David Bowie | “The Next Day”

David Bowie | “The Next Day”

A nova vida do camaleão

No dia 8 de Janeiro deste ano, data que marcou mais um aniversário de David Bowie, o cantor britânico surpreendeu os fãs com uma prenda especial: a apresentação de «Where Are We Now?», primeiro single de “The Next Day”, o novíssimo e inesperado álbum.

Aos 66 anos, o “camaleão” continua a ser uma das mais irreverentes personagens do planeta pop/rock e, felizmente, ainda se sente capaz de se dedicar à arte de fazer (boa) música.

Quem também ficou boquiaberto quando recebeu um telefonema de Bowie foi o produtor Tony Visconti – responsável pelo som de discos como “Low” (1977), “Heroes” (1977) e “Lodger” (1979), que ficariam conhecidos com a Trilogia de Berlim. A proposta era a elaboração de umas maquetas.

Esse contacto seria a génese de “The Next Day”, um disco feito de forma informal e despreocupada mas envolto de um secretismo absoluto que, como se viria a provar, seria um dos alicerces do seu sucesso. Numa época em que a internet tem o condão de destruir muitas surpresas, o sabor deste disco revela-se ainda mais doce.

Bowie, especialista na arte de se transformar e reinventar, tinha deixado no ar, principalmente depois de ter sentido na pele o infortúnio de um problema coronário em 2004, a intenção de colocar um ponto final na carreira enquanto músico. A intensidade que dedicara à performance rock durante várias décadas e os muitos excessos que essa vida pode levar a tentar, serviam de “desculpa” para uma reforma antecipada.

A isso se juntaria o insucesso dos últimos dois trabalhos de Bowie. “Heaten” (2002) e “Reality” (2003) foram duas experiências menos felizes e mostravam-se pouco imaginativos. Se para muitos artistas estes dois discos poderiam ser sinónimo de um “bom trabalho”, para o homem que já encarnou Ziggy Stardust e fez-nos viajar por, e para, Marte, revelavam-se exercícios pouco inspirados. O fim adivinhava-se. Mais, o cantor de “Sound and Vision” anunciou mesmo que não voltaria a pisar o palco.

Mas de Bowie tudo, ou quase, é possível. Contra todas as expectativas, “The Next Day” surge em 2013 como um “disco voador”, um conjunto de canções repletas de bom rock. A imprensa internacional não tem qualquer tipo de dúvida em afirmar que estamos perante um dos melhores discos da carreira de David Bowie. Esta euforia inflamada tem, dizemos nós, muito a ver com o factor surpresa com que este lançamento se afirmou, com a sede de bons discos de Bowie e, essencialmente, por culpa da sustentabilidade e mestria da própria música fragmentada por parte da história discográfica do autor de “Space Oddity”.

É impossível negar, por exemplo, a clara influência da estética dos tempos berlinenses em “The Next Day”. Se a balada certeira que é «Where We Are Now?» faz referência directa à cidade alemã, também a capa do disco é um remake de “Heroes”. Será que Bowie levou uma década a fazer uma revisão de toda a sua brilhante carreira para chegar até ao disco agora lançado? A resposta poderia bem ser parte do refrão de «The Next Day»: “Here I am, not quite dying…”

Mas onde está a música de Bowie hoje? O que podemos esperar de “The Next Day”? Visconti tem por hábito referir nas entrevistas que concede a propósito deste novo disco que David Bowie tinha várias preocupações em mente, a maior das quais em fazer um disco descaradamente rock. Depois de uma primeira audição as dúvidas ficam desfeitas e temos a certeza de que o camaleão pode dormir descansado.

O ambiente de “The Next Day” está despojado de grandes truques musicais e é basicamente recheado pelos ingredientes que fazem a melhor receita rock: bateria forte, um baixo fluído e presente, guitarras descarnadas, suaves camadas de teclados e alguns metais. Quem sabe, nunca esquece.

A veia mais “dura” e orelhuda encontra o expoente máximo em «The Stars (Are Out Tonight)», talvez um dos mais prováveis hits radiofónicos deste disco e, sem dúvida, uma das melhores canções do álbum onde o groove está à solta e cola-se aos nossos ouvidos. As guitarras usadas em «(You Will) Set the World on Fire» proporcionam outro momento rock descarado, aqui com as memórias dos Kinks bem presentes.

A primeira música do disco, «The Next Day», é outro exemplo dessa vitalidade roqueira. A voz de Bowie continua igual a si própria apesar das cordas vocais já terem passado por 66 Primaveras. As guitarras arranham, os metais dizem presente e a bateria e o baixo falam entre si. Um começo prometedor.

À medida que vamos explorando o disco somos confrontados por algumas das mais conhecidas personagens a que David Bowie deu voz e corpo. Se «Dirty Boys» e «Boss of Me», por exemplo, levam-nos até aos tempos de “Station to Station” (1976) onde o saxofone assombrado destila soul envolta de um doce veneno resultante do universo de Thin White Duke, a viciante e dramática «Love is Lost» remete-nos para laivos góticos típicos de alguns trabalhos de Bowie durante a década de 1980. Aqui a guitarra é azedume e o diálogo entre órgão e baixo tornam estes quase quatro minutos em momentos fatalistas com Bowie, incrédulo, a perguntar: “Oh, What have you done?”

Já «If You Can See Me» e «Dancing Out In Space» fazem a ponte entre Berlim e “Let’s Dance” (1983), reflectindo um pouco também do ambiente jazzy com muita bateria de “Earthling” (1997). Num registo mais glam, «Valentine’s Day» é Ziggy Stardust até à medula. Os coros “sha-la-la” e a guitarra sem rede fazem-nos “recuar” até ao início da década de 1970.

«I’d Rather Be High» é outro dos exemplos onde é a linha da guitarra que tem a responsabilidade de sustentar todo o corpo da canção. Tarefa semelhante é conferida ao órgão em «How The Grass Grow», faixa onde somos remetidos para um dos hinos dos The Shadows, «Apache», com Bowie perto do falsete por alturas do refrão.

Os últimos momentos do disco apontam para uma atmosfera mais melancólica e melodramática com evocações épicas. «You Feel So Lonely You Could Die» afigura-se como uma ode ao desespero e «Heat», a última faixa de “The Next Day”, revela um Bowie travestido de Scott Walker apoiado em guitarras acústicas e em busca de um caminho, de uma identidade. “And I tell myself, I don’t know who I am”…

Culpas, vergonhas e medos à parte, “The Next Day” é um excelente disco. Para o assegurar, como na maior parte das vezes, David Bowie soube rodear-se de excelentes músicos e um produtor acima de todas as suspeitas. A guitarra de Gerry Leonard, o baixo de Gail Dorsey, a bateria de Zachary Alford, assim como as contribuições eléctricas dos mestres Earl Sick e David Torn dão músculo e coesão às 14 músicas do disco (17 na versão deluxe) e podem deixar orgulhoso o senhor David Robert Jones.



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