David Bowie

David Bowie

Como ser herói todos os dias

Enquanto Lázaro apenas se ergueu uma vez dos mortos, Bowie fez disso carreira. Logo no início, por alturas de “Space Oddity” e “Hundy Dory”, Robert David Jones faleceu para dar lugar David Bowie, que mais tarde seria devorado pelo alienígena sexy e predador do Glam dos Mott The hopple, baptizado Ziggy Stardust. Comandante do intrépido exército de aranhas marcianas, Ziggy eventualmente cometeu o prometido suicídio rock’n’roll, em palco, como mandam as regras.

Conhecemos depois a sua fase de alma plastificada em que Thin White Duke injectou a soul americana com uma seringa robótica, imediatamente seguida pela Triologia de Berlim (“Low”, “Heroes” e “Lodger”) nascida por influência do Krautrock, do ambiente opressor duma cidade dividida por um muro e por uma ideologia e acima de tudo por influência de uma desintoxicação do seu companheiro de aventura Iggy Pop; cura essa onde cabia tudo, desde exercício extremo até uma dieta macrobiótica.

Então chegaram os loucos anos 80 e com eles a MTV e a era da comunicação que Bowie soube sempre aproveitar mas que, ao mesmo tempo, o relegaram para um estatuto de alinhado com as tendências em vez de ditador das mesmas. Isso nota-se em «Scary Monsters & Supercreeps», não sem os seus méritos, ou em «Let’s Dance», onde ele nos surge totalmente enquadrado na era e sem sentido de provocação.

Desde então, e passando por fases como o Drum’n’Bass e a Electrónica, Bowie nunca deixou de ser consagrado e reconhecido mas jamais voltou a ser desafiador, não voltando a seduzir multidões da mesma maneira electrizante e certamente deixou de ser o Bowie a quem ninguém ficava indiferente. Porque era um símbolo sexual do espaço sideral ou um maníaco da cocaína, porque era um fetichista da gestapo ou um tripalhoco de fantasias espaciais, fosse porque motivo fosse, Bowie estava no seu mais intenso e brilhante período quando tinha a confrontá-lo uma Inglaterra ainda demasiado Victoriana para as suas aspirações. Provavelmente por causa disso, o seu carácter andrógino era irresistivelmente hipnótico e cativante e, provavelmente por não ter adversário à altura, deixou de o ser.

Muitas vezes apelidado de Camaleão, Bowie, depois de uma luta de 18 meses contra o cancro, despediu-se de nós consciente do que estava a fazer, e por isso não como o animal transformista com que tantas vezes o compararam erradamente, mas como sempre viveu, como o eterno ressuscitado dos falecidos Lázaro. Desta feita abandonou-nos de vez, mas não sem deixar para trás uma multidão de Bowies para nos satisfazer. Sim David, tu serás rei.

Fotografia de Masayoshi Sukita



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