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Culture Club

O texto seguinte vai obedecer a algum trautear futebolístico, dado o momento desportivo que atravessamos. Sem o mau gosto da vuvuzela irritante, e feita a advertência, segue-se o apertar de mãos dos capitães de equipa...

Nos últimos tempos uma nova febre dançante tem atacado um sector de marketing de sonho: o público frequentador da noite alfacinha. Longe isto ser novidade, merece uma reflexão pelo facto de não acontecer coisa semelhante há muito tempo… atenção leitor, que, como sempre, sou fã de longas introduções para que o meu ponto de vista se estabeleça de forma estruturada, coloco já a defesa em campo – não vou caír num insípido despejar de ocos elogios aos responsáveis por tal fenómeno, mas, ao contrário, vou explicar a razão do meu louvor.

Passo ao ataque e adianto qual o tema dos curtos parágrafos que iniciaram a leitura presente: as noites “Horse Meat Disco”. Para colocar tudo de forma clara, vou descrever a colocação estratégica da equipe: dois dj’s ultra-especializados em tudo o que leva lip gloss, lantejoulas, pó de talco na pista e bolas de espelhos (id est, DISCO MADNESS) actuam num dos melhores clubes do mundo, todos os meses (frequentemente com convidados), tendo-se tornado no assunto de eleição da população noctívaga da capital.

Um pouco de retórica futebolística relembra-nos que devem-se sempre louvar tácticas e atitudes arrojadas e arriscadas, e só por isso a iniciativa garante mérito; mas um espaço de referência mundial como este (que deve considerar uma variedade de mentalidade e atitude no seu público frequentador) assumir corajosamente o realizar de um evento que exige um espírito tão aberto merece maior destaque.

O “zeitgeist” actual é descrito vezes demais por um hedonismo-pelo-hedonismo, difundido e permeado transversalmente pelas diversas camadas etárias e económicas. Onde a música é menos importante que o grau de alteração de consciência que se sofre ao longo da noite – nunca o contrário se espera que aconteça, mas idealmente, uma coisa anda de mão dada com a outra. A “love drug” está em desuso, e arrisco sugerir que isso se relacione com um decréscimo de amplitude no que toca à abertura musical. Como consequência desta empírica hipótese, a maioria da “fauna prolixa” nocturna (como diria Pessoa) – e falando muito genéricamente – tornou-se um colectivo que procura adrenalina mais que uma experiência subtil. Assim, neste ambiente que não é muito favorável a grandes experiências sócio-musicais, a dita residência dos HMD torna-se extremamente interessante.

O jogo, como disse, é mais ou menos este: um festim de celebração de alegria e vida, repleto de música bem disposta, apenas pontualmente transcendente; descomplexada e quiçá, em certos momentos até, de questionável gosto… but who cares? E nesta realidade paralela da pista do Lux sob efeito de “disco”, e não só do house e techno omnipresentes, vêm-se coisas muito engraçadas! Como o é a cara de espanto de rapazolas que ainda não conseguem fazer a barba na zona das patilhas, chegarem à dita pista convencidos que vão entoar cânticos da selecção a ouvir um tema anónimo contemporâneo e, em vez disso, depararem-se com homenzarrões de tronco nú beijando-se apaixonadamente ao som do eterno “You Make Me Feel (Mighty Real)” do Sylvester, enquanto uma mistura de pessoas de todas as raças cores, credos e orientações sexuais (das convencionais às menos) sorri e se diverte como se tudo se passasse há 40 anos em Nova Iorque. O mesmo se pode dizer a respeito de muitas adolescentes que se produzem com os excessos artificiais típicos de quem vê, aos 18 anos, (e tristemente) a maior ferramenta de doutrina pública para a mediocride mental, os Morangos com Açúcar, que ficam de queixo caído e sem saber como se comportarem, inseridas numa realidade completamente diferente daquela que conhecem… mas estas, tendêncialmente, mostram-se menos inflexíveis que os primeiros.

Neste choque de universos, em que um extracto, mais jovem, colide com outro, mais maduro, há algo de mágico. É daqui que surge um momento de educação, de sensibilização. É neste ponto que se estabelece um exemplo de que nem tudo o que reluz é ouro, e nem toda a música à noite tem de servir para gritar em desvairo ou para nos alhearmos, ou sequer para fazermos uma coreografia irritante tipo as que se fazem nos bares da expo. A beleza da música é essa sua pluralidade e elasticidade, de haver dela para tudo e para todos, e que até numa pista de dança, podemos experimentar mais do que a transcendência química, mas também a transcendência humana. A festa, o uníssono da multidão, a periclitante tesão de viver. E o que não falta nestas noites é isso: tesão.

Poderíamos falar sobre este assunto, criticando que nem todo o “disco” é musicalmente interessante, e que uma noite de um determinado estilo corre sempre o risco de ser interessante apenas para um grupo limitado de pessoas. Mas eu acho que esta coisa da música tem muito a haver com a experiência humana, e quanto mais crescemos como pessoas – capazes de sermos empáticos e simpáticos para com quem não nos é imediatamente conhecido – mais essa atitude se reflecte na nossa capacidade de ouvir as coisas mais díspares e encontrar nelas algo de agradável e digno de mérito.

Assim, a questão realmente central é a consequência desta fricção. Aquilo que muitas vezes os que estão atentos à música sentem em relação àqueles que ficam na conversa na pista, ou que se abanam insipidamente como quem poderia estar num arraial académico, nestas noites mitiga-se. Porque se há algo que sempre se provou, é a força dos números, e bem que se pode acreditar que nestas noites nem o mais inconsciente dos noctívagos (incapaz de distinguir o baixo do bombo e que saíu do carro a ouvir, mais uma vez, o “Come On Eileen” dos Dexy’s Midnight Runners na Rádio Comercial) é capaz de ficar indiferente. Qualquer um repara que ali se passa algo; porque mesmo que se esteja parado e a estranhar aquilo que se desenrola à frente dos olhos, é impossível negar que é algo que está a ser muito especial para muita gente. Que talvez (apenas, talvez) não fosse má ideia tentar perceber o que é que se passa de tão intenso na cabecinha daquela gente fogosa que ali celebra.

Neste cenário, a composição humana é profundamente extremada: uma festa de fim do mundo, na metade da pista mais próxima da cabine de dj, e na outra metade, uma multidão de pessoas de boca aberta, incrédulos e sem saber o que achar de tudo isto e que muitas vezes largam dos seus preconceitos para se juntar à festa. E dizer mal é impossível, porque parece que, goste-se ou não da música, a maioria das pessoas estão felizes da vida e a gozar de um excelente momento – portanto, o “super-ego” social não permite, nestas circunstâncias um grande grau de contrariedade… é melhor diluir-mo-nos na multidão e fazer parte da festa do que ficar sisudo a um canto a resmungar tipo Mutley nos Wacky Races.

Já em descontos de tempo, recordo que a diferença entre este hype e outros semelhantes, no passado, é que não está dependente da familiaridade dos presentes em relação ao repertório musical apresentado. Não é o mesmo que o hype dos 2 Many Dj’s ou do retro-electroclash, em que muita da música era do domínio público e podia ser ouvida na rádio, além de no clube. Não há nenhum sítio nas ondas FM onde se espere ouvir o “Megatron Man” do Patrick Cowley, ou o “The More I Get” do Teddy Pendergrass, porque simplesmente não está na moda. O que é curioso deste hype, é que é a festa e a expectativa dela mesma que o gera.

O único aspecto menos positivo desta folia (o fora-de-jogo, digamos) é que, infelizmente, e como é hábito, é criada através da importação de talento, e não pelo apoio ao que de nosso por aqui anda… mas o que fazer, quando o público parece ser o primeiro a dar mais valor ao externo, que ao interno, pergunto-me a mim mesmo? É um pouco uma questão do ovo e da galinha, mas ao menos faz-se algo diferente, como disse, e isso é o mais importante.

Soa o apito… Mas a festa continua, e para isso, como sempre, não há como o público HMD (sempre presente quando é altura de curtir à séria) para abrir caminho nas mentes mais conservadores e artísticamente indiferentes. Para dar chapadas de luva branca aos mais austeros, mostrando como é que se festeja sem preconceito, “mas” – e é um “mas” importante – neste caso, vencem os pândegos, porque não há piadola ou gracejo diminuidor que os mais inseguros possam arremessar, que cause mossa! Como dizia a Pamela no “Let’s Start The Dance” do enorme Hamilton T. Bohannon (que é tema residente nas malas dos Horse Meat): “YOU CAN’T STOP THE GROOVE”!!

Fotografia por Susana Pomba



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