rdb_curtas2012report_header

Curtas 2012 – Reportagem

O Curtas é festival e também produtor

A 20ª edição do Curtas Vila do Conde ficou pautada pelo festival enquanto meio de divulgação dos filmes em pequeno formato, mas também como meio de produção, o qual o evento “gostaria de continuar a poder fazer nos próximos anos” segundo Dario Oliveira, um dos directores do evento.

20 Anos do Curtas

Os vinte anos do festival Curtas Vila do Conde assinalaram não só a coerente posição do certame, como também enfatizaram a região Norte do País com encomendas efectuadas a oito realizadores.

Dario Oliveira revela que está contente por este ano o festival ter conseguido afirmar-se não só como plataforma de divulgação de curtas-metragens mas também como plataforma de produção.

Entre os realizadores convidados para este propósito encontra-se Helvécio Marins Jr., cineasta brasileiro que trabalhou directamente com André Cepeda, fotógrafo que explora o lado popular e genuíno da cidade do Porto, tendo em conjunto produzido “O Canto da Rocha”, filme que retrata a vida de Alfredo, homem de família destacado na comunidade, possuidor de uma café/restaurante, cantor de fado, ex-traficante, lutador de karaté.

Sergei Loznitsa é um realizador bielorusso que explorou o lado religioso português. Com uma perspectiva satírica, “O Milagre de Santo António” é um filme que retrata o ritual que homenageia o seu santo homónimo através da benção dos cavalos da terra.

Já o terceiro trabalho é de Yann Gonzalez, irmão de Anthony Gonzalez da banda francesa M83. “Land of my Dreams” é a história de uma jovem que viaja de França até ao Porto para encontrar-se com a mãe e ganhar dinheiro. Juntas vão fazendo espectáculos eróticos com uma carripana que vai parando em vários pontos estratégicos.

Por fim, “Reconversão” é um filme sobre o trabalho do ilustre arquitecto portuense Eduardo Souto Moura encomendado a Thom Andersen.

Numa acção conjunta com o projecto Estaleiro foram também requisitados filmes a quatro realizadores portugueses: “Cinzas, Um Ensaio sobre o Fogo” a Pedro Flores; “Um Rio Chamado Ave”, Luís Alves de Matos; “A Rua da Estrada” a Graça Castanheiro (sobre o livro homónimo do geógrafo Álvaro Domingues) e “Obrigação” de João Canijo, um filme sobre as Caxinas, a comunidade piscatória de Vila do Conde.

Além destas oito encomendas acrescem-se ainda mais quatro que vão ser rodadas entre o Verão e o Outono. Os realizadores convidados são Helvécio Marins Jr. novamente, André Tentugal, Gonçalo Tocha e João Pedro Rodrigues, que através de um pequeno fundo de apoio do QREN (Quadro Referência Estratégica Nacional) e em paralelo com Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, servirão para colocar os costumes e as tradições do Norte de Portugal no Cinema “de uma forma impactante e que sirva como exemplo de tendência”, conta Dario Oliveira.

Robert Todd

Depois de Olivier Assayas, Robert Todd entrou em grande na secção In Focus. O realizador norte-americano, ainda que não goste da catalogação, está ligado ao cinema experimental e, em vez de “experimental film director”, prefere auto-designar-se de “film poet”. Alguns dos seus vídeos (“Golden Hour”, uma filmagem com pirilampos; “Trauma Victim”, vídeo com água e cascatas, “Dig”, “Latent”, “Antechamber”, “Thunder” e “Wait”) foram seleccionados pelo grupo Evols e, no dia 11 de Julho, musicados a partir de novas sinfonias propostas pela banda para mais um filme-concerto que resultou numa sintonia perfeita.

As já conhecidas guitarras intensas de Evols mostraram-se aqui numa versão menos noise acompanhada de palavras bonitas. Na memória ficam ainda as primeiras frases projectadas no ecrã: “There is nothing more beautiful than a woman”; “There is nothing more beautiful than a woman in love” e, por último, “There is nothing more beautiful than a woman in love with someone else”. Claro, a combinação Evols + Robert Todd + Amor deixa qualquer um derretido, isto, pelo menos, para os eternos românticos, entre vídeo, música e feelings.

Já no dia seguinte (quinta-feira, 12 de julho, portanto) Robert Todd esteve à conversa com Daniel Ribas e com o público numa sessão Curtas + Masterclass. O cineasta norte-americano, actualmente a residir e leccionar em Boston, trouxe o seu “bichinho”: uma Bolex 16mm, e explicou a todos porque continua a trabalhar com o formato analógico e como desenvolve o seu trabalho. Apesar de o formato digital tornar a fotografia e o vídeo democratizados e acessíveis a todos, ele garante que lhe sai mais barato trabalhar com o analógico porque não tem anualmente que comprar o último modelo da melhor câmara – tem uma que lhe vai durar toda a vida.

Sexta-feira 13 e “Stanley Kubrick: A Life in Pictures”

À noite pudemos ouvir Jan Harlan, cunhado de Stanley Kubrick, falar do longo filme que pareceu curto ao lado da vida do cineasta norte-americano, autor de filmes bastante distintos como “A Clockwork Orange”, “Lolita”, “2001: A Space Odissey”, entre outros, tendo o realizador falecido uma semana após a apresentação do seu filme “Eyes Wide Shut”.

Através deste documentário, narrado por Tom Cruise, conseguimos realmente perceber a vida de Stanley Kubrick e a sua forma de fazer Cinema. Jan Harlan saiu a meio o filme, não regressando no dia seguinte para a sua masterclass agendada, por se sentir adoentado. De qualquer forma, a sua sessão foi substituída por “Girimunho”, fabulosa longa-metragem de Helvécio Marins Jr., que retrata a vida de uma avó, Bastú, recentemente viúva de Feliciano, fantasma que continua em sua casa a trabalhar, e a sua neta que vai estudar para outra cidade.

A noite de sexta-feira, 13 de julho, reservou-nos “Ashes” e “Mekong Hotel” do famigerado realizador tailandês Apitchapong Weerasethakul e o concerto performativo de Metamkine, colectivo francês proveniente de Grenoble que mistura imagens projectadas através de microscópios e outros aparelhos com sons experimentais.

O último dia

O dia 14 de Julho foi o dia de anunciar os premiados das competições e também do concerto de Black Bombaim, acompanhado de projecções. Apesar da grande qualidade destas, não conseguíamos era retirar os olhos do baterista que figurava no meio do palco com as suas mãos eufóricas e imparáveis.

Em conversa com a Rua de Baixo, Dario Oliveira afirma que este ano não ficou surpreendido com as decisões do júri que, por integrar nove pessoas no total e cada uma com percursos e gostos distintos, pode sempre levar a conclusões diferentes. “Há anos em que ficamos muito surpreendidos com as decisões do júri, mas este ano não aconteceu”.

A realizadora francesa Caroline Deruas veio a Portugal para receber o prémio do Público com “Les Enfants de la Nuit”. Confessou que tinha este projecto no bolso já há bastante tempo: fazer um filme a preto-e-branco que retratasse o comportamento do povo relativamente às jovens locais francesas que, durante e no pós-guerra, se apaixonavam por soldados alemães. “Existia o costume em França de rapar o cabelo às jovens apaixonadas. Este acontecimento sempre me deixou muito preocupada e, portanto, quis trabalhá-lo”, diz Caroline Deruas. Acrescenta ainda que esteve durante cerca de cinco anos com esta ideia guardada porque não tinha a certeza se “tinha o direito de falar sobre este assunto porque não vivi esta época”. Já quanto ao prémio, a cineasta confessa que está muito orgulhosa e não estava nada à espera porque “antes da projecção do meu filme havia uma animação, com a qual o público se ria imenso e então foi uma surpresa ultrapassar essas reacções com o meu, que era bastante dramático e não suscitava grandes reacções no momento”.


Basil da Cunha, depois do ano passado ter ganho Menção Honrosa com “Nuvem”, esteve novamente presente na vigésima edição do Curtas Vila do Conde com “Os Vivos também Choram” levando para casa o prémio de Melhor Curta Nacional. O realizador luso-suíço admite que “é fantástico estar de volta e ter aquele reconhecimento de que precisamos para continuar a trabalhar, sem dinheiro e sem fundos”. “Os Vivos também Choram” conta a história de um homem alcoólico que trabalha no porto de Lisboa, sonha em ir para Suécia e viu todo o dinheiro que guardou a ser gasto numa máquina de lavar roupa cor-de-rosa comprada pela sua mulher.

Ambos os filmes, “Os Vivos também Choram” e “Nuvem”, surgem no segmento da temática que Basil da Cunha trabalha: justamente o que o rodeia, uma realidade bairrista que advém de residir na Amadora. “Não me desloco para fazer viver, estou lá a viver e misturo amigos com trabalho”.

Basil da Cunha acabou de produzir uma longa-metragem que se chama “Até ver a Luz” e sairá até ao fim do ano.

O vencedor do prémio Cidade Vila do Conde foi Sergio Oksman com a “A Story for the Modlins”. O realizador brasileiro, actualmente a residir em Madrid, está “muito contente de vir a Portugal, pela relação afectiva que naturalmente mantenho, assim como pelo nível de qualidade dos filmes que vi aqui no festival. O prémio foi sem dúvida uma surpresa neste evento dedicado às curtas”.

A ideia de “A Story For The Modlins” surgiu de um puro acaso: um fotógrafo encontrou as fotografias de uma família na rua há muitos anos atrás, “esses documentos chegaram às minhas mãos há quatro anos e resolvemos reconstruir a vida dessa família que nós não conhecíamos”. A única referência que tinham era que o pai da família tinha figurado no filme de Roman Polanski “Rosemary´s Baby”. “Decidimos partir da ficção para chegar ao real.”

Sergio Oksman encontra-se de momento a terminar um filme que rodou em Lisboa, mas que não sabe quando sairá porque “agora que tenho o material vem a parte mais difícil que é encaixar as peças do puzzle”.

O festival Curtas Vila do Conde 2012 foi mais um puzzle que ficou completo nesta sua grande vigésima edição.

Competição Internacional

Grande Prémio: A Story for the Modlins de Sergio Oksman
Melhor Ficção: Without Snow de Magnus van Horn
Melhor Documentário: A Comunidade de Salomé Lamas
Melhor Animação: Tram de Michaela Pavlatova
Melhor Curta Europeia: Manhã de Santo António de João Pedro Rodrigues

Competição Nacional

Melhor Filme: Os Vivos Também Choram de Basil da Cunha
Menções honrosas: A Cidade e o Sol, de Leonor Noivo
Prémio do Público: Les Enfants de la Nuit, de Caroline Deruas
Competição Experimental: Arcana de Henry Hills
Competição Videos Musicais: I Fink U Freeky de Roger Ballen
Prémio Curtinhas (Curtas-metragens para crianças): O Desespero da Laranja de John Banana
Prémio Take One (Competição de filmes de escola): Do Mundo de Manuel Guerra



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This