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Darfur Sartorialist

Será o Darfur uma inspiração para a moda actual?

Para Pedro Matos, o autor destas fantásticas fotos, claro que é. Sabe que à partida é no mínimo desconcertante associar uma região do Mundo assolada pela guerra, pela fome e pela miséria ao estilo de roupas aí usadas, mas sabe também que isso pode levar a novas e sábias reflexões. Durante os três anos em que lá viveu a trabalhar na ajuda humanitária, decidiu que cartografar o look do Darfur era outra maneira de contribuir no terreno.

Que fazias no Darfur? Como foste lá parar?

Bem, na verdade a minha formação não tem muito a ver com o que faço agora. Sou engenheiro do território pelo Técnico, mas trabalho com o Programa Alimentar Mundial nas operações de distribuição de comida. Neste momento estou a desenvolver um sistema de identificação nos dois grandes campos de refugiados do Quénia – Kakuma e Dadaab, com quase 600 mil pessoas – usando impressões digitais para garantir que só as pessoas que precisam mesmo de comida é que conseguem vir recebê-la. Operações humanitárias de grande escala são sempre um jogo do gato e do rato entre a ONU a tentar chegar a quem precisa e alguma gente pelo caminho que se tenta aproveitar do sistema.

Fui parar ao Darfur chateando muito as pessoas que lá trabalhavam. Mandei emails e telefonei durante mais de dois anos, até que finalmente me ofereceram trabalho, para fazer uma coisa muito específica – mapas. Depois de lá estar, foi mais fácil aprender outras partes da operação humanitária e começar a trabalhar onde queria, nos campos e na distribuição de comida.

Sendo o termo sartorialist conotado com aquele que se interessa pelo corte ou apresentação das roupas, como te surgiu a ligação de um termo aparentemente tão mundano com o Darfur?

De facto, as palavras Darfur e Sartorialist não parecem ter muito a ver, e não é suposto assentarem muito bem uma ao lado da outra. A ideia foi de facto essa, a de que, após o choque inicial, as fotos nos levem a pensar se a imagem que temos do Darfur, da guerra, dos muçulmanos, de mulheres sem liberdade, é correcta. A realidade dos países distantes encerra sempre uma complexidade que se perde quando assimilamos povos inteiros a uma ideia. Dos espanhóis sabemos que são um povo diverso composto por castelhanos, bascos, catalães, uma realidade complexa. Mas quanto mais distante é o País, mais simples é a narrativa e a nossa percepção desses povos. Afeganistão, Somália, Sudão, todos estes países parecem ser descritos de forma muito simples quando vistos de longe, quando na verdade encerram imensos paradoxos. No caso do Darfur, espero que estas fotos mostrem um lado que não estamos habituados a ver, mulheres muçulmanas vestidas de forma arrojada e com olhares marotos e homens islâmicos com expressões carinhosas.

Que te inspirava mais no visual das pessoas do Darfur? Como é que se decide que esta é uma bela foto?

A coisa que mais me impressionou foi a imaginação com que as mulheres combinam as cores. Entre o xaile o vestido ou teub (vários metros de pano enrolados à volta do corpo) e a roupa que vestem por baixo para cobrir o corpo, as possibilidades de coordenação são inúmeras e é quase impossível encontrar duas mulheres vestidas de igual. E muitas das restrições a que nos auto-impomos no Ocidente não existem. Existem outras restrições, claro, mas é por exemplo normal vermos mulheres de 80 anos vestidas de cor de laranja ou verde-alface. E enquanto em muitas partes de África isso é usual, nos países islâmicos é bastante menos comum as mulheres poderem exprimir-se de forma tão exuberante.

Sobre como decidir o que é uma bela foto…. as que chegaram ao Facebook e à exposição são o sumo de muitas centenas de fotos, e como fotografar não é o meu trabalho, perdi muitas fotos incríveis por não ter a máquina à mão. Mas o objectivo era mostrar uma África islâmica que não estamos habituados a ver, e espero que as fotos reflictam essa realidade

Já tinhas esse gosto pelo Sartorialism ou desenvolveste-o no terreno? E a técnica fotográfica, já vinha de trás ou é algo de novo?

É uma coisa curiosa, eu não sou mesmo nada fashionista e visto-me até de forma bastante deplorável… Mas a surpresa que tive com as roupas dos darfuris levou-me a querer partilhá-la com mais gente. A técnica não é nada de especial. Como a grande maioria das fotos foi tirada enquanto fazia o meu trabalho nos campos de deslocados, quase nunca tinha tempo para as enquadrar convenientemente ou conseguir a melhor luz. Mas acho que as fotos valem essencialmente pelas pessoas e expressões que mostram, e decidi que devia partilhá-las.

Como reagiam as pessoas à ideia? 

Eu conheço a maior parte das pessoas das fotos. Trabalhava com elas ou via-as todos os dias nos campos. Daí que muitas das expressões tenham uma intimidade que muitas vezes os fotojornalistas que viajam em trabalho não conseguem apanhar. Algumas das mulheres dos campos de deslocados, vindas das zonas rurais do Darfur e por isso mais recatadas, por vezes tinham pudor em que as fotografasse. Nesses casos não tirava fotos. Curiosamente, se começasse por fotografar as crianças, eram elas, as mães, a pedirem-me que as fotografasse!

Por onde é que já viajou o projecto? Como é que é recebido?

Há uma página no Facebook onde aparece uma imagem nova a cada dia. O Darfur Sartorialist também já andou como exposição pelo Bar 49 da ZDB, no Bairro Alto, pela Livraria Ler Devagar, da LX Factory, e pelo Festival Músicas do Mundo de Sines. As fotos têm sido recebidas com alguma surpresa, porque estas pessoas não correspondem, nem à imagem do Darfur que temos, nem à da mulher muçulmana. A associação entre Darfur e moda também deixa algumas pessoas desconfortáveis, mas espero que, após a surpresa inicial, esse desconforto dê lugar a uma reflexão sobre se as ideias que temos sobre certas zonas do Mundo é a mais correcta e se os media fazem o que deveriam fazer, o de nos mostrarem o Mundo em todas as suas dimensões.



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