Cumpriu-se o Ritual

Duas noites de música portuguesa nos Jardins do Palácio de Cristal.

Podia acusar-se o mau tempo ou os bolsos vazios dos jovens urbanos portuenses no regresso de férias como principais causas da fraca afluência da 14ª edição das Noites Ritual. No entanto, é mais provável que o principal pretexto das clareiras fosse o fraco cartaz (quando comparado com anos anteriores), originado em parte pelo adormecimento editorial nacional num ano cuja edição mais relevante é uma promo dos lisboetas Linda Martini.

Acompanhados de uma projecção centrada na imagem de Pedro d’Orey, os Wordsong abriram o palco principal, variando entre as reinterpretações dos poemas de Al Berto e as novas criações à volta de textos de Fernando Pessoa, a editar este ano, tudo embrulhado numa digitália daquelas. Ideal para estudantes do 12º ano que deviam estar em casa a estudar para o exame de português da 2ª fase se o calendário de exames não tivesse sido alterado.

De seguida, os Plaza conseguiram ser a banda com echarpes efeminadas mais aborrecida de sempre. Aliás, o facto de o “convidado” Legendary Tigerman ter mais carisma num painel lateral do que toda a banda, já significa algo. A encerrar a noite, os Cool Hipnoise soltaram inconsequentemente o seu soul-funk-reggae tão cheio de clichés quanto esta descrição.

As melhores actuações da noite acabaram por decorrer na Concha Acústica, composta exclusivamente por projectos relacionados com a editora Bor Land, apesar do concerto de Complicado ter sido cancelado devido a complicações complicadas. Assim, os Ölga deram início com o seu prog rock aproximado aos Pink Floyd, seguidos por uns Alla Pollaca mais próximos de uns Mogwai sob o efeito de xanax com laivos de Sonic Youth. Apesar da banda do trio de guitarristas demasiado parecidos com estudantes do 2º ano de engenharia electrónica pecar por algumas vocalizações dispensáveis, conseguiram oferecer o melhor concerto numa noite marcada pela infeliz e completa ausência de cowbells.

Na segunda noite, a chuva miudinha começou a cair ainda antes do concerto dos Supernada, mais um projecto de Manuel Cruz que, apesar de ainda não ter nenhum registo gravado, conta já com uma atenta legião de fãs. Alguém no público perguntava onde estava o Peixe, mas aqui o guitar hero é Ruca (ele que é baterista nos Pluto). Entre umas azeiteiradas Foofighterianas e uns Queens of the Stone Age a relaxar em banho maria, o ponto alto foi “O Preço das Uvas” e a sua irónica lista de compras.

Já com uma chuva fustigante, actuaram os Bunnyranch, demonstrando que o seu estado natural é em palco e não em disco. Novidades à parte – a banda apresentou uma versão de “Tetas da Alienação” dos Mão Morta, ou como diria Kaló, “daqueles meninos de Braga” – é ao vivo que se podem testemunhar os delírios rockabilly liderados pelo frontman Kaló e com os teclados do espasmódico Filipe Costa como espinha dorsal de toda a festa. Tal como aqueles escoceses, os Bunnyranch só querem pôr as raparigas a dançar.

9 horas antes da missa na Igreja de Vilar, os Wraygunn davam início à sua homilia. Apesar de ao princípio, a banda ter enfrentado alguns problemas técnicos para quem estava a gravar o concerto (que será editado com a versão britânica de Eclesiastes 1:11), o colectivo liderado por Paulo Furtado conseguiu contornar a situação com perfeitas interpretações de clássicos instantâneos como “She’s a Speed Freak” ou “Juice”. Como se não bastasse estar Raquel Ralha em palco munida de uma cowbell para ser um grande concerto, o endiabrado frontman ainda se deu ao luxo de arriscar a sua condição física ao entornar uma garrafa de água inteira por cima da sua guitarra e ao acasalar com um andaime perigosamente escorregadio. Pelo meio, Furtado ainda usou uma câmara de filmar como extensão fálica antes da banda finalizar com uma versão de “My Generation” no encore.



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