raízes culturais conduziram uma investigação sobre os temas da desertificação e do envelhecimento, com especial incidência no mundo rural da zona raiana. Tendo ganho uma bolsa de investigação da Manchester Metropolitan University para estudar estes fenómenos e estes lugares, e tendo sido a primeira artista portuguesa a expor no Guangdong Museum of Art, em Guangzhou, em 2013, é já com alguma bagagem que o trabalho desta artista se instala em Lisboa.

Em Idanha-a-Nova, Cristina trabalha nas suas peças no Centro Cultural Raiano (CCR), rodeada pelos trabalhos de vários investigadores do Município e em conjunto com um grupo de mulheres com quem troca saberes e histórias da vida. Com a exposição O Meu País através dos Teus Olhos, patente no Museu Nacional de Arqueologia, no Mosteiro dos Jerónimos, entre 19 de Setembro e 31 de Dezembro, a artista constrói um diálogo entre o espaço e seis peças de Arte Contemporânea.

A Cristina vive em Inglaterra, mas tem estudado a cultura rural portuguesa. Como nasceu o interesse pelo estudo da zona Raiana?

Sempre quis estudar o ‘interior’ de Portugal, este ‘interior’ cuja imagem de abandono nostálgico perdura no imaginário das gerações urbanas.   Criar/desenhar um edifício para um lugar [onde as casas superam em número as pessoas] é um grande desafio, pois estamos a edificar uma marca no território que vai ficar ali muitos anos e com a qual a natureza e as pessoas vão ter de conviver.

Este acto criativo fez-me querer saber mais sobre ‘o lugar’ em que estava a intervir.   Fotografei pessoas e objectos por todo o Portugal rural mas cedo compreendi que a minha grande paixão são as Pessoas e as suas histórias.

A colecção de fotografias ‘O Meu País Através dos Teus Olhos’ e ‘O Mural do Povo’ nascem neste contexto e possuem registos desde 2007 até à presente data. Apenas em 2010 me senti preparada para expor alguns destes trabalhos fotográficos sob a forma de instalação – fotografias acompanhadas de narrativas/textos e sonoridades que recolhi na Raia.

Com o projecto “Museu Rural do Século XXI” cria um contraste forte entre a cultura rural e o ambiente dos centros urbanos. Que diálogo pretende construir com esse projecto?

É uma exposição itinerante que leva o universo rural Português aos principais centros urbanos do País, e de outros países afectados pelos fenómenos de despovoamento, desertificação ambiental e declínio económico. Esta exposição surge a partir de um projecto de investigação do qual sou coordenadora e utiliza o Município de Idanha-a-Nova como case study, [isto é, o] território Raiano. Vários artistas Portugueses e Britâncos foram convidados a criar trabalhos sobre o universo rural Português e sobre a realidade Idanhense em particular. A exposição reúne todas estas visões num espaço físico onde narrativas e argumentos se tornam vivos e tentam envolver o público no debate sobre a importância da regeneração rural. Esta exposição foi desenhada para o público em geral. A ideia é renovar o sentido de cidadania e envolver todos no debate. Nas fotografias da minha autoria que fizeram parte desta itinerância, jovens e gerações mais antigas de Portugueses são representados no seu quotidiano e em momentos únicos de reunião da sociedade rural Idanhese. Esta exposição ilustra a importância das gerações mais jovens para o País e como elas podem contribuir para a regeneração rural e para alterar a dramática situação económica do País.

Cristina Rodrigues no Jerónimos - Fotografia de André Castanheira

Existe alguma continuidade entre esse trabalho e a exposição que agora apresenta?

No período de um ano desenhei 7 exposições com a minha curadoria e com peças de arte criadas por mim. O processo expositivo influenciou o meu trabalho. Escolhi sempre espaços distintos e com uma arquitectura muito peculiar, não queria expor o meu trabalho no convencional Museu de Arte Contemporânea – a caixa branca. Como arquitecta queria trabalhar com espaços arquitectónicos com uma imagem forte e responder a estes espaços. Por isso instalei ‘A Manta’ no MUDE, na Sé Catedral de Idanha-a-Velha e, por este motivo, segue agora para o Museu Nacional de Arqueologia, no Mosteiro dos Jerónimos.

Como vê a relação entre a sociedade urbana portuguesa com as tradições rurais? De que forma esta exposição revela ou transforma essa relação?

Não vejo uma separação entre os universos rural e urbano, mas antes uma continuidade. O meu país e, mais do que o meu país, o povo Português, são a minha fonte de inspiração. As histórias e narrativas de coragem e perseverança estão raiz de cada peça que crio. As narrativas das mulheres da Raia, que juntamente comigo participam no processo de produção das peças, a alegria de partilhar estes momentos criativos em comunidade retratam a generosidade e esperança de um povo do qual eu faço parte. Num mundo globalizado foi no local que encontrei histórias universais. Há pouco tempo um amigo meu investigador iraniano dizia-me: as mulheres do meu país iam adorar ‘A Manta’ também têm por lá um instrumento parecido com o adufe. A cultura local é neste mundo global transversal a muitas culturas.

Cristina Rodrigues no Jerónimos - Fotografia de André Castanheira

O que diz o título da exposição?

‘O Meu País Através dos Teus Olhos’ surge a partir de uma colecção de fotografias e entrevistas a Idanhenses. Os entrevistados muito me ensinaram sobre o meu país e são estes olhos que me fizerem ver outros ângulos da vida, a eles dedico esta exposição. O meu país sobre o qual eu quero contar as mais belas histórias cheias de humanismo.

A exposição é constituída por 6 peças. De que tipo de peças falamos? Que materiais utiliza? Tem algum material predominante? Quando foram criadas? Com algum objectivo específico, ou foram surgindo ao longo do tempo?

A exposição é composta por 6 instalações: ‘A Manta, ouro & prata’; ‘A Capela’; ‘A Rainha’; ‘Moura Vestida I’; ‘Moura Vestida II’ e ‘ Moura Vestida III’. As instalações possuem uma grande escala e são todas elas produzidas em materiais muito distintos. Uma grande parte dos materiais utilizados foi recolhida no estaleiro Municipal e estavam já obsoletos. Queria voltar a dar vida a objectos que estavam ainda presentes na memória colectiva do povo Idanhense e trazê-los ao museu de forma inesperada. Trabalho bastante com têxteis: fitas de cetim, fitas de ceda, rendas da Fábrica de Rendas Portuense – a única fábrica em Portugal que ainda produz rendas com as primeiras máquinas da revolução industrial em Portugal –, cordas de estendal e cordas de nylon.

O que nos dizem essas peças? 

Na exposição do Museu Nacional de Arqueologia quero, com as minhas peças, contar histórias sobre objectos que fazem parte da vida do português comum, objectos que apelam a uma memória mais colectiva. A identidade é algo de tão profundo que marca completamente quem somos e as nossas relações sentimentais com os objectos. A sociedade de consumo ensinou-nos que tudo tem curta duração e então desfazemo-nos de imensos objectos, cadeiras, mesas, estantes, etc., ao longo da vida. Para substituir estas peças compramos outras com um design “mais recente”. Em contraste, nesta exposição, o valor sentimental dos objectos assume um lugar central e intemporal. Todo o trabalho de recolha de entrevistas, sonoridades e objectos que fazem hoje parte do universo rural português é agora transportado para esta exposição. A recolha etnográfica é uma metodologia que pode alicerçar a criação de peças de Arte Contemporânea e que permite uma profunda ligação com a memória e identidade colectivas.

Cristina Rodrigues no Jerónimos - Fotografia de André Castanheira

Como se enquadram as peças no ambiente do Museu Nacional da Arqueologia?

É um grande desafio desenhar uma exposição num museu curado por investigadores nas áreas de arqueologia e etnografia e contar uma história com as minhas peças que responda e conviva, ao mesmo tempo, com os inúmeros objectos que habitam permanente ou temporariamente o Museu Nacional de Arqueologia no Mosteiro dos Jerónimos. É um lugar místico onde a maior catedral em estilo Manuelino coexiste com várias peças dedicadas a divindades do Império Romano, as quais estão hoje alojadas nos antigos aposentos do Mosteiro. Nesta exposição proponho contar a história de vários objectos que fazem parte do quotidiano rural português e que muitas vezes passam despercebidos. No Museu Nacional de Arqueologia sinto-me em casa, rodeada por uma importante colecção etnográfica e de arqueologia. As minhas peças respondem e dão continuidade às narrativas já iniciadas no museu.

 

Fotografia de André Castanheira



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