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David Fonseca

"A música é a parente pobre da televisão!"

Finalmente chegou a Primavera! Se para alguns de vós trata-se da estação do ano preferida, para outros é apenas o início de um novo ciclo, de um novo ano que está a começar. Também são muitos os compositores que transfiguram na sua arte os estados de espírito e sensações que as estações do ano provocam no seu interior e que ainda hoje sobrevive aos tempos. “Seasons” é o título do quinto álbum de originais de David Fonseca, que desta forma celebra a entrada desta adorável estação do ano com o subtítulo “Rising”. Para marcar a chegada do Outono/Inverno está prometida a segunda parte – “Seasons: Falling”, a partir de 21 de Setembro – para que todo este ciclo esteja perfeitamente completo.

“Basicamente, Seasons é apenas um só disco, mas lançado em dois tempos. O ano passado estava à procura de uma ideia forte para fazer um novo disco. Vi que tinha chegado a altura de fazer uma coisa ligeiramente diferente do que já havia feito no passado. Em meados de Fevereiro de 2011 tive a ideia de compor um disco que ocupasse um ano inteiro da minha vida, ou seja, tinha que estabelecer uma data-chave e durante esse ano faria as canções. À medida que iriam aparecendo, estas acabariam por ser colocadas no disco de forma cronológica. Como já estava em Fevereiro e não poderia voltar a 1 de Janeiro, comecei pela forma mais óbvia que foi a partir da contagem das quatro estações. Fixei a data a partir do dia 21 de Março e foi assim que começou o projecto. Quando pensei na edição do disco, pensei mesmo em editá-lo em quatro vezes, tal como as quatro estações, mas seria de loucos e editorialmente não me deixariam fazer isso (risos). Havia outra solução que passava por esperar o final do ano e lançar depois os discos, mas eu queria muito que a experiência do lançamento do disco fosse semelhante à experiência da sua própria composição. Em cada um destes discos tenho a representação dos seis primeiros meses em 11 músicas, mas existem mais duas músicas que vão aparecer só nas datas que dizem respeito a esse calendário (em formato digital em Abril e Setembro) e que serão oferecidas às pessoas.” explicou o próprio David Fonseca.

Depois de David se sentar confortavelmente à minha frente, com uma capa azul na mão ainda selada, reparei que o seu rosto estava visivelmente feliz. Acabara de receber a versão limitada à venda na Fnac e estava a analisar o resultado final. “A foto da capa foi tirada num carrossel em Vila Franca de Xira. Fui lá de propósito. Acabei por pedir autorização aos donos e tirámos uma série de fotografias da qual resultou esta”, diz com um enorme sorriso nos lábios, mas garantiu que nunca andou no famoso carrossel Kanguru e que não pretende sequer alguma vez andar. Todas as fotografias que podemos ver nos livros dos álbuns foram tiradas pelo próprio. Mesmo tendo uma grande equipa por trás, que o ajuda a desenvolver e a criar todo este trabalho artístico, David Fonseca não deixa de ser um one-man-show. Ideias e liberdade de criação e inovação nunca lhe faltaram e é esse o segredo de tanto sucesso.

«What Life Is For» é o single de estreia que toca nas rádios nacionais desde Fevereiro, e que já tem videoclip a circular pelas redes sociais, cuja realização esteve ao encargo do próprio cantor. Neste álbum, a fusão entre o rock e a electrónica são mais evidentes, como é visível nos temas «Armageddon» e «Heavy Heart (It Won’t Go Away)», que conta com a participação especial da voz de Catarina Salinas dos Best Youth. “Foi o Rui Maia (X-Wife) que me deu a conhecer o trabalho Best Youth através de um post no Facebook. Adorei de imediato a banda e a voz da Catarina. Não me recordo se na altura já tinha o tema, ou se este surgiu depois, mas sei que quando apareceu o tema foi a primeira coisa que me apareceu à cabeça. Há uma parte do tema em que há uma personificação de um ser feminino e que inicialmente era eu que o estava a fazer, mas depois achei que ser eu próprio a cantá-lo não tinha tanta piada. Às vezes acontece eu próprio personificar o lado feminino nos meus temas, mas ali era mais interessante que fosse alguém com uma voz mais quente e sexy a fazer essa aproximação.”

Para este novo trabalho, David Fonseca garantiu grande parte da instrumentação, contando ainda com a colaboração de alguns músicos que o acompanham há bastante tempo como Sérgio Nascimento na bateria, Nuno Simões no baixo e Francisca Cortesão (Minta) nos coros, e ainda de Rui Maia (X-Wife). É verdade que actualmente o panorama musical português está a atravessar uma nova fase em que novas bandas surgem no mercado. Sobre os novos talentos nacionais, David é da opinião de que esta nova vaga “tem a ver também com a abertura do espaço editorial e às vezes o problema tem a ver com o facto de estas bandas não conseguirem ultrapassar o espaço mainstream. Em Portugal o espaço alternativo é muito pequeno e é circunscrito às grandes cidades, que depois não tem impacto no país real. Penso que a maior parte destes projectos só começa a ter uma certa força profissional de se manter desta forma quando saem dos grandes centros porque pois é aí que está grande parte do público. Enquanto não se sai pelo país e se vai conhecer o público, por exemplo, em Castelo Branco, Braga, etc., acabam por ficar circunscritos a um meio muito pequeno. Contudo, a culpa nem sempre é das bandas, mas sim com a forma de como os media funcionam hoje em dia. Estes estão sempre à espera de coisas que não choquem com o que está estabelecido enquanto a nova música é exactamente ao contrário disso. Felizmente algumas publicações, algumas até nacionais, tentam furar esse ponto de vista, mas não é muito fácil. Eu acabo por surgir numa uma época meio estranha porque quando surgiram os Silence 4 éramos vistos como uma banda claramente alternativa, mas no espaço de um mês conseguiu-se fazer uma ponte muito rápida para um universo que não tinha a ver com esse universo alternativo. Tivemos logo imensos convites para ir tocar à televisão, começamos a passar nas grandes rádios nacionais, mas hoje em dia nem esses programas existem. Se uma pessoa quer ir tocar à televisão, não há. Nem para os alternativos, nem para os mais estabelecidos. A música é a parente pobre da televisão!”

David Fonseca

Mas se a palavra crise se tornou a desculpa para tudo, no mundo da música acaba por não ser novidade. Segundo o próprio, claro que se sente a crise, não pelo lado criativo, mas enquanto lado mais técnico da profissão. É visível a crise nas quebras de vendas dos discos, na venda dos concertos e em todos esses pormenores que compõem a profissão. Todavia, David Fonseca é da opinião de que vivemos uma altura muito interessante para a música e que nada tem a ver com o que está pré-estabelecido e que tenta basicamente ultrapassar uma crise. Voltamos desta forma à inovação e renovação dos formatos para que o artista consiga manter e ganhar novos seguidores do seu trabalho. Como forma de agradecimento e reconhecimento por aqueles que seguem o seu trabalho, David Fonseca criou em 2009 o clube Amazing Cats que se trata de uma comunidade online que tem acesso exclusivo a outros trabalhos do artista. “A ideia da criação do clube foi a forma mais simples que encontrei de estar mais perto daquelas pessoas que se interessaram verdadeiramente por aquilo que eu faço. São aquelas pessoas que estão sempre à frente dos meus concertos; que ganham concursos para passar o dia inteiro comigo no backstage. Neste grupo há pessoas que seguem o meu trabalho há vários anos e isso, a certa altura, começou a ter muito peso em mim. Estas pessoas são parte do meu sucesso e é graças a elas que consigo fazer disto uma profissão em Portugal. E digo isto porque esta profissão é estupidamente difícil, porque não somos um país muito ligado à ideia de ver a arte como profissão. Aliás, desde o início que os meus pais sempre foram os primeiros a dizer “cuidado com essa profissão que é muito difícil e estranha” e eles tinham razão. Não é uma profissão com horário das 9h às 5h e nunca será, não é uma profissão que conta com subsídios e a última coisa que eu gostava era depender disso. Nem faz sentido algum. Portanto, quando olho para estas pessoas penso que são elas que tornam isto tudo possível.”

Todas as suas canções são inspiradas em acontecimentos da sua vivência pessoal. A ideia da projecção das suas experiências serem transfiguradas para uma personagem não o deixa à vontade, mas David Fonseca acaba por admitir que escrever na primeira pessoa é mais difícil porque faz sempre uma auto-análise sistemática de si mesmo e “eu gosto muito de fazer o que faço, mesmo que não fosse a minha profissão eu faria isto na mesma. Talvez não o fizesse com tanta intensidade como faço, mas é uma maravilha dizer que isto ocupa-me todas as horas, ou pelo menos metade dos meus dias, todos os dias.”

“Seasons: Rising” é um doce de álbum, repleto que boas melodias, letras bonitas, carregadas de paixão e que traz inquietudes saudáveis à nossa alma. “Seasons: Falling” torna-se assim o disco mais esperado, pois a curiosidade fica mais apurada e desassossegada. Desta vez, os concertos de apresentação terão lugar nos dias 3 de Abril na Sala TMN ao Vivo em Lisboa, dia 4 de Abril no Teatrix em Coimbra e dia 5 chegará ao Porto, mais concretamente no Hard Club. Quanto ao local escolhido para a apresentação em Lisboa, “eu disse à minha agência que queria tocar em sítios onde as pessoas estivessem de pé e parecesse um clube e não fosse um sítio muito grande. É esse o tipo de concertos que fazemos em Espanha e eu adoro estes concertos! É uma pena que não haja muitos espaços como estes em Portugal porque se houvesse eu corria-os todos. Não sou um músico que só quer tocar em espaços grandes. Eu quero tocar em todos os espaços e gosto particularmente de ter as pessoas ao pé de mim e da banda e que não haja uma distância muito grande”. Quanto a uma digressão no estrangeiro, David Fonseca espera regressar ao Brasil, onde foi amplamente bem recebido durante uma mini-digressão realizada no ano passado, e prepara-se para lançar este álbum em Espanha e na Polónia onde já se escuta o seu último single.



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