Crulic: The Path to Beyond

“Crulic: The Path to Beyond”

Esteticamente deslumbrante e com uma forte identidade

O mais recente filme da romena Anca Damian, “Crulic: The Path to Beyond”, foi exibido esta semana no festival MONSTRA no âmbito da competição de longas-metragens.

Neste filme, Anca Damian pretende dar-nos a conhecer a história de um conterrâneo seu, Claudiu Crulic, um romeno que aos 33 anos de idade faleceu numa prisão polaca devido a uma greve de fome. O filme começa com a notícia da sua morte que, pela voz de Vlad Ivanov, nos irá recontar a história da sua vida a culminar neste fatídico e trágico dia.

Segundo Crulic – ou antes a voz que se criou dele para o filme – a sua vida pode ser contada a partir das 100 fotos que possui, 100 fotos para retratar os seus 33 anos de existência e que são usadas e manipuladas na própria construção desta animação, onde o desenho e a fotografia se misturam de forma criativa para dar origem a um filme esteticamente deslumbrante e com uma forte identidade. Sem dúvida um concorrente a ter em conta nesta competição.

A sua história é hoje filmada devido à tragédia da qual foi protagonista. No entanto, antes de conhecer a história a realizadora opta por nos dar a conhecer o homem primeiro. Ele foi um filho, um irmão, um apaixonado e até, brevemente, um pai. Foi um homem com os mesmos direitos e deveres que outro qualquer.

O ponto sem retorno na sua vida dá-se então no dia em que este é preso injustamente por roubo, na Polónia. A partir daqui assistimos à luta de Crulic pela sua liberdade e por justiça. Uma luta que o leva a iniciar uma greve de fome em sinal de protesto, mas que juntamente aos seus restantes pedidos é também ignorada por tudo e todos, inclusive pelo consulado romeno e pelos médicos que o trataram inicialmente – Hipócrates ficaria envergonhado.

Tudo isto é ainda mais estranho quando, segundo o documentário, uma simples investigação conduziria à libertação de Crulic, ou não estivesse ele fora do País no dia em que o alegado roubo ocorreu.

Acresce-se a esta história mais um murro no estômago, a data. Crulic foi preso em 2007. A ilusão – a existir – de que estamos tão distantes das barbaridades cometidas no passado desvanecesse-se perante histórias como estas. Como é que é possível que em inícios do século XXI uma situação como esta – em que todos os envolvidos negaram responsabilidade – ainda ocorra? Provavelmente da mesma forma que foi possível o muro de Berlim apenas ter começado a cair em 1989 ou da mesma forma que é possível a Coreia do Norte conseguir, actualmente, manter um campo de concentração em funcionamento. Não pode ser!



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