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Dancin’ Days

e a actual livre demonstração de... having a good time.

Gostaria de, sem rodeios, atacar de cabeça um assunto que me tem assombrado a cognição nos últimos meses, em género de pega de forcado amador. No geral, e em certos círculos, tenho notado que é muito mais difícil criar o ambiente necessário à espontânea e livre demonstração de… “having a good time”.

Em certos circuitos está a ficar cada vez mais difícil meter a malta a dançar. Esses ambientes aos quais me refiro são ambientes pouco específicos, com públicos generalistas, grupos de pessoas cujo “mindframe” está apenas focado em sentir-se confortável num espaço, batendo o pé ao de leve, segurando um copinho de uma bebida fresca na mão, vendo umas febras bem produzidas (reparem que esta descrição se adequa a ambos os sexos).

Não me refiro, portanto, a ambientes especializados, em espaços frequentados por gentes conhecedoras de música, com aquela sede de conhecer o que o DJ tem para mostrar, os discos que comprou nessa semana, e os que escavou na colecção… que apreciam elementos surpresa, e que se predispõe a despirem-se de preconceitos e a fazerem a festa assim que ouvem uma nota de baixo ou uma tarola a marcar compasso. Neste último cenário, de facto, as coisas continuam tranquilas como sempre.

Como me é característico, acho sempre necessário falar um pouco da minha experiência pessoal para contextualizar um pouco o assunto a que me refiro, de forma a que o leitor perceba o porquê da minha intervenção, e o grau de propriedade que tenho eu, ou não. para falar sobre isto. Sempre fui um amante de música generalista, sim, mas que gosta de uma boa festa… mas ainda recentemente me atingiu o seguinte corolário: “quem nunca arrastou material às costas para passar música durante horas num clube vazio, não sabe o que é ser-se um DJ”.

Está no âmago desta actividade, a humildade de aprender com os erros, e de ir compreendendo que de nada nos serve querer forçar uma nossa visão, sobre alguém que não está preparado para ela… da mesma forma que não seremos grandes DJs se só sabemos passar música para ambientes específicos, em acontecimentos super-pontuais.

Quer dizer, seremos muito bons “naquilo”, mas o conceito de DJ é muito mais amplo que isso, na minha humilde opinião. Isto, é claro, se queremos fazer vida disto – obviamente. Se temos a sorte de poder recusar – como eu não posso – trabalho de determinada natureza, porque só queremos fazer trabalho de outra, porque o dinheiro não nos faz falta, então tudo bem!

Mas nesse caso, não seremos full-time DJs pois não? Seremos DJs duas vezes por mês, ou uma… Um DJ à prova de bala, como diz o meu querido amigo e guru Francisco “Mr. Cheeks” Milheiras “o melhor dj de todos, é aquele que é capaz de tapar todos os buracos, isso é tão trágico como valioso, porque tanto quanto saberá o seu valor, também será sempre reconhecido principalmente pelos seus colegas e raramente colocado na posição que merece”.

[Um parágrafo em parêntesis para dizer o seguinte… vou desde já pedir desculpa, se esta minha posição ofende alguém com posições diferentes da minha, mas esta minha maneira de ver as coisas é óbviamente, fruto da minha vida quotidiana ser feita nesta realidade, e de eu ter impenetrívelmente de viver neste universo, e de, dia após dia, viver com tanto os melhores DJs, como também com pessoas sem grande jeito para a coisa.]

Com alguns anitos debaixo do cinto, um DJ já deve saber como se faz para – à falta de melhor termo pragmático … – “pôr a malta a curtir”. E até há uns cincou ou seis anos, isso não era complicado, a fórmula era relativamente simples quando se fazia a noite toda num espaço de tamanho médio, anonimamente. Começando com poucas pessoas com música tranquila, puxa-se de pulso firme o andamento à medida que o número aumenta, mantento um andamento firme, descomplicado e estável, e quando a coisa estava já composta, escolhia-se um tema que garantisse reacção para dar o golpe de misericórdia, e oficializar a abertura das hostilidades que se estavam a acumular. Como uma grande preliminar seguida de um orgasmo.

Isto parecia ser uma constante invarável, e qualquer que fosse o registo estético que um dj passasse, fosse mais electrónico, quaternário, quebrado, lento, rápido, vocal, instrumental, variado, ou não, a coisa obedecia de forma relativamente fiável a uma lógica remotamente parecida com aquela acima descrita – e em grande parte dos sítios ainda assim é.

Contudo, aquilo que mudou n’ os tempos modernos foi que, de facto, entra mais uma variável à mistura. Ora, há sempre uma determinada facção das pessoas que saiem à noite, em Portugal – principalmente – que se estam nas tintas para música e o fazem para serem vistas – e tudo por aí fora. E portanto, só se soltam para se divertirem com a música (isto é, dançam) quando todos os outros já o fizeram. Esta é a malta que vai dar dicas ao dj, que se queixa por tudo e por nada e que nunca está bem em lado nenhum… porque não faz puto de ideia do que está a consumir, a maior parte do tempo. Bom, o problema, senhoras e senhores, é que esta espécie nunca esteve tão alastrada como agora.

Neste momento, eu diria que num clube de acesso generalizado, e especialmente num clube com um mínimo de “spin” mediático, cerca de 80% das pessoas que o irão frequentar, terão as suas ideias sintonizadas nesta frequência e atitude. E isto para um DJ é muito complicado, porque a verdadeira matéria-prima de um DJ não é o público nem o seu número, mas sim a sua vontade de se divertir. Se a prioridade do público é a de trocar impressões sobre acções da bolsa, ou discutir o perfume que fulana de tal usa, ou dizer mal da música que está a passar, que por acaso é o último grande maxi de um produtor revelação destacado na Boomkat naquela semana… o DJ nada pode fazer. A única hipótese será a de passar música que acompanhe esse estado de espírito: ligar o modo “sell-out” e percorrer a mala por todos os temas que se queriam tocar como “surpresas” e começar a tocá-los como últimas soluções… tirando qualquer carácter que inicialmente pudesse querer incutir ao trabalho que pretendesse realizar.

Causas? Talvez o facto de a música electrónica – ou usarei o termo “nocturna” por ser mais realista – estar de tal forma democratizada, que não tem qualquer ponto orientador junto de pessoas que não conhecem nada de nada, e nada querem mesmo conhecer. E lá vem aquela conversa da qualidade se confundir com a intensidade, e por aí fora (“granda som”, “só é bom quando é mesmo a rasgar”, e por aí – claro que há música intensa fantástica, mas o contrário também é verdade). Assim, grande parte das pessoas parecem estar a perder a sensibilidade natural que o público nocturno tinha para – espontaneamente – dançar e divertir-se inocentemente quando a música estava porreira, para simplesmente pastarem na pista de dança como gado sem vontade própria, sem saber muito bem o que está a fazer ali, aparte de apanhar uma “bezana”.

Por outro lado, essa informação toda também está a estimular o outro lado da questão, que é a criação de um número de artistas de qualidade insuperada, como nunca antes vimos, em termos relativos – per capita. Especialmente nas camadas mais jovens. Infelizmente, é uma questão de 8 e 80… e na minha opinião, é tempo de aplicar algum reforço negativo junto de pessoas que não demonstram atribuirem grande valor pela qualidade do serviço que muitos DJs portugueses – cada um à sua maneira – lhes está a tentar oferecer, no seu trabalho anónimo e humilde, noite após noite.



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