David Fonseca

Entrevista exclusiva para a rua de baixo.

Poucos músicos vivem momentos de gloriosa aclamação pública e comercial e conseguem manter a sua postura inicial, a sua simplicidade do começo, como se tudo fosse uma nova descoberta. David Fonseca é um desses casos. Depois da aventura dos Silence 4, depois de um intenso Verão a bordo do vaivém Humanos, ele aí está, pronto a mostrar o seu segundo disco a solo, com a mesma entrega, dedicação e simpatia de sempre.

“Our Hearts Will Beat As One”, assim se chama o trabalho, rompe algumas barreiras com o primeiro álbum solo do músico, “Sing Me Something New”. É um disco diferente, reconhece o próprio David: «Para começar, os dois partem de princípios muito diferentes. No primeiro disco não existia uma ideia inicial, apenas uma série de canções que eu tinha feito e que coloquei dentro de um trabalho. Neste novo, a ideia foi parar de tocar e construir um disco de raiz». Em “Our Hearts Will Beat As One”, David Fonseca faz-se acompanhar por uma banda onde pontuam, entre outros, Rita Pereira (ex-Atomic Bees) e Sérgio Nascimento (baterista dos Humanos). «A composição dos temas, apesar de agora ser efectivamente acompanhado por uma banda, é sempre minha, faço uma maqueta que mostro a todos e a partir daí trabalhamos a música em conjunto», confessa David sobre esta nova forma de escrever. Outra das ideias chave deste segundo álbum do músico foi a simplificação de operações e costumes, desde a composição dos temas até ao inlay do disco: «A ideia desde o primeiro dia foi simplificar aquilo que eu complexificava cada vez mais», remata David.

Entre o lançamento de “Sing Me Something New” e a saída deste “Our Hearts Will Beat As One”, David reflectiu sobre a sua missão no mundo e agora afirma, sem hesitações, querer viver da música e fazer do espectáculo a sua profissão. «Descobri isso quando comecei a escrever canções para este disco e tive de deitar muitas fora… haviam canções suficientes para começar um projecto alternativo (risos). Nessa altura percebi que não faria sentido olhar para os discos que faço com um ar fatalista e pensar nisto como algo temporário». «Todos os mecanismos desta profissão são um pouco dúbios, as digressões extensíssimas, a dinâmica de banda, o tempo em que funciona, o estúdio, é completamente a antítese de um emprego normal. Talvez seja isso que lhe dê gozo, no entanto», confessa um visivelmente entusiasmado David.

Nota-se nas orquestrações, nos arranjos, no aspecto visual inclusive, um apurado cuidado estético e artístico na obra do músico. «Sou terrivelmente perfeccionista. Defendo que os músicos devem alargar a sua visão a outras artes que não a música, como a parte visual de vídeos, fotos, Internet… acredito que tudo está relacionado», diz David sobre a complementaridade entre artes que o próprio assume apreciar. “Our Hearts Will Beat As One” não significa, como à partida pode aparentar, uma utópica visão amorosa: «Tenho uma ideia muito pouco romântica dos títulos (risos). Este título representa o sentimento que mais tarde ou mais cedo as coisas farão nexo, perceberemos o sentido de tudo, a direcção em que vamos, o que nos acontece», assume o músico. Sobre a posição da música no âmbito geral de todas as artes, David tem uma ideia muito clara: «Creio que a música é o parente pobre de todas as artes por ser o mais popular, se a música não fosse tão popular provavelmente seria mais intelectualizável. É mais fácil puxar todo o tipo de arte para a música do que o contrário. Lembro-me por exemplo do disco a solo da Roisin Murphy [dos Moloko], que conta com a participação de diversos pintores contemporâneos ingleses. Dificilmente a música se iria imiscuir numa galeria de pintura», remata David, acrescentando ainda que, apesar de tudo, «prefiro que assim seja, prefiro que a música não seja levada tão a sério. Esta ideia da arte institucionalizada é muito tola, toda a arte tem de estar necessariamente próxima do público».

Visualmente falando, as músicas de “Our Hearts Will Beat As One” não remetem, segundo David, para imagens muito fortes: «Não me parece que a minha música seja tão graficamente forte como a de uns Sonic Youth, por exemplo, que se inserem numa linha muito clara do princípio ao fim, de uma certa Nova Iorque. Contudo, se tiver de situar as minhas músicas, creio que estas remetem para uma viagem entre o campo e a cidade, uma cidade como Lisboa. Mas acho que as minhas músicas direccionam-se mais à ideia de um indivíduo, têm mais a ver com imagens interiores do que paisagens urbanas».

David Fonseca assume-se sem reservas como um músico de emoções. «Os meus discos são muito mais emocionais do que de racionais, falam de momentos muito específicos». Contudo, assume-se fã de alguma música mais cerebral, como a praticada pelos Autechre, «banda extremista de arquitectura sonora, mas que praticam um som que eu nunca conseguiria fazer, quero ser mais explícito, mais claro, mais quente, quero ter uma linguagem pop mais entendível».

Tema de inevitável recorrência é a passagem do músico pelos Humanos, provavelmente a experiência musical mais bem sucedida em Portugal desde os… Silence 4. «É capaz de ser verdade, é (risos)», assume um meio envergonhado David. «É curioso porque lembro-me de dizer ao Hélder [Gonçalves] que estavam reunidas todas as condições para os Humanos serem um sucesso, mas sempre lhe disse que isso só sucederia se estivéssemos em 1997 ou 1998, porque hoje em dia as coisas não funcionam assim. O que é facto é que o sucesso aconteceu, nunca pensámos que as coisas corressem tão bem». Neste percurso dos Humanos, houve um momento chave para David que sintetizou todo o sucesso do projecto: «Lembro-me de ter percebido que aquilo seria um sucesso quando alguém da minha aldeia, perto de Leiria, disse-me que tinha ouvido uma música onde eu tinha participado. A música era a «Maria Albertina», e aí percebi o quão grande impacto tinha esta música e todo o nosso repertório, capaz de chegar a pessoas que nunca ouvem música. Com os Silence 4 isso também aconteceu, ainda mais inexplicavelmente, parece-me».

David Fonseca ao vivo, versão 2005, faceta “Our Hearts Will Beat As One”. Como será? «Será totalmente diferente do que fiz até hoje», promete o músico. «Os concertos têm de ter uma componente de espectáculo, entretenimento, que esteve sempre muito apagado durante o meu passado e que vai agora sobressair. Obviamente, vamos atacar este disco em grande, e fazer também algumas versões, que é algo que gosto muito. É uma responsabilidade maior, mas é também uma parte lúdica do espectáculo, pelo menos para mim».

O primeiro espectáculo da nova digressão do músico está marcado para dia 11 de Novembro, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. Depois, segue-se a natural promoção por todo o país. Uma coisa é certa: “Our Hearts Will Beat As One” é desde já candidato a melhor disco pop de produção nacional do presente ano, óptimo rebuçado para dias e noites de um Outono que se antecipa frio e ventoso, propício a um disco que nos aqueça e embale. David Fonseca mostra que o sucesso e a atenção em sua volta não é em vão, e afirma-se, caso houvessem dúvidas, como um dos melhores escritores de canções portugueses. «Acho que o Sérgio Godinho escreve um milhão de vezes melhor que eu…», afirmou este conversador nato, modestamente, durante a entrevista. Porque a modéstia e a simplicidade são duas fortes armas de carácter e personalidade, David Fonseca está aí para quem quiser escutar as 11 pérolas de “Our Hearts Will Beat As One”, verdadeiro manual de vida, de histórias, de contos. De luminosas emoções.



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